Os olhos esbugalhados, levemente tingido com fissuras vermelhas, miravam a maçaneta gordurosa. Encravavam, tímida e exclusivamente, toda a miséria do abarrotado apartamento. Uma sorte de revistas, livros, estojos de pintura, tintas, aquarelas, terebintina, cascos de bebidas e papéis entulhavam o cômodo baixo. Junto a um bidê um fagote recosta-se, polido e belo. Algumas miniaturas hindus e budistas. Um Taj Mahal em miniatura, esculpido em marfim alvo e brunindo, uma vaca sagrada, imponente e malhada, apoiando o queixo sacrossanto no ombro almo de Siddhartha, marcava o sincretismo ali dentro. A maçaneta refletia uma branda luz vinda da rua. 8h23. Os braços ressequidos, esticados e pendente ao lado do corpo, balouçavam involuntariamente. A boca semiaberta, com um sensual ricto estampado nos lábios rijos, ainda conservava um bolor de baba e saliva, levemente tingido de rubro.
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quarta-feira, 19 de abril de 2017
quarta-feira, 29 de março de 2017
O que der na telha - Com DeCastro #34
A MORTE DE UM PEDERASTA
Levanto-me de manhã cedo e percebo o relógio marcando hora e data. Cinco horas. Sexta-feira, 13. Tudo pode acontecer numa sexta-feira 13, assim como em uma quinta 12 ou em um sábado 14. Numerologia e superstições sempre foram uma prática sedutora nas diversas civilizações. Para mim, no entanto, soa indiferente. Eu, que apenas me desloco na condição úmida e ferina de minha existência, descubro-me e, então, tenho consciência de que é muito fastidioso me vestir. Decido ficar na cama por mais algum tempo. Essa consciência que se percebe proclama sua superioridade ao seu objeto de análise: eu mesmo. Mas ficar aqui atirado sobre o colchão de molas soltas e gastas é por demais angustiante. Sou um ser de angústia, recolhido em mim mesmo.
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quarta-feira, 15 de março de 2017
O que der na telha - Com DeCastro #33
A cortina de musselina balouçava ao vento úmido que atravessava a janela parcialmente aberta. Lá fora, todo um universo caótico e turbulento dos carros brecando, das crianças chorando, dos pais ou babás brigando, toda uma barafunda. Ali dentro, sobre um pequeno tapete vermelho-alaranjado com franjas brancas, um iniciado iogue abstrai-se de seu corpo físico e vivencia uma mística irmandade com o cosmo. Seu corpo franzino, nu, moreno e sereno, causam-lhe uma atmosfera santifica. Indra conservava uma barba abundante, escura e eriçada, que escondia um rosto anguloso, com traços suaves, exceto por uma pequena cicatriz, funda e branca, no canto do olho direito que lhe conferia alguma brutalidade.
- Mestre, perdoe-me pela intromissão- disse Suria, baixando os olhos- mas é importante.
- O que há de ser mais importante do que o autoconhecimento, Suria? – Uma lufada trouxe um cheiro suave e doce de rosas que rapidamente envolveu a sala.
quinta-feira, 2 de março de 2017
O que der na telha - Com DeCastro #32
O gélido amplexo do inverno apertava junto de si todas as coisas e seres. Na Montmartre as pessoas apinhavam-se nas calçadas imundas. Alguns postes luziam uma luz fraca, enquanto outros bruxuleavam, ora mostrando mulheres encasacadas, exceto pelas pernas seminuas, ora deixando apenas silhuetas sugestivas que mexiam os quadris suavemente quando por ali passavam alguns homens ou algumas mulheres a procura de prazer.
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quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017
O que der na telha - com DeCastro #31
O inverno havia chegado pesado e massivo. O vento agia como navalha, ressecando os lábios e cortando-os em pequenas fissuras que ardiam ininterruptamente. Dos olhos, o mesmo vento arrancava lágrimas. Charles Garras terminava sua sopa escaldante enquanto esperava, para seu deleite, um saboroso risoto de alho poró, combinando com um grande bife embevecido num grosso molho madeira. Bebia um vinho tinto do porto, de inigualável sabor, ainda que fosse uma bebida razoavelmente barata, refestelando-se à mesa.
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quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017
O que der na telha - com DeCastro #30
Um faquir tariqa atravessa a rua, um tanto quanto desajeitado e calado. Caminha com passos largos e precisos, deixando sua roupa balouçar com a brisa úmida que seguiu a chuva forte. O vento pressagia mais chuva vindoura. A touca alaranjada, de um colorido desgastado, que enreda a cabeça do faquir, confere-lhe a gravidade apropriada. Ele traz consigo dois livros de aritmética, um Averróis e dois pequenos sacos de alcaçuz coloridos. Caminha rápido e ensimesmado. Vicente saúda-o, borracho, caminhando pela calçada, acotovelando-se aos transeuntes, com a lua refulgindo no céu íngreme, ao sair do Madame Bovary. O asceta segue caminhando, com seu distinto calcorrear, sem dar atenção ao cumprimento de Vicente, e entra numa casa simplória. A luz sobre o umbral se apaga, ao fechar a porta. Uma poalha cobria o umbral, aquecida pela lâmpada que clareava o caminho. Vicente quase não dormia. Aproveitava as noites para acompanhar as estrelas que singrarem o céu, após sair para beber fora. Ou, então, detinha-se em seus croquis, sempre sobre uma forte luz artificial que inundava todo seu ateliê, acompanhado, naturalmente, por um carbenet, ou um vinho do porto. Quando não, ocupava-se com seus estudos em cultura Maori e nas leituras de Baudelaire e Huysmans, sem contar no seu interesse crescente pela Cabala, o Zohar, a Torá, e em todo o esoterismo cristão medieval.
quinta-feira, 19 de janeiro de 2017
O que der na telha - com DeCastro #29
Um avião, com destino a Istambul, vara o céu negro matizado de estrelas, sobrepujando, com suas potentes turbinas, Charles Mingus. Uma única luz, amarela-fuliginosa, arde constantemente na sala do apartamento. Um ruído metálico, porém sonoro e vibrante, soa ininterrupto ali dentro. Encarquilhado sobre a cadeira velha, Arnaldo lê uma antiga revista de hagiografia, enquanto fuma um toco de Marlboro. Entediava-se com toda aquela iconografia religiosa de gosto duvidoso, ainda assim insistia em manter os olhos grudados sobre as fedorentas e velhas folhas amarfanhadas. A lua enchia a janela, destacando, no reflexo do vidro, uma sombra pequena, de orelhas pontudas e profanas.
- Volte para o quarto, garoto - esbravejou Arnaldo, com uma voz tonitruante e rouca, retirando, assim, seus olhos opacos e sublimes da revista.
- Mas já estou cansado de ficar lá. Passo o dia todo ali dentro, sem fazer nada além de contemplar as imbecis formigas no aquário, labutando dia e noite, construindo infindáveis impérios - retorquia Salomão, com olhos arriados e com uma voz pastosa. Coçava o olho direito, com os imundos dedos gordurosos, por entre os óculos e suas espessas sobrancelhas que formavam dois arcos munificentes de pelos loiros pontudos e, enquanto os coçava, sentia seus olhos incharem, acompanhando a gradativa vermelhidão que se tornava, e a cegueira momentânea que lhe acometia frequentemente. Aos poucos, sua visão toldou, precisando, assim, da ajuda de Arnaldo para voltar ao breu do seu quarto.
quinta-feira, 21 de julho de 2016
O que der na telha - com DeCastro #27
"Um ruído metálico soa fracamente no fim da saleta que serve para recepcionar os raros visitantes. Um cabide com duas casacas, uma preta enquanto a outra cinza, e um chapéu de feltro, além de um narguilé vermelho com puzzleres coloridos que formavam uma praia de prado sulina com uma costa longínqua e clara, com pescadores e embarcações precárias, sem contar duas fotografias tiradas na África central nas campanhas que Georges serviu como intérprete em Zâmbia, Níger, Botswana, Mali e Burkina Fasso, compunham o cômodo. O som estridente tira Georges de sua leitura. Georges lia a primeira versão vinda da Fac-símile LTDA de seu quarto romance. Não cria ser tão bom quanto o terceiro que, sem mesmo que o próprio autor contasse com isso, teve sete edições e três excelentes traduções- para o inglês, o alemão e o português-, mas seria, sem dúvida, melhor que seu trabalho debutante.
quinta-feira, 7 de julho de 2016
O que der na telha - com DeCastro #26
- Aqui está - dizia o ranzinza e inamistoso fotógrafo, entregando o instantâneo e pegando o dinheiro.
- Também quero uma, senhor - disse Jordana com os lábios moles alinhavando a barra do vestido branco com estampas florais, miúdas e alegres. - É para recordação, querido - dirigindo-se ao rapaz, com sorriso esculpido na cabrocha face, falou.
O fotógrafo ajeita o casal, pede para que cheguem mais perto um do outro e que se abracem - coisa que fazem fácil e prazerosamente. Jordana comprime os lábios grossos na face de Ítalo que, aceitando a brincadeira, franze os sobrolhos e a aperta junto de si. O homem arruma a boina cinza puída, colocando-a pendendo para o lado direito, de modo que sua orelha dilacerada seja coberta quase que totalmente. Um fragor sai da máquina e premente, sem nem dar tempo para que voltem a pose inicial, a fotografia já está nas mãos de Jordana. Ítalo paga por essa segunda também e, agradecendo, caminham vadiamente até que encontram um banco junto de um lago do qual na outra margem, para além das paliçadas e dos jambos, mora Ítalo.
quinta-feira, 23 de junho de 2016
O que der na telha - com DeCastro #25
"Cristovão estava com a cabeça as voltas. Nas nuvens. Assoviava o primeiro prelúdio que lhe surgia nos lábios. Era Bach. Os olhos cerrados, perdidos na vastidão das águas, eram duas irrefragáveis evidências da solidão. A barbela sobressaía sobre a gola role. As mãos apoiadas sobre a balaustrada tremiam. O cigarro, apagado no canto da boca, pendia nos lábios moles.
quinta-feira, 9 de junho de 2016
O que der na telha - com DeCastro #24
"Apesar dos pesares, fazia um dia bom. O sol estava alto. Por trás dos cumes das montanhas uma ponta verde de relva se sobressaía iluminada pelos raios fortes, o que indicava a primavera linda e perfumada. Os bares e pubs começavam a encher. A estação começou a apinhar de pessoas de todos os tipos. Pelos trilhos fumegantes os trens cortavam o vazio e, após lotar na estação, costuravam a cidade novamente. O sol aquecia os chapéus de feltros e as boinas de lã. Aos poucos, toda sorte de pedidos e comandos eram feitos aos garçons. A rotina dos bares é sempre massacrante.
quinta-feira, 26 de maio de 2016
O que der na telha - com DeCastro #23
O dia surge frio. Estranhos tons de violeta e de malva enchem a sala. O vento lança folhas de árvores por entre a janela. As persianas dançam pesadamente. Havia uma tentativa frustrada de combinação entre as persianas e o papel de parede com motivos azuis. Mas tudo, exatamente tudo, destoava pesadamente ali.
quinta-feira, 12 de maio de 2016
O que der na telha - com DeCastro #22
"Recostada na poltrona, feito um gato aos pés da dona, contemplava aquele corpo seminu dobrado sobre a pia do banheiro. A leveza dos movimentos lembravam as canções de Debussy... Uma leve brisa primaveril... o ruivo do sol arrebentando por entre as janelas tingia a silhueta de N. Café fumega... Seus olhos miúdos e a escassez de boca e nariz conferem-na traços pudicos e pueris. Quando a vê, descamisada e ardente, com os seios a exalar um aroma de fruta silvestre, pincha-se sobre ela, laça-a com as pernas feito pinça e enrosca os braços em torno de seu pescoço. E. sente a vulva peluda dela roçar-lhe a barriga para cima e para baixo enquanto a beija... e tudo aquilo as queima por dentro. Quando abraçadas ardiam em chamas.
quinta-feira, 28 de abril de 2016
O que der na telha - com DeCastro #21
Gotejava ali dentro. O papel de parede, com os motivos florais azuis, já estavam descolando perto da precária cópia de Paul Alexandre em Fundo Verde. Empossado a poltrona, como um príncipe cristão, lia, sobre a luz bruxuleante do abajur, um velho volume das obras de Modigliane. Na rua a lua num céu límpido e tranquilo pós tempestade. A luz da lua, bamboleante e sensual, exaurida de sua costumeira matéria e cheia de paixão, aquecia o coração de Carlos, imberbe ex-marujo apaixonado por mares bravos.
quinta-feira, 31 de março de 2016
O que der na telha - com DeCastro #20
Acabara de guardar o tabuleiro de gamão. “Da próxima esse velhote não me escapa” pensou. Sorriu e se pôs a fumar. No fundo gostava de ser vencido. Era mais fácil suportar a vitória estampada nos olhos alheios do que a lúgubre derrota.
quinta-feira, 17 de março de 2016
O que der na telha - com DeCastro #19
"Por dentro, nas vísceras, bem por fundo, Alfredo Bec sentia-se liquidado. Ainda que possa se dizer o contrário, ele sabia que a ciranda da morte o cercava. Algumas vezes chegando a tocar-lhe a carne. Alfredo Bec era todo uma partida. Uma partida longa e demorada e lúcida e gritante. Os negros olhos miúdos e marejados de sua mãe injetados sobre ele pelo vidro do bonde, ainda lhe fustigam a alma. A ignição sendo acionada e ela partindo; indo sem rumo atrás de si mesma- mal sabia ela, mas Alfredo, com toda a certeza dos mistérios que só as crianças tem acesso, tinha a plena convicção de que quem procura a si mesmo fora, empreende esforços errôneos.
quinta-feira, 3 de março de 2016
O que der na telha - com DeCastro #18
Gertrude estava vencida pela estafa. Sofria de jet lag. Ainda assim mantinha o sorriso de mil sóis estampado no rosto lívido. O dancing estava apinhado, fumacento e azul. Na pista, ao som dos músicos argentinos, casais jactantes dançam o tango num frenesi burlesco e erótico. Enquanto isso, na lateral direita da porta dos fundos, sobre a penumbra, alguns se alucinam com cocaína e uísques sobre as mesas envernizadas. O tango acaba. Rapidamente entram os músicos do jazz e põe-se a descompassar o ritmo. Alguns dos casais que encontravam-se às mesas logo foram para a pista; outros que lá estavam, sentam-se. O baterista, um belo negro espadaúdo com punhos de pugilista, soca o instrumento e, feito um pavão, é todo exibicionismo. A pedido de Ferdinando, o garçom traz um duplo com gelo para ele e um bloody mary para Gertrude. Entornam de uma única vez. Pagam as despesas e saem. Nada falavam. Continham-se apenas em dirigir magros olhares um ao outro. Muito se tinha o que dizer, o problema era como dizer.
segunda-feira, 5 de outubro de 2015
TribAL - Tributo à Arte Literária
Olá pessoal! Tudo bem? Hoje venho trazer uma notícia rápida e muito bacana para vocês. Nosso colunista, DeCastro, foi aprovado para a leitura no evento literário TribAL. Nós ficamos muito felizes com a notícia, pois acreditamos que ele merece muito reconhecimento pelo talento que possui com as palavras.
Um evento vanguardista que incentiva a produção literária local e reconhece os escritores em ascensão. TribAL (Tributo à Arte Literária) reúne no dia 10 de outubro, a partir das 15h no Parque Ecológico São Francisco de Assis/ Forquilhinha, SC. A ação ainda contará com música e fotografia. Entrada franca.
“Escrever é criar um mundo. É brincar de ser Deus.”
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