segunda-feira, 18 de julho de 2016

Sobre a vida de uma porca grávida

Comecei a leitura de Comer Animais, obra de Jonathan Safran Foer, há pelo menos dois meses e ainda não consegui concluir. Não, o livro não tem mais de mil páginas, e não, não é porque a leitura é cansativa ou maçante. A razão de eu estar demorando tanto para concluir é que o livro tem me afetado muito e eu me vejo na obrigação de fazer pausas para me recompor.


Hoje eu trouxe um trecho de um dos subcapítulos do livro chamado “nosso novo sadismo”. Esse trecho faz menções a “vida” de uma porca grávida. Decidi compartilhá-lo por aqui, pois esse trecho mexeu muito comigo. Acredito que ele falará por si só. Leiam:

“Considere a vida de uma porca grávida. Sua incrível fertilidade é a fonte de seu inferno particular. Enquanto uma vaca dá à luz apenas um único bezerro de cada vez, a moderna fêmea suína industrial dá a luz, alimenta e cria em média nove leitões – número que vem sendo aumentado anualmente pelos criadores. Ela é invariavelmente mantida grávida tanto quanto possível, o que acaba sendo a maior parte de sua vida. Quando se aproxima da data de dar à luz, drogas para induzir o trabalho de parto podem ser administradas a fim de tornar o momento mais conveniente para o criador. Depois que seus leitões são desmamados, uma injeção hormonal faz com que a porca logo volte a ovular, de modo que fique pronta a ser artificialmente inseminada de novo em apenas três semanas.

Em quatro a cada cinco casos, uma porca passa as dezesseis semanas de sua gravidez confinada numa “cela de gestação” tão pequena que não consegue nem mesmo se virar. A densidade de seus ossos diminui devido à falta de movimento. Não lhe dão palha onde deitar e, com frequência, ela desenvolve feridas escuras, purulentas, do tamanho de moedas, devido ao atrito com o caixote. (Numa investigação secreta no Nebraska, foram filmadas porcas grávidas, com várias feridas no rosto, na cabeça, nos ombros, nas costas e nas pernas – algumas do tamanho de um punho. Um funcionário da granja comentou: “Todos eles têm feridas... É raro um porco por aqui não ter ferida.”)

Mais sérios e intensos são o sofrimento causado pelo tédio, pelo isolamento, e a frustração da enorme necessidade que a porca tem de se preparar para os leitões que vão nascer. Na natureza, ela passa a maior parte do tempo antes de dar à luz procurando alimento e no fim faz um ninho de capim, folhas ou palha. Para evitar o ganho excessivo de peso e reduzir ainda mais as despesas com a comida, a porca confinada na cela de gestação vai receber alimentação restrita e, com frequência, sentir fome. Os porcos também têm tendência inata para separar as áreas onde dormir e onde defecar, que é totalmente frustrada quando são confinados. As porcas grávidas, como a maioria das porcas no sistema industrial, têm que se deitar sobre seu excremento ou pisar nele para forçá-lo a passar pelo chão de ripas de madeira. A indústria defende esse confinamento, argumentando que ajuda o controle e o manuseio dos animais, mas o sistema torna mais difíceis as práticas que visam o bem-estar porque é quase impossível identificar os animais fracos e doentes quando nenhum animal tem permissão para se mexer.”

Este é um trecho da obra que deixa explícita como é a vida miserável das porcas em muitas indústrias de criação, como a Smithfield, por exemplo. Este é, portanto, um – dos muitos – motivos pelos quais deixei de comer animais. 

Referência: FOER, Jonathan Safran. Comer Animais. Rio de Janeiro: Rocco, 2011.

12 comentários:

  1. Que coisa triste! Sem comentários, quando a gente começa a investigar melhor essa indústria "alimentícia", se depara com monstruosidades, cometidas por nós, os animais racionais. E isso se repete há tantos anos, as pessoas sequer sabem que comem dor e sofrimento no almoço e no jantar. Lamentável imaginar o sofrimento que essas pobres criaturas passam diariamente. :(

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    1. Hel, grande maioria das pessoas sabem que há sofrimento em seu prato, mas elas simplesmente ignoram ou julgam ser natural.

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  2. Thamires, que leitura instigante, com certeza mexe com o pensamento de muitas pessoas a respeito sistema industrial, é uma leitura bem complexa. Vou tomar coragem para ler. Bjs

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    1. É instigante e muito mais. É complexa porque expõe a realidade. E enfim, espero que leia!
      Beijos

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  3. Oie
    Fiquei com muita vontade de ler este livro, é um assunto que eu gosto e reflito bastante, acho que é uma leitura indicado para todos. Adorei a dica, ainda não conhecia o livro.

    Beijos
    http://diariodeincentivoaleitura.blogspot.com.br/

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  4. Olá, Thamiris.
    Imagino como estar sendo difícil a leitura desse livro.
    Só de ler esse trecho eu senti ânsias e saber que os animais são tratados de uma forma tão desumana é muito doloroso.
    Abraços.

    Minhas Impressões

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  5. Ooi
    É tanto sofrimento! Um dos meus sonhos é parar de comer carne animal, mas mesmo tendo em mente tudo isso que acontece infelizmente não consigo, admito minha fraqueza. Não que eu me importe de ficar sem, mas como minha mãe come eu não consigo ver e rejeitar. Acho que esse livro seria ótimo para mim, acho que seria o "tapa na cara" que preciso, ainda mais agora que estou em mais uma das minhas tentativas, e olha, tem sido melhor que as outras vezes que tentei.

    Beijoos
    http://estantemineira.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Catrine!
      Vou torcer muito para que você consiga chegar lá. Tenha foco e se você acredita que a leitura desse livro fará a diferença, tente lê-lo.
      Matenha-se firme e não desista.
      Um beijo!

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  6. Ola lindona confesso que esse trecho mexe mesmo com o leitor, não sei se leria o livro no momento, fiquei bem curiosa e vou esperar sua resenha completa para ter uma visão melhor do livro. beijos

    Joyce
    www.livrosencantos.com

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