"Apesar dos pesares, fazia um dia bom. O sol estava alto. Por trás dos cumes das montanhas uma ponta verde de relva se sobressaía iluminada pelos raios fortes, o que indicava a primavera linda e perfumada. Os bares e pubs começavam a encher. A estação começou a apinhar de pessoas de todos os tipos. Pelos trilhos fumegantes os trens cortavam o vazio e, após lotar na estação, costuravam a cidade novamente. O sol aquecia os chapéus de feltros e as boinas de lã. Aos poucos, toda sorte de pedidos e comandos eram feitos aos garçons. A rotina dos bares é sempre massacrante.
No balcão do Flore, calado feito um totem, encontra-se um homem de tez caiada e aparência tísica. Seus modos silenciosos e comedidos, velados com toda a indulgência expressa naqueles olhos cavos por trás do grosso arco dos óculos, traçam uma espécie de áurea sacrossanta em torno dele.
Uma luminosidade tardia e sensual ilumina-o. Não ergue, nem um instante se quer, os olhos amendoados de sua vodka com limão que beberica desde que chegou. Exceto por uma pequena caderneta, um chapéu de abas longas e moles e um casaco cinza surrado, o homem não leva consigo nada. Nem mesmo uma pequena mala de papelão, se quer. A julgar pelo emaranhado cabelo escuro e o desalinhar da camisa, restou a ele, ao que tudo indica, apenas as noites e os ventos. Vez ou outra, alça os olhos timidamente para o caderninho e ensaia riscar algo, mas desiste. Em seguida volta a depositar as mãos no bolso. Aquele homem carrega em si todo um mundo. Ou melhor; todos os mistérios contidos no mundo. Cada homem é em si todo o mundo.
Um garçom interpela-o perguntando se era ele o Sr. Hanks e diz que há uma ligação para ele, nos fundos. De um único golpe, vira todo o copo. Gotas da bebida escorrem por sua barba espessa. Levanta, saca algumas moedas do bolso, junto com um pedaço de papel e a caderneta escura e coloca tudo sobre o balcão. Veste o casaco e o chapéu. Dirige-se a cabine.
- Alô?
- ...
- Obrigado – disse Hanks, colocando o telefone no gancho e saindo abruptamente, batendo a porta da cabine.
Passou apressadamente pelo salão, detendo-se brevemente num espelho que ficava ao sul das persianas com motivos verdes. O espelho refletiu um homem seco, sisudo e real. Oco, mas genuinamente humano. Ajeita o chapéu. Abotoa o casaco. Assenta as mãos no bolso e se vai.
Desde que chegara, Hanks chamara a atenção do proprietário. Com isso, ao sair e esquecer algumas coisas no balcão, o Sr. Arturo não se furtou de bisbilhotar os pertences do excêntrico cliente.
As moedas ficaram pela bebida. A folha amarfanhada era um esboço de O Cristo Amarelo, de Guaguin. Na caderneta, logo na primeira página, uma nota, que dizia assim ‘’ As religiões, de modo geral, são como sacos de guloseimas, pois oferecem-nos apenas verdades açucaradas.’’ E terminando de ler foi ver se encontrava o homem. Gritou, mas seu grito não o alcançou."


Oie...
ResponderExcluirComo sempre o De Castro traz ótimos textos... E eu como sempre, adorei!
Parabéns pelo post!
Beijos
http://coisasdediane.blogspot.com.br/
Olá,
ExcluirObrigado por deixar aqui seu registro, é sempre importante para mim.
Beijos