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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Índio: Sinônimo de educação, pureza e submissão?

Ao refletirmos sobre a figura do índio e o processo de colonização ocorrido no Brasil, quase sempre pensamos em pessoas nuas, dóceis, selvagens, aqueles que foram perdedores de uma grande luta, por sua inocência, pureza e ignorância. Acredito que toda essa visão é algo estereotipado, que nos é apresentado desde pequenos quando começamos a frequentar a escola, de modo que parte disso se deve a literatura clássica brasileira e a maneira como ela representou os indígenas. 

De Pero Vaz de Caminha no quinhentismo, – período em que predominavam as cartas e crônicas sobre o Brasil – com suas observações peculiares e espantadas sobre os índios, a José de Alencar, no período romântico, com suas histórias indianistas cheias de heroísmo e idealização da figura do colonizado. Em toda a trajetória da literatura, o índio sempre foi descrito e caracterizado pelo outro, nunca houve espaço para que ele pudesse contar sua própria versão dos fatos. Nunca houve espaço para que sua “voz” fosse ouvida.

terça-feira, 17 de novembro de 2015

De Helena a Capitu: sobre mulheres, seus cheiros e o tamanho de seus pés

A história da literatura se compõe bonita exatamente por sua diversidade (quase sempre) posta em registro e seus pares de opostos. De um lado, no período romântico, personagens como Helena, de Machado de Assis, deslizavam sobre o chão em vez de caminhar e falavam como quem sussurrava música aos ouvidos, sem contar com o perfume que aquelas peles de pêssego exalavam. De outro, no período realista – não tão distante do romântico – o mesmo Machado de Assis, agora em outra fase, elegia como musa inspiradora de seu romance um outro tipo de mulher. Era Capitu. A moça que cheirava a sabão, tinha cabelo grosso e esganiçado, além de um certo jeito desastrado. Duas mulheres, duas épocas, duas representações, uma pergunta: no século XXI, somos Helenas ou Capitus?

Juntam-se à história de Helena (a moça que se apaixona pelo suposto irmão e que morre de tristeza por esse amor proibido) as inúmeras histórias de José de Alencar, que também adorava essas moças frágeis e delicadas, prontas para viver e morrer por amor. Em A pata da Gazela, uma analogia ao conto de fadas da Cinderela, um homem escolhe a dama a ser cortejada pelo tamanho e perfeição dos pés. O moço acaba se confundindo e escolhendo a moça do pé errado, tenta voltar, mas ela já está com outro. A moça do pé deformado, que se chama Laura, acaba sozinha, enquanto a do pé perfeito, que se chama Amélia, encontra a sorte do amor verdadeiro. Quase 300 anos se passaram, e ainda vejo mulheres buscando alternativas estéticas para representar a mulher do pé pequeno, do cabelo liso, da cintura fina, da perna malhada e depilada, das mechas, da unha feita. Amélias e Lauras modernas ainda esperam ser escolhidas. 

Já em Capitu, protagonista da obra Dom Casmurro, nota-se o relato do próprio Bentinho dizendo que ela é muito mais homem que ele mesmo. Apegado à barra da saia da mãe, o menino pouco se encoraja a dizer o que quer. Nascido para obedecer. Capitu precisa pensar em tudo e bolar seu plano para que Bentinho obedeça e dê conta de, finalmente, pedir sua mão em casamento com consenso da família. Ao fim, não é de se admirar que um homem inseguro e pouco dono de si seja tão desconfiado a ponto de se sentir traído, mesmo sem provas. Para nosso alívio, nesses mesmos quase 300 anos, ainda vejo muita Capitu bancando a casa, ditando as regras no relacionamento e tomando coragem por dois. Estas não nasceram para serem escolhidas, elas aprenderam a escolher. 

Entre Helenas, Amélias e Capitus, fico com os olhos de cigana obliqua e dissimulada. Enquanto for livre a interpretação, vou defender Capitu, pois a mim, pouco importa se traiu ou não Bentinho, nem o tamanho de seus pés. Com certeza, esta foi fiel a si, independente do caminho que tenha seguido no casamento. Mas o que me intriga ainda está além da Literatura, que trouxe essas moças fictícias que tanto envolveram leitores do século XIX e ainda envolvem. O nó que me engasga ainda está ligado às Amélias e Helenas (ou Anastásias?) modernas, presas à espera de um príncipe (ou um Crhistian Gray?), como Cinderelas, tendo que para isso esconder os pés, a gordurinha, o lindo cacho natural do cabelo ou o estranhemento quanto àquilo que não as agrada. Hoje, de Helena a Capitu, qual personagem melhor te representa?