sábado, 22 de outubro de 2016

Resenha: Desonra - J. M. Coetzee

Sinopse: Sucesso de público e crítica - foi publicado em mais de vinte países e ganhou o Booker Prize, o mais importante prêmio literário da Inglaterra -, Desonra é considerado o melhor romance de J. M. Coetzee. O livro conta a história de David Lurie, um homem que cai em desgraça. Lurie é um professor de literatura que não sabe como conciliar sua formação humanista, seu desejo amoroso e as normas politicamente corretas da universidade onde dá aula. Mesmo sabendo do perigo, ele tem um caso com uma aluna. Acusado de abuso, é expulso da universidade e viaja para passar uns dias na propriedade rural da filha, Lucy.
No campo, esse homem atormentado toma contato com a brutalidade e o ressentimento da África do Sul pós-apartheid. Com personagens vivos, com um ritmo narrativo que magnetiza o leitor, Desonra investiga as relações entre as classes, os sexos, as raças, tratando dos choques entre um passado de exploração e um presente de acerto de contas, entre uma cultura humanista e uma situação social explosiva.

Antes de qualquer coisa: a leitura de Desonra, obra de J. M. Coetzee, foi aterrorizante para mim. 

David Lurie é um professor universitário que já não vê mais sentido em sua profissão. David parece não se resolver bem com as coisas ao seu redor, mas está bastante ciente quando se envolve sexualmente com uma de suas alunas, Melanie. A jovem acaba tendo problemas pessoais e o caso acaba vindo à tona. Resultado: o professor Lurie é afastado da universidade. E sem saber ao certo o que fazer, decide passar uns tempos com sua única filha, na África.

“Ele continua ensinando porque é assim que ganha a vida; e também porque aprende a ser humilde, faz com que perceba o seu papel no mundo. A ironia não lhe escapa: aquele que vai ensinar acaba aprendendo a melhor lição, enquanto os que vão aprender não aprendem nada.”

Lurie não pareceu se importar em ser afastado da universidade, pois como mencionei anteriormente, ele já não via mais sentido na profissão. Além disso, Lurie se recusou a admitir estar arrependido de ter tido o caso com Melanie, o que o pouparia do afastamento. A verdade é que ele não se arrependeu, mesmo tendo causado nela algo tão forte e devastador que a fez querer desistir do curso. Minha repulsa pelo personagem começou aí. 

A filha de Lurie, Lucy, tem um estilo de vida totalmente diferente do estilo de vida do pai. Ela mora numa fazenda, cultiva seus alimentos, mantém um hotel para cães e tem uma perspectiva diferente da perspectiva do pai em relação aos animais. Inicialmente, Lurie pretende passar uma semana por lá, mas ele acaba ficando mais do que planejou.

"É mesmo. Não tem mais verba. Na lista de prioridades do país, não tem lugar para os animais."

E é na fazenda, um ambiente aparentemente inofensivo, que a vida de Lurie e principalmente a de Lucy, se complica de vez. O que acontece é bastante forte ao ponto de me fazer querer correr para os braços da minha mãe e chorar. Passamos, então, a acompanhar a trajetória desses dois personagens, que de formas diferentes, tentam, apenas tentam, se reerguer.


Desonra é um livro forte, sua composição é dura. Eu me senti desafiada pelo autor, pois muitas vezes tive que adiar a leitura por conta dos sentimentos que ela estava despertando em mim. Desonra é angustiante, triste, desesperador. Vejamos:

Em relação a personalidade de David Lurie: eu conclui o livro repetindo mentalmente “eu odeio, odeio, odeio, odeio esse cara!”. E, de fato, eu o detesto. Eu comecei a detestá-lo no início do livro por conta do seu egoísmo em relação a Melanie e seu pensamento machista. Depois, passei a detestá-lo pelo seu comportamento em relação aos animais e a sua inflexibilidade. Então há um momento no livro que Lurie parece começar a querer ser alguém digno de respeito, ele passa a mudar de opinião e fazer algo pelos animais ao seu redor, ele parece sofrer com o sofrimento dos animais. Mas esse momento é insuficiente, pois os atos de David Lurie não complementam as suas ideias. Portanto, esse momento é efêmero. E isso se ilustra no último ato do livro. Quem sabe um dos objetivos da obra seja demonstrar a fraqueza humana.

"Então, ótimo. Desculpe, filha, mas acho difícil me interessar pelo assunto. É admirável o que você faz, o que ela faz, mas para mim quem cuida do bem-estar dos animais é um pouco como um certo tipo de cristão. É todo mundo tão alegre e bem-intencionado que depois de algum tempo você fica com vontade de sair por aí estuprando e pilhando um pouco. Ou chutando gatos."

O acontecimento que muda balança a vida de pai e filha afeta, principalmente, Lucy. Eu simplesmente quis entrar ali na história e dar uma sacudida na Lucy, dizer: “Pelo amor de Deus, faz alguma coisa”, mas isso, eu confesso, é um erro meu. Eu também sou uma mulher. Concluí o livro aceitando a escolha de Lucy, por mais insana e irracional que ela possa parecer. 

"É esse o exemplo que gente como Bev quer dar. O exemplo que eu tento seguir. Repartir alguns dos nossos privilégios humanos com os bichos. Não quero voltar numa outra vida como um cachorro ou como porco para viver como os cachorros e porcos vivem com a gente agora."

Gostaria de poder compartilhar esse livro com muitas pessoas, mesmo sabendo que ele é capaz de causar e certamente vai causar embrulho no estômago e um desespero absurdo. Desonra nos faz pensar em como a vida humana é instável e pode se tornar miserável. Desonra exala desespero, agonia, injustiça, fraqueza, nojo, frieza e humilhação. Repito: eu adoraria que muitas pessoas lessem essa obra, mas certamente nem todas as pessoas conseguirão suportar a carga.


2 comentários:

  1. Olá! É interessante lermos algo que nos incomoda e nos tira do lugar comum. Entretanto, confesso que corro um pouco dessas leituras e, ainda assim, de vez em quando sou surpreendida por um livro "disfarçado". Abraço!

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    Respostas
    1. Oi, Maria!
      Eu não corro, mas também fui surpreendida. 😊
      Beijos

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