Gotejava ali dentro. O papel de parede, com os motivos florais azuis, já estavam descolando perto da precária cópia de Paul Alexandre em Fundo Verde. Empossado a poltrona, como um príncipe cristão, lia, sobre a luz bruxuleante do abajur, um velho volume das obras de Modigliane. Na rua a lua num céu límpido e tranquilo pós tempestade. A luz da lua, bamboleante e sensual, exaurida de sua costumeira matéria e cheia de paixão, aquecia o coração de Carlos, imberbe ex-marujo apaixonado por mares bravos.
Então Carlos fecha o livro e os olhos. Neste instante, uma leve e seca brisa arregaça as janelas e toca-lhe as faces magras. Uma brisa que celebra um novíssimo soneto de amor lhe aquece as têmporas. Um amor insano. Um amor para recordar. Sente o cheiro doce da fragrância exalada do cabelo de Dulce. Os olhos dissimulados, negros e vazios; olhos que exercem fixação hipnótica. Verdadeiro abismo de sordidez. Aqueles pares eram a porção da corrupção do mal que Carlos se permitia experimentar em sua vida.
De um único golpe desperta. Ante o pungente aperto no peito a lembrança de Dulce, de braços abertos no cais a sua espera. Ele se crucificando em seu peito feito um cristo. Estreitou ali toda a humanidade; todo o amor que lhe cabia; toda a vida de que dispunha.
Punha-se de pé a janela. Contemplava as montanhas que se estendiam sobre o horizonte. Pôs um Stravinsky. Bocejou e fumou. Ajeitou os motivos e o quadro. Deitou-se sobre o puído lençol. Dessin á boire. E, como nos velhos tempos, em uma taverna qualquer, escreveu um poema a amada e, após terminar, se entreteve, como fazia sempre, com o lápis entre os dedos à espera do próximo verso que, a muito custo, chegara arrastando-se. Sacou debaixo da cama a garrafa, tirou o celofane e sorveu. Outsider. Sempre foi um desajustado. Um estrangeiro. Um estranho em sua própria pele. Discutiu com o pintor sobre os valores plásticos dos volumes em sua obra e, cansado, foi vencido pela estafa novamente.
Na antecâmara do sono, quase sendo engolido pelo limbo, conseguiu, juntando todas as forças que lhe restavam, resgatar as lembranças daqueles olhos de jabuticaba que tanto amou mudamente.
Por DeCastro.


Olá, bem peguei o texto pelo meio do caminho e fiquei muito confusa, não entendi nada. Vou dar uma olhadinha nos anteriores para poder entender. Mas fiquei curiosa para saber mais sobre a amada do Carlos e o que está acontecendo com ele.
ResponderExcluirNão faça isso. Você não achará referencia alguma em outro lugar sobre essa história. Carlos e Dulce acabam por aqui, como o amor deles, breve no tempo mas eterno enquanto durar em suas lembranças.
ExcluirSinceramente não consegui entender direito o texto.
ResponderExcluirMas como uma eterna apaixonada, espero que o romance entre Carlos e Dulce seja intenso enquanto dure! rsrs
Ele está solitário, sofrendo com saudades da amada que está distante (e tem os olhos de jabuticaba) e fica contemplando o horizonte pensando nela e de noite com sono e cansaço finalmente consegue esquecer um pouco na hora do sono.
ExcluirO texto está muito bom, é uma prosa poética.
Rsrs, Bruna, a inveterada romântica. Penso que o Alessandro conseguiu capturar a ideia central do texto e também acho que ele foi esclarecedor suficiente para dispensar todo e qualquer comentário de pobre escritor- passo aqui apenas para mostrar o quanto meus leitores são importante e para agradecer cada um que deixa por cá seu registro.
Excluirolá, tudo bem?
ResponderExcluirNossa! Com poucas palavras puder sentir tanta melancolia, paixão e saudade. Ao chegar ao fim do texto torci para que a história de Carlos e Dulce não estive acabado tão rápido. Lindas palavras, grandes sentimentos!
Beijos!
Oi tudo sim e com você? Realmente tento, devido ao pouco espaço que me cabe, concentrar o texto e sem perder a potencia. Creio que nesse conto consegui fazer isso afinal você percebeu. Beijos
ExcluirRealmente, Alessandro tem razão: é uma prosa poética, bem elaborada, cheia de nuances. Quem está mais acostumado textos simples e diretos da prosa comum, acha um pouco estranho. Eu gosto bastante de interpretar (e me arrisco a escrever de vez em quando) poesias. Achei bem profundo, deu p perceber toda a dor da saudade do protagonista.
ResponderExcluirNuccia, juntamente com outro comentador, foram precisos na hermenêutica. Captaram o fulcro da coisa toda. Continue passando por aqui, creio que gostarás do irás encontrar.
ExcluirOlá gostei do seu texto! Ele é poético e saudoso, parece confuso, pois foi feito de sentimentos e sargentos por sua vez são confusos.
ResponderExcluirBeijos
Sentimentos*
ExcluirOi, que bom que gostou do conto. Acho mesmo que é saudoso pois, ao que me parece, o objeto causador do sentimento é-lhe ausente e isso, naturalmente, causa um estado aparente de confusão.
ExcluirBeijos
Ai, não sei ao certo o que comentar desse conto. Muito bem escrito e uma história que prende a gente. Me identifiquei um pouco, rs Parabéns!
ResponderExcluirPara quem não sabe ao certo o que comentar, comentou bem rsrs. Muito obrigado pelas palavras de incentivo e espero que continue dando o ar da graça aqui pelo blog e, naturalmente, pela coluna.
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