quinta-feira, 5 de novembro de 2015

O que der na telha - com DeCastro #12


Quando as lembranças tornam-se fracas e os contornos que a adornam já não passam de meras marcas em palimpsesto, não se pode contar com nada, exceto com uma falta sentida e pulsante do apito do trem na partida que soa apertado dentro do peito.

O tempo passa em mansas lentidões por entre os trilhos coberto de flocos de neve. Quando se perde quem ama, perde-se também a irmandade com as coisas. Num pedaço de papel gatafunhado o amor de tempos remotos. A mensagem já gasta de tanto ser lida, mas também de tanto ler estava gravada na alma e nos vincos o líquido agridoce do choro contido, negado e afogado nos copos de gim e nas mulheres não amadas e na paixão ainda sobrevivente; no fundo; nos escombros e soterrado por toda tentativa frustrada de esquece-la. 

Todas as manhãs a mesma coisa: apertava a saudade, vestia o casaco pesado, as botas de neve já gastas, o cachecol, o chapéu de feltro, a gaita de boca e saia para a estação a espera de Judit que prometera amá-lo eternamente e voltar para seus braços. Braços ossudos. 

A espera para senti-la envolvida em si, por beijar seus lábios finos e sentir sua pele adocicada, tornou-o ressequido. Suas roupas flutuavam em volta dos membros magros. Ao tirar o chapéu e cumprimentar em barretadas os cavalheiros e o bilheteiro da estação, podia-se ver que o esqueleto de sua cabeça tentava aparecer através da fina camada de carne e nervos.

Debicava o gargalo do cantil com gim e tocava mais um blues triste. Alguns transeuntes jogavam moedas. O som da gaita era sucedâneo ao seu sofrimento. A música falava por si. Sentia-se a alma arder em saudade ao ouvi-la.

Entretanto, aquele dia seria atípico: uma alegria tomou conta de Josef que pulou da cama duas horas antes do habitual e em quinze minutos, caminhando sobre um frio congelante, estava na estação. Esquecera o casaco em casa e também calçou as finas botas de verão. Sentou-se no mesmo banco de sempre; uma força arrebatava-o. Sentiu seus pés congelarem: começando com uma simples cãibra e em seguida tornaram-se imóveis. Mas algo lhe dizia para continuar ali, com o blues e o gim. Acendeu o último cigarro e fumou junto com a esperança: salvo pelo gélido e cortante vento, nada mudara. Não sentia seus pés. O fumígeno da locomotiva aponta ao longe. O estampido tremula pelos trilhos. Um estafeta sussurra no seu ouvido: ela está chegando. O frio aumenta junto com a vontade de vê-la. Sua perna não mexe mais e seu ventre solidificou. Quero tocar a nossa música quando ela descer. O trem estaciona. A porta do terceiro vagão se abre. Uma bela mulher- Judit- sai com uma criança; um menino loiro carapinha anela seus dedos ao dela. O fulgor que tornara-se o rosto hirsuto de Josef não foi o suficiente para evitar que tudo naquele banco embrutecesse em gelo.

DeCastro

4 comentários:

  1. Lindo texto. Parabéns DeCastro, vc escreve maravilhosamente bem...

    www.livrosterapias.com.br

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    1. Obrigado, Laila. Espero que continue acompanhando-nos.

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  2. Conto incrível
    Mas ainda espero ler um com um final um pouquinho feliz hsuahs
    Te amo, baby.

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    1. Ah, Bem só você mesmo. Já falei que esse conto pode ser lido com bons olhos.

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