Os olhos esbugalhados, levemente tingido com fissuras vermelhas, miravam a maçaneta gordurosa. Encravavam, tímida e exclusivamente, toda a miséria do abarrotado apartamento. Uma sorte de revistas, livros, estojos de pintura, tintas, aquarelas, terebintina, cascos de bebidas e papéis entulhavam o cômodo baixo. Junto a um bidê um fagote recosta-se, polido e belo. Algumas miniaturas hindus e budistas. Um Taj Mahal em miniatura, esculpido em marfim alvo e brunindo, uma vaca sagrada, imponente e malhada, apoiando o queixo sacrossanto no ombro almo de Siddhartha, marcava o sincretismo ali dentro. A maçaneta refletia uma branda luz vinda da rua. 8h23. Os braços ressequidos, esticados e pendente ao lado do corpo, balouçavam involuntariamente. A boca semiaberta, com um sensual ricto estampado nos lábios rijos, ainda conservava um bolor de baba e saliva, levemente tingido de rubro.
Sobre uma mesa, um pequeno vaso de flores artificiais, que radiavam a não-vida, azuis e verdes, destoando do amarelo da toalha retalhada. Um cinzeiro cheio, com xepas encarquilhadas e enterradas nas cinzas, misturava-se as partituras borradas de café. Uma gramática latina, um Virgílio, um Dante e uma capa vazia de Schubert compunham a cenografia. Uma nesga de vida atravessava o lugar: Fiódor, o gato preto, lambia, com sua língua granulada e quente, os dedos frios de Tomé.
Uma poltrona de couro marrom, com uma manta quente de crochê cobrindo-a, um copo sujo de uísque, onde uísque e água tornam-se uma e a mesma coisa, ocupam um canto da sala. As franjas da manta confundem-se com as do tapete, lugar que tem servido para Fiódor fazer suas necessidades primárias. Uma fina película de poeira cobre tudo, tornando o mais sutil talher, jogado na pia com desprezo, junto com os pratos, copos e pegadores, uma obsoleta massa atravancada.
Numa pequena estante de dois andares ocupam-se quatro pares de sapatos, duas botas e uma pantufa. Enroladas, dentro de uma caixa oblonga de madeira, seis meias, sendo uma delas três por quatro axadrezada em preta e vermelha, uma polaina e dois cachecóis.
No cabide: dois casacos pretos, sete camisetas, duas blusas e um chapéu, também escuro. Um gorro vermelho, de pescador. Um guarda-chuva pendurado, uma bengala de lâmina inútil, mas bonita. No carvalho, realçavam adornos florais por toda a extensão.
Tomé, por sua vez, continuava ali, movendo-se vagarosamente, ao sabor do vento que atravessava a janela. Ele flutuava, a quatro pés do chão, retido por um lençol impecavelmente limpo.



De Castro, é muito interessante como vc detalha a cena em seus textos, torna crível o sofrimento do personagem. Parabéns!
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