O dia surge frio. Estranhos tons de violeta e de malva enchem a sala. O vento lança folhas de árvores por entre a janela. As persianas dançam pesadamente. Havia uma tentativa frustrada de combinação entre as persianas e o papel de parede com motivos azuis. Mas tudo, exatamente tudo, destoava pesadamente ali.
O fragor da aba da janela chocando-se contra a coiceira desperta o frívolo Abel de seu impenetrável estado de letargia. Limpa o resto de secreção contido no canto da boca. Seu bigode fica levemente molhado com a espuma que ainda resistia a limpeza com o antebraço. Tudo naquele apartamento ressentia ao esgotamento; a uma espécie de inércia mórbida e derradeira. Nada de mulher ou amigos. Não existia televisão, tampouco rádio ou computador. Os únicos sinais de vida por aquelas bandas eram o próprio Abel e um velho gato lânguido.
Na mesa uma espaçosa fruteira com natureza morta. Bananas, morangos e figos compunham o triste cenário. A cama jazia intocável. Um volume do Conde de Monte Cristo lido pela metade pairava na cabeceira com as folhas amarfanhadas e cheio de poeira. Um tabuleiro de xadrez com a partida não findada continuava na mesa de centro havia meses. - Peças pretas restantes no jogo: rei, rainha, três piões e um bispo. Brancas: rei, cavalo e dois peões. Em quatro movimentos, apenas, as pretas venceriam- seja quem for que está usando-as. Abel passa e movimenta o bispo, eliminando um dos peões brancos.
Prepara um chá. O gato mia enroscando-se em seus pés. O ronrom é alto e gostoso. Abel afaga o bichano, serve ração e volta a poltrona. O pijama puído deixa transparecer uma parte do joelho esquerdo. Abel percebe sua carne flácida e esbranquiçada. Um torpor de felicidade toma-o por inteiro. A morte, a mais sublime das inanições, dava as caras.
A muito tempo Abel mandara tudo as favas. Deixava sua existência deslizar com o decorrer dos dias. Todo o ambiente estava embebido por uma nostálgica impossibilidade de fruição de vida. A vida apenas caíra sobre ele, fria e crua. Dispendia todo seu tempo encarquilhado na poltrona, lançado sobre profundezas insondáveis, ou enterrado sobre as cobertas.
É quando, então, uma doce borboleta de cores vibrantes atravessa a soleira e pousa sobre um criado mudo. Logo ali, onde o sorriso de seu único filho está eternizado em sua última fotografia.
Abel cai em uma verdade abandonada. Aquela primavera. Aquele sorriso. Aquelas flores cuja luz ainda fulguram em sua lembrança nunca mais hão de ser. Nunca mais hão de existir. Pois o tempo leva a lembrança, mais jamais a saudade.
Por DeCastro.


Olá, eu me lembro de ter lido um desses textos há algumas semanas e gostei de voltar aqui hoje e ver mais um. Gostei, mas eu detesto borboletas rs mas ficou uma cena bonita essa no final (mesmo com a borboleta pousando), não é que deteste, mas tenho um pavor incontrolável.
ResponderExcluirJamais pensei em usar o termo Lepidoptera- medo de borboleta- em um determinado contexto que não um criado por mim. Eis então que surge para mim um momento de usar- e é pela segunda vez que borboletas versam em meus trapalhos. Passe sempre que quiser se embevecer com cultura literária de qualidade aqui pelo blog e deixe seu registro na coluna que assino- quinzenalmente. E fuja de panapanás.
ExcluirOlá!
ResponderExcluirMais um texto esplendoroso! Você tem uma ótima escrita, usa as metáforas sem dó, mas não deixa o texto enfadonho nem confuso. Nesse, eu consegui perceber o sentimento saudoso e um pouco (ou muito?) de melancolia. E, pedindo um milhão de desculpas, vou ter de corrigir você: Lepidoptera não é o medo ou a fobia de borboletas (que se chama motefobia ou lepidopterofobia). É o nome da ordem taxônomica (na classificação geral de insetos) mesmo... Minha veia de bióloga aflorando... sorry! beijos e parabéns!
Muita. Muita melancolia. Obrigado pelas palavras de carinho e pela correção- afinal, enquanto biólogo, devo ser um bom escritor rsrs. De qualquer modo, obrigado pela elucidação- pensava que o prefixo 'fobia' já indicasse, implicitamente o medo e que fosse um caso de psicólogos/psiquiatras rsrs.
ExcluirBeijos.
Li o texto todo num fôlego só, com um misto de curiosidade e receio do que a obra revelaria. Será quais lembranças a borboleta despertou nele?
ResponderExcluirÓtimo conto,parabéns!
Quais será? Eis que consegui aquilo que me propus; questionar. Deixar um que.
ExcluirMuito obrigado por passar por aqui, deixando seu registro.
Tudo que tem um gato no meio acaba me conquistando... e confesso que minha maior preocupação foi o cara morrer e o gato ficar desamparado! Nem imagino a dor de perder um filho, não me espanta que ele espere pela morte. Gostei da aparição da borboleta, que tem tantos significados.
ResponderExcluirUma de minhas paixões são os gatos. Tenho dois que já protagonizaram alguns textos- inclusive uns por aqui. Fico feliz que tenha gostado. Continue passando por aqui e contribuindo com seus comentários.
ExcluirOlá De Castro...
ResponderExcluirMais um texto seu... estou adorando acompanhá-los... você escreve com uma simplicidade e com uma intensidade ao mesmo tempo que fico aqui aos suspiros tentando entender onde quer chegar... quais os sentimentos quer despertar... aqui vimos a saudade... quando perdemos alguém que amamos... hoje estamos com ela e amanhã não... aquela sensação de vazio fica, como se fosse um buraco... mas mesmo com as lembranças que parecem nunca sumir, fica as saudades... excelente texto... parabéns... Xero!
Oi, Diana.
ExcluirPois é, ando percebendo que tens aparecido com frequência por aqui, e isso é bom. Também fico feliz que tens gostado dos textos. Procuro escrever coisas universais, tais como a saudade. Nem sempre fica bom, mas há uns, e ai concordo contigo, que tocam. E esse é um deles. Espero que não se esqueça logo desse conto e sempre que sentir saudade, volte para visitá-lo.
Beijos
Olá! Lembro-me de ter lido um de seus textos a um tempo atrás, e de ter ficado extremamente fascinada com sua sensibilidade. E dessa vez não foi diferente! Quanta melancolia! Não posso deixar passar essa frase tão verdeira: "Pois o tempo leva a lembrança, mais jamais a saudade."
ResponderExcluirBeijos!
Oi, Daiane. Fico bem em saber que de alguma maneira toco com a literatura as pessoas. Veja, você voltou! Também acho verdadeira essa frase, ainda mais num dia como o de hoje- em que meu falecido pai faz aniversário.
ExcluirContinue nos acompanhando.
Beijos
Oi,
ResponderExcluirGosto muito de aparecer aqui e encontrar esses textos. Estão cada vez melhores e consegue despertar a minha curiosidade.
Dessa vez a tristeza estava presente, mostrando uma alta sensibilidade das palavras.
Parabéns
beijos
Olá, Daya.
ExcluirApareça sim e deixe seu rastro nos comentários, é importante para nós. Gosto de escrever com os sentimentos na ponta dos dedos, pois parece que o leitor atento percebe isso. Espero que continue contribuindo com seus registros.
Beijos
Olá, adorei o texto, parabéns!
ResponderExcluirPobre Abel, ela é refém de seus sentimentos e vive de saudades.
Lindas palavra, embora tristes, cheias de sentimentos.
Abraços
Olá, que bom que gostou do texto. Também senti pena por Abel. Espero que volte aqui mais vezes e que deixe sempre suas impressões. Isso é importante.
ExcluirAbraços