"Por dentro, nas vísceras, bem por fundo, Alfredo Bec sentia-se liquidado. Ainda que possa se dizer o contrário, ele sabia que a ciranda da morte o cercava. Algumas vezes chegando a tocar-lhe a carne. Alfredo Bec era todo uma partida. Uma partida longa e demorada e lúcida e gritante. Os negros olhos miúdos e marejados de sua mãe injetados sobre ele pelo vidro do bonde, ainda lhe fustigam a alma. A ignição sendo acionada e ela partindo; indo sem rumo atrás de si mesma- mal sabia ela, mas Alfredo, com toda a certeza dos mistérios que só as crianças tem acesso, tinha a plena convicção de que quem procura a si mesmo fora, empreende esforços errôneos.
Alfredo era angústia. Segurava a mão frouxa de sua avó. Os dedos firmes, ao ver sua filha de partida, tornavam-se guenzos, inseguro. Reuniu suas últimas energias e acenou, pedindo que também Alfredo a acompanhasse.
Alfredo vivia o lancinante dilema hamletiano. Esperou pelo regresso de sua mãe por longa data. Mas nem sinal dela. Das duas uma: ou ela havia se encontrado, ou então tinha se perdido de vez. Junto com as esperanças foram-se as certezas da infância. Acreditou que talvez ela tivesse mesmo encontrado o que procurava, apenas lamentava que esse tirocínio tenha lançado a jangada dela para lugares remotos.
As coisas já não tocavam mais Alfredo. Nada, exceto a tísica avó, afetavam-no de fato; Alfredo empertigou tamanha dor e tornou-se embotado. No entanto, no primeiro ano de medicina teve um grande golpe: Dona Arlinda, sua querida avó, descobriu um câncer que, pouco tempo descoberto levou-a a morte. A agressão que lhe cabia pela segunda vez fê-lo içar âncora: revolveu sua alma e seguiu em frente.
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Em uma manhã predestinada o professor pedem-lhes que se preparem para a aula de anatomia. Alfredo era o mais notável estudante. Dedicava-se integralmente aos estudos oncológicos. Lia tudo sobre cirurgias. A tempos que esperava por essa aula e finalmente poria em prática tudo o que aprendeu com os livros. Suas noites insones valeriam a pena. O corpo estava sendo preparado e enquanto isso, na antessala, o professor passava as últimas lições. A maneira de empunhar o bisturi. A forma adequada de se fazer a cisão. Tudo isso era dispensável para Alfredo.
- Desculpem-nos pela demora. Recebemos hoje esse corpo e era preciso fazer alguns preparativos antes que estivesse a suas disposições. – disse o sujeito responsável pelo laboratório.
Todos colocaram as toucas, máscaras e luvas. O cheiro de formou e éter embevecia a sala.
Bec se sentiu narcotizado. Suas fibras alongavam-se e repentinamente se repuxavam. Seus ossos doíam. Os olhos turvaram e sem entender nada acompanhou seus lábios ficarem tesos, enrijeceram. Alfredo seria o agente. Ele quem abriria o peito do cadáver. O professor Junkes o escolheu pela sua exemplar dedicação.
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O bisturi tomou-lhe. Fixou os dedos, segurando firmemente o instrumento. Resfolegou. Sentiu um estremecer abalador. Lembrou da vovó Arlinda. Debruçou-se sobre o corpo estendido na gélida mesa. Segurou com as pontas dos dedos o lençol branco que cobria o corpo. Respirou fundo. O camafeu dado no leito de morte toca-lhe o peito. Descobre o corpo. Uma bela mulher de cabelos loiros. Pele alva e um corte profundo no pescoço. Aparentemente balzaquiana e de olhos miúdos e com algumas pregas. Lábios finos. Sua superfície estremece. Um grito surge das trevas.
- Mamãe...
A marcha do cotidiano segue."
Por DeCastro.


Emocionante. Maravilhoso texto, meu bem.
ResponderExcluirQue bom que tocou você, Baby.
Excluirmuito bom o texto. gostei flor. beijos
ResponderExcluirwww.indicarlivros.com
Fico feliz que tenha gostado. O texto é do nosso colaborador DeCastro.
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