“O futuro é um nada.” Na boca de Rosa, essa sentença soou muito mais forte e impactante do que a de morte que recebera de seus algozes.
Perante praça pública, a ré foi julgada e condenada. De joelhos, embaixo do sol escaldante, ela ergue a cabeça e vê o sol a pino, no cume de seu brilho. Ouve atrás de si os passos firmes e compassados da morte. Seu rosto soa. Em sua tez, o fulgor de sua luta, de sua causa. Os passos se comprimem, diminuem o espaço entre a vida e a morte, entre o último respirar e o movimento do dedo tocando o gatilho. Mascarado, com o capuz que lhe orna e esconde o rosto, estende a arma em direção a nuca da mulher condenada. Rosa sente a ponta fina e gélida da escopeta tocar-lhe. Seu coração continua sereno, diferente do de seu algoz. Sem rosto é o execrável que lhe condena.
Trêmulo, empunhado de sua arma, tem em sua mão o fim de uma vida. Não qualquer vida, mas a de uma mulher engajada: Rosa Flor. Este é o nome que aparece no começo da lista que se estende em linhas incontáveis, páginas após páginas.
Rosa continua altaneira, sabe porque está sendo condenada e não teme o infortúnio que virá. Mais valerá uma morte no corpo do que n’alma.
Suas mãos amarradas atrás das costas roçam nas cordas que as mantém unidas. É assim que pretende vencer o inimigo: de mãos dadas. Um troncho grita do meio da praça para que tenham misericórdia da pobre mulher. Em seguida, todos que presenciam tal atrocidade começam a vaiar, berrar, gritar palavras de ordem e justiça. Um princípio de mixórdia, quizumba, imbróglio se instaura no local. Indignadas com o evento que sabem serem capitular, as pessoas começam a ficar atônitas: sabem que isso se repetirá por vários episódios. Seus filhos, netos e irmãos talvez sejam os próximos a serem executados. Talvez, quem ali vê o trágico fim de Rosa Flor não assistirá a adjacente ocorrência do circo dos horrores, pois pode ser a próxima vítima desse massacre premeditado. Um começo de charivari se estabelece, mas logo é acalmado com um tiro para cima. Contra uma atitude déspota de coerção só há uma escolha certa: a morte para a vida.
O feminil grita horrorizado pelo trágico fim que há de se suceder ao disparo da arma em direção a mulher de joelhos. Os homens tentam uma escaramuça contra os guardas, mas logo são acuados pelos dez brutamontes agarrados em seus paus de expelir fogo.
Nada se pode fazer a não ser presenciar a vitória parcial do mal.
Rosa já sabia que sua morte não seria em vão, que valeria cada palavra sua pregada e propagada. Cada gota de sangue, que outrora corria em suas veias e que, em questão de segundos, haveria de encharcar o tablado e o responsável por tocar o gatilho, tinha um sentido. Tomada pelo espírito da revolução esbravejou: liberdade é a causa! União é o caminho!
Em seguida, ouve-se um disparo e um projétil rompe com violência um crânio. Ensanguentado e se debatendo, o algoz cai no chão. Um levante é feito e homens se jogam com força e espírito na direção dos soldados que estavam fazendo a segurança do local. O acontecimento abrupto pegou todos os soldados desprevenidos e sem reação. Não aguentaram o mar de pessoas que os cobria. Socos, pontapés, chutes, puxões, golpes desferidos com o punho, pé, paus, foices, enxadas, com todos os objetos possíveis era o que se via. Então, alguém desata o nó dos braços de Rosa Flor e ela grita, com o punho levantado: “Resistência! A democracia se resfolega na luta armada”. E os ânimos reavivam.
DeCastro


Gente!
ResponderExcluirAcho lindo que tem dom da escrita. E quem sabe passar pelas palavras algo de bom (ou até de ruim mesmo!).
“Resistência! A democracia se resfolega na luta armada”. E os ânimos reavivam. Essa última frase ironicamente diz muito sobre o que passamos no atual governo
Beijinhos, Helana ♥
In The Sky, Blog / Facebook In The Sky
É verdade, Helana. Você conseguiu captar o espirito da coisa.Ser um leitor competente, nos dias atuais,é uma dádiva.
ExcluirBeijos.
Que texto lindo! A intensidade das palavras narradas nos leva facilmente para o momento descrito. Em segundos me envolvi com a história de Rosa e sua causa. Parabéns pela maestria no uso das palavras. Tocante, envolvente e intenso.
ResponderExcluirBjim
Tammy
Livreando | Facebook
Sempre que leio esse conto sinto o tempo carregado se fechando sobre mim. Vivo com Rosa Flor cada momento macabro e o derradeiro fim.Obrigado pelas palavras de incentivo.
ExcluirBeijo
Cara você tem um dom. Não deixe de aprimorá-lo sempre. O conto ficou incrível, tocante, forte. Você tornou um ato violento memorável e um grito pela liberdade, tanto do corpo, quanto da alma, quanto nossa liberdade de expressão. Parabéns.
ResponderExcluirBeijos
Vidas em Preto e Branco
Obrigado, mas preciso discordar um pouco- só um pouco uahsuash de você. Não acho que tenha o dom, acho que sou obstinado e dedicado a literatura e sim, sempre aprimoro meu trabalho. Lary, conseguiste pegar o momento da coisa e fico feliz por isso. Afinal, hoje em dia as pessoas confundem saber ler com decodificação de palavras.
ExcluirBeijos
Muito legal o conto. Parabéns!
ResponderExcluirUm ótimo texto para eu ler neste dia do professor.
saber se expressar em palavras é uma dádiva.
www.vivendosentimentos.com.br
Muito obrigado. Tens razão sobre o saber usar as palavras. Elas são sagradas!
ExcluirOlá, Filipe.
ResponderExcluirEu amei o seu texto. Você conseguiu me prender lá no primeiro parágrafo. São tão poucas palavras, mas me vi envolvida na história e lutando junto com Rosa por dias melhores. Parabéns.
Blog Prefácio
Olá Sil.
ExcluirQue bom que gostou do conto e que consegui cativá-la do início ao fim.
"Resistência! A democracia se resfolega na luta armada"
Oie!
ResponderExcluirNossa, muito bom! Parabéns!
Bjks!
http://www.historias-semfim.com/
Oi Carla, muito obrigado.
ExcluirBeijos.
Oi, adorei a escrita, paranéns, venha escrevendo "o que der na telha" ;)
ResponderExcluirhttp://grandemetamorphose.blogspot.com.br/
Olá, obrigado pelas palavras de incentivo. Continue acompanhando o blog e, claro, a coluna.
ExcluirOlá, tudo bem?
ResponderExcluirAmei sua escrita, você tem muito talento, até o modo como você descreve a morte é algo especial, parabéns
http://leesoncre.blogspot.com.br/
Olá, vou bem sim, Sthefanie e você?
ExcluirQue bom que gostou e talvez a morte seja sim, algo especial. Afinal, podemos entende-la como um ciclo ou passagem para algo.
Olha confesso que sou uma negação para a escrita e por isso
ResponderExcluireu acho que você deveria usar esse DOM para escrever um livro, porque
você leva jeito. Achei o seu texto bastante reflexivo e profundo. Acho que muitos leitores que ainda não conhecem seu modo de escrever iriam adorar. parabéns de verdade =]
http://lovereadmybooks.blogspot.com.br/2015/10/dia-de-quote-11.html?m=1
Sou grato por suas palavras de carinho e incentivo. Tenho dois livros de contos publicados, um terceiro saindo do prelo e estou finalizando uma novela literária que pretendo publicar ano que vem. Deveras, pretendo sempre trazer reflexões na obra e para meu prazer, os leitores desse blog tem tido competência na leitura.
ExcluirNossa que lindo o texto, encontrei muita profundidade nas palavras. Confesso que queria ter um dom assim de escrever tão bem. Parabéns!!
ResponderExcluirBjs
http://livrosemarshmallows.blogspot.com.br/
Não sei bem se é dom ou empenho e obstinação. Tente escrever algumas linhas, talvez você se surpreenda consigo.
ExcluirBeijos.
Gostei muito do conto. Sua escrita é fluída e permite imaginar a cena sem dificuldades. Gostei de ver que a Rosa, por fim, semeou e colheu a justiça. Acho que nada é mais legal do que ver o povo oprimido assumindo o controle de suas vidas.
ResponderExcluirBeijos!
http://www.myqueenside.blogspot.com
Isso. São por comentários assim que confirmam meu trabalho. Acho que é por ai mesmo que a coisa acontece. Obrigado pelas palavras.
ExcluirBeijos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirEste comentário foi removido pelo autor.
ExcluirTenho que admitir que você me conquistou no último parágrafo, gosto muito de histórias sobre guerras e revoluções, e seu texto mostrou isso de uma forma muito impressionante!
ResponderExcluirVocê tem mais textos no blog? Vou dar uma olhada, curti sua escrita!
Sucesso e beijos!
Juliane.
"“Resistência! A democracia se resfolega na luta armada”. E os ânimos reavivam." Eis aqui todo o cerne em potencia do conto e sim, tenho mais textos no blog. Confira e depois diga-me o que achou.
ExcluirBeijos, Juliane.
Nossa, bem trágico hein! Mais bem intenso, parabéns.
ResponderExcluirVocê escreve muito bem, e o texto é bem interessante.
Pretendo escrever um livro?
livrosvamosdevoralos.blogspot.com.br
Obrigado, Leticia. Sim, eu tenho 2 livros publicados, um terceiro saindo do prelo e estou finalizando uma novela literária para o ano que vem. Mas respondendo a você: pretendo continuar escrevendo.
ExcluirParabéns Filipe! Linguagem bonita e palavras rebuscadas de grandes literatas emolduradas pela sensibilidade dos filósofos... Parabéns! Já te disse, né?? Vc tem minha admiração!!!
ResponderExcluirTenho apenas a agradecer você pela colaboração na minha formação e as sempre palavras de incentivo. Obrigado, Mestre.
ExcluirOi,
ResponderExcluirNossa que texto intenso, né? Mas serio, adorei a escrita e os sentimentos que ela pode passar :D
http://perdidoemlivros.blogspot.com.br/
Oi, realmente há uma intensidade no conto e que bom que gostou do texto. Continue acompanhando o blog e, claro, minha coluna.
ExcluirOi Fê! Parabéns pelo texto maravilhoso. A intensidade em sua escrita aparece do início ao fim e isso acaba prendendo o leitor o que é ótimo
ResponderExcluirBeijos
Amor Literário
Que bom que gostou Fernanda. Espero que continue acompanhando o blog e, evidentemente, a coluna "O quer na telha-com DeCastro"
ExcluirBeijos.
Belas palavras e ótima escrita.
ResponderExcluirÉ um conto bem profundo e bem a ver com nossa realidade, é impossível não se envolver com Rosa e seus dramas.
Lisossomos
Olá, Déborah.
ExcluirPenso que o artista/escritor não tem nenhuma obrigação com movimentos e engajamentos, entretanto, quando se envolve, é fato, o efeito surtido é imenso. Que bom que gostou. Continue acompanhando as sagas não só de Rosa Flor, mas de tantos outros personagens que emergem por aqui.
Olá!
ResponderExcluirParabéns pelo texto, você escreve muito bem! Já pensou em publicar? Vou enviar por um amigo que adora esse tipo de escrita *-*
Oi, Amanda.
ExcluirObrigado pela felicitações e sim, tenho 2 livros publicados e um terceiro saindo do prelo, além de uma novela literária que sairá ano que vem.
Mande sim, será um prazer poder trocar idéias.
Parabéns pelo texto! De verdade! Escrever é um dom e pouco conseguem passar tanta emoção assim!
ResponderExcluirBeijos, Tabatha
http://aproveiteolivro.blogspot.com.br/
Obrigado Tabatha, Vejo na escrita todo o processo de construção social e de mim, então dou a devida atenção e esmero ao trabalho.
ResponderExcluirBeijos, DeCastro
Olá
ResponderExcluirVocê escreve muito bem.Parabéns porque seu trabalho é muito bom,adorei o texto.
Bjss
Oi, Liv
ExcluirQue bom que gostou, espero que continue lendo meu trabalho e acompanhando o blog. Obrigado pelas felicitações.
Beijos
Estou encantada com sua escrita. Dramática, intensa e impactante, sério mesmo.
ResponderExcluirEu adorei, você realmente manda muito bem, se ainda não escreveu um livro, corra pois quero ler.
Amei
Sempre procuro recortar da realidade fragmentos que julgo serem importante e colar na folha para mostrar meu modo particular de ver. E isso faz do meu texto tudo o que você acabou de dizer sobre ele e sim, tenho dois livros publicados, além de uma terceira coletânea saindo da prensa logo, além de uma novela literária que está disponível ano que vem.
ExcluirObrigado pelas palavras de carinho.
Já na primeira frase me peguei 'viajando' com suas palavras e embarcando no mundo de Rosa.
ResponderExcluirO futuro é um nada - e continuará sendo se virarmos as costas e não nos unirmos pelas causas que realmente importam.
Parabéns pelo texto!!!!
Beijinhos,
Lica
Amores e Livros
Muito bem, Lica. Você conseguiu alcançar o âmago do conto. Nós, artistas/escritores não temos nenhuma obrigação com o real, entretanto quando nos comprometemos com algo e usamos a escrita de forma adequada o resultado tido dai é surpreendente. Beijos, DeCastro.
ResponderExcluirWOW!
ResponderExcluirAo passo que o texto da semana passada não me conquistou, esse me deixou boquiaberta. Parabéns DeCastro. Você soube falar de uma forma muito fluída sobre a Rosa e nos mostrou que ela foi capaz de plantar e colher a justiça que tanto queria.
Estou muito feliz de ter tido a oportunidade de ler esse texto.
Beijos
http://mileumdiasparaler.blogspot.com.br/
Rá, falei que nem sempre acertamos. Fico feliz em saber que esse texto cativou você. És sempre tão presente e atenta ao meu trabalho que senti falta do teu comentário essa semana. Obrigado pelas palavras.
ExcluirBeijos.
Belo texto, muito bem escrito e profundo. É a primeira vez que leio algo seu e gostei bastante, vou aguardar outros textos
ResponderExcluirbeijos
www.apenasumvicio.com
Obrigado, esse é o nono texto meu no blog.Todas quintas há novos textos. Continue acompanhando e comentando. Beijos
ResponderExcluirOla Felipe adorei o texto, muito bem escrito . E com desfecho impactante muito bom.
ResponderExcluirSucesso.
abraços
Joyce
www.livrosencantos.com
Olá, Joyce.
ExcluirQue bom que gostou e muito obrigado pelas palavras de carinho.
Olá. Meus parabéns pelo texto. Escreve incrivelmente bem. Com alma e com uma dedicação muito destacável. Um texto atraente aos olhos, mas também, revoltante e inspirador. Mostra bastante, principalmente no final, a situação atual.
ResponderExcluirBeijos e continue escrevendo.
Oi, Irisvanda.
ExcluirRealmente, acredito que nosso atual momento político traz a baila questões levantadas pelo conto e fico feliz em saber que as pessoas conseguem atingir, geralmente, o sentido contido no fundo do texto. Seguirei seus conselhos: continuarei escrevendo.
Beijos
Não me ative a detalhes e escrevi na conta da minha noiva, desculpe o equivoco.
ExcluirDeCastro.
Olá.
ResponderExcluirTudo bom?
Nossa seu texto foi ótimo, bem profundo, acho que não li nada parecido na blogosfera.
Muito inspirador. Parabéns!
Beijos
Olá, vou bem sim e você?
ResponderExcluirObrigado pelas palavras de carinho e sim, também acho que esse texto ocasiona reflexões que nos dias atuais, são importantes de se fazer.
Sobre a blogosfera, não posso dizer nada, afinal apenas escrevo e não sou um frequentador de blog, mas se dizes, acredito.
Espero que inspire-a.
Beijos.