A cortina de musselina balouçava ao vento úmido que atravessava a janela parcialmente aberta. Lá fora, todo um universo caótico e turbulento dos carros brecando, das crianças chorando, dos pais ou babás brigando, toda uma barafunda. Ali dentro, sobre um pequeno tapete vermelho-alaranjado com franjas brancas, um iniciado iogue abstrai-se de seu corpo físico e vivencia uma mística irmandade com o cosmo. Seu corpo franzino, nu, moreno e sereno, causam-lhe uma atmosfera santifica. Indra conservava uma barba abundante, escura e eriçada, que escondia um rosto anguloso, com traços suaves, exceto por uma pequena cicatriz, funda e branca, no canto do olho direito que lhe conferia alguma brutalidade.
- Mestre, perdoe-me pela intromissão- disse Suria, baixando os olhos- mas é importante.
- O que há de ser mais importante do que o autoconhecimento, Suria? – Uma lufada trouxe um cheiro suave e doce de rosas que rapidamente envolveu a sala.
O oratório é uma construção baixa, apertada, desprovida de móveis, exceto pelo tapete e dois porta incensos. O suave rosto de Suria inspirava pavor. Nos seus olhos um violento rubor despontava, deixando quase imperceptível o verde-malva tão adorável.
- O prédio. – Pequenas rugas, mas salientes, formavam-se nos cantos dos olhos, no meio das sobrancelhas pretas e no canto da boca, onde acumulava-se, junto com farelos de pão, saliva, deixando um bolor imundo.
- O que tem de errado com o prédio, Suria? – Outra vez Indra fechas os olhos, arfa o peito magro, deixando as costelas salientes, quase a ponto de rasgar as carnes, e tenta uma reconexão com seu corpo astral.
- Está sendo invadido. Ouvi tiros. Estou com medo, grande mestre.
- Respire fundo, minha filha. Respire fundo e conecte-se com o cosmo. Deixe-se levar. A razão é uma doença incurável.- Dizendo isso, Indra entra em transe, conservando, assim, um ar satisfeito, altivo, de quem descobriu o mais íntimo segredo do universo.
Suria permanecia ali, plantada na frente do iogue imóvel. Seus olhos encolerizados tornaram-se duas amêndoas disformes ao ouvir, entre os choros, berros e gritaria, disparos, cada vez mais próximos, até que a porta do apartamento é arrancada. Dois sujeitos altos, escanhoados, possuindo armas de grande calibre, vestindo calças militares e camisetas pretas disparam duas vezes, dois tiros certeiros, lançando ao chão Suria, que morre com os olhos regalados, mirando sem alma Indra; e Indra, sentado, só que agora colado a parede, de modo que parede e iogue se fundem numa coisa apenas. Seus olhos ainda permanecem fechados, a procura de Si. Um filete de sangue quente corre rosto a baixo, ensopando a barba. O tapete fica vazio. A cortina cobre parcialmente o rosto de Indra. O vento sopra, emaranhando o cabelo do iogue em sua procura por si mesmo.



Meu Deus. Fiquei assustada. Acredito sim que temos que nos conectar com o plano astral, mas se perdemos o corpo aqui, não conseguimos chegar lá.
ResponderExcluirVidas em Preto e Branco
Oi Lary.
ExcluirParece-me que de algum modo o assassinato ou anulamento do corpo natural não deve estar no caminho dá procura espiritual.Afinal, é pela via dá carne que sentimos a conexão com e em outros planos.
Estava esperando que em algum momento ele fosse perceber que a conexão consigo mesmo não anula as forças externas, rs.
ResponderExcluirTrágico final para Indra. Pelo menos esteve mais em paz em vida do que Suria.
Bjsss
Luana
www.umasegundaopiniao.com
Olá, Luana.
ExcluirBem percebido.Mas não houve tempo para Indra. A doença que é a razão, ou a consciência, levou Suria ao chão. Mas a desconexão não salvou a Indra, tampouco. Espero que continue nos visitando e deixando comentários por aqui, isso nos é importante.
Beijos.
Fiquei meio perdida, já que não estou acompanhando a estórias. Mas me diga uma coisa, você tem planos de lançar essa estória em um livro quando a finalizar? Seria bem interessante, e me daria a chance de poder ler a estória na ordem certa, hahaha... tenho séries problemas em ler do computador, pois rapidamente fico com dor de cabeça.
ResponderExcluirBjs.
www.ciadoleitor.com
Olá Patricia.
ExcluirEsse texto é de gênero conto, portanto é uma breve narrativa. Não haverá continuação, tampouco textos anteriores que fazem parte de "uma história maior". Acompanhe-nos mais vezes, sempre deixando tuas impressões.
Beijos
Ótimo texto.
ResponderExcluirPena que apesar de sua conexão com o astral, Indra não tenha percebido a importância de de seu corpo externo.
Beijos.
Este comentário foi removido pelo autor.
ExcluirOlá, Aline.
ExcluirObrigado por reservar um tempo para partilhar conosco tuas impressões, são sempre bem recebidas, acredite. Assim como Indra, muitos passam pela mesma coisa, procurando por vezes o inatingível e anulando o aqui. Espero que continue nos acompanhando.
Beijos
Fiquei me perguntando os motivos do acorrido com os personagens ... O prédio foi invadido e eles mortos e pronto!!??? Tiveram alguma culpa ou foram vítimas da violência sem fim dessa vida terrena!!??? Entendo a importância do equilíbrio físico, mental e espiritual mas não é possível viver bem só focando em um desses aspectos. Enfim valeu.
ResponderExcluirExistem autores que disponibilizam tudo a seus leitores, enquanto outros deixam algumas pontas para serem atadas. Eu sou o segundo tipo. Eles foram vítimas da violência gratuita, mas também foram vítimas da busca de um Eu. Espero que continue acompanhando-nos e deixando teus comentários.
ExcluirBeijos
Olá,
ResponderExcluirTexto surpreendente e sinceramente, fiquei aguardando que Indra seria salvo por algum milagre rsrs
Mas enfim, o desfecho foi diferente do que esperava e ainda assim nos traz uma grande mensagem que ressalta a importância entre o equilíbrio físico, mental e espiritual.
Parabéns, texto muito bem escrito.
LEITURA DESCONTROLADA
Oi,Michele.
ExcluirPensei em salvar Indra, mas fiquei em dúvida se ele era de fato merecedor. Portanto o matei. Aquilo que bem colocasse, sobre o equilíbrio, é um dos cernes do conto. Obrigado pelas felicitações. Espero que continue nos acompanhando e deixando, sempre que possível, teus comentários.
Olá DeCastro,
ResponderExcluirComo sempre, mais um texto incrível. Confesso, entretanto, que esse me agradou mais, pois gosto de leituras mais curtas em blogs.
Vou compartilhar esse texto, pois merece ser lido.
Beijos
Olá, Bruna.
ExcluirObrigado pelas palavras de carinho e pela expontanea divulgação, isso é importante- se houver comentários na tua divulgação, gostaria de saber. Eu, particularmente, sinto como se o texto tivesse sido abortado, mas compreendo que textos menores são mais fáceis e práticos de ler. Sempre que der deixe teus comentários.
Beijos
Olá Filipe, fiquei com aflição pela personagem Suria que com seu desespero foi possivel sentir que o inevitável iria acontecer. Ótimo texto.
ResponderExcluirOi, Danielle.
ExcluirObrigado pelas palavras e por reservar um instante para deixar aqui tuas impressões. Alcancei o que pretendia, pois queria causar um desconforto com o conto e pelo visto foi isso que aconteceu.
Oi, tudo bem?
ResponderExcluirO texto é bem curioso, bastante instigante e sua escrita é muito envolvente. O texto me fez refletir e eu gosto quando os autores me provocam isso. Parabéns!:)
Beijos,
Rafa [ blog - Fascinada por Histórias]
Olá, tudo bem sim, e contigo? Sou grato pelas palavras. Gerar reflexão com a literatura é dar a literatura um papel fundamental numa sociedade acelerada e de consumo. Espero que continues passando por aqui e deixando teus comentários. Isso é muito importante para nós.
ExcluirBeijos