A gaita de boca soava tristemente no fundo. Um pequeno público forma-se ao redor do tenente que tocava um velho blues. A música, o rum e as cartas são, para quem está no front, um consolo suportável. O acampamento fora formado dentro de um cemitério em destroços. Os escombros nos protegem dos aviões. Afinal, ninguém procura vivos em meio aos mortos.
A guerra é para desatinados e doentes. É uma paixão enlameada pelo barro da trincheira. Quem não morre nela, não vive depois dela. A guerra é um co-pertencimento do eterno e do efêmero: morre-se por ela e talvez, queira o destino, se é marcado para o posterior. Somos aureolado pelo nosso trágico e exemplar suicídio. O espirito de um soldado torna-se tacanha e estreito. Todo ele não passa de névoa obscura e todos nós, sem exceção, sonhamos novamente com a origem matinal.
Um silvo passa rente as nossas instalações e logo o som das palhetas graduadas tornam-se inaudíveis. O comando é dado e todos ficam em campana. O sibilo forte é sequenciado em átimos cada vez mais breves de tempo: METRALHADORA! Grita o tenente-comandante da patrulha.
Como escafandristas jogamo-nos nas trincheiras- ou diria sepultura?- e ali ficamos. Um bólido roça nossos capacetes e o inimigo- irmão, talvez?- investe sobre nós. AO COMANDO, GRANADA DE MÃO: 50 E 60 METROS.
Tudo deve ser gritado no front. Sathurd e Schubb são os melhores granadeiros da infantaria. AO MEU COMANDO. ATENÇÃO. LANÇAR. VAI. VAI. VAI. O arraial do inimigo é destruído com as granadas de 60 metros. Avançamos enquanto eles retrocedem em retirada até a trincheira inferior. O bólido acabou com boa parte da trincheira inimiga. Na fuga, deixaram pães, linguiça, fumo de mascar e a metralhadora. Enquanto sete homens cavam para aumentar a trincheira, outros ocupam-se em desmontar a metralhadora e virá-la para o front do inimigo. Pelo rádio pede-se reforço aéreo. Doze baixas dos rostos lisos. Enquanto nós, tivemos apenas três.
Meu fuzil está quente. Da frente inimiga um pequeno capacete ergue-se displicentemente. Preparo o disparo. Em regulares três batidas do coração ele aparece e em outras duas fica para cima da trincheira, sem retaguarda nem nada. Quando se está em um front muitas vezes o tétrico é a coisa mais real que existe, fazendo a morte tornar-se uma coquete de lábios carnudos e cabelos sedosos. Ajeito a mira. Uma. Duas. Três. E ele põe-se em riste. Um. Dois. Desaparece outras vez. Um. Dois. Três e outra vez está na mira. Os dois segundos tornam-se eternizados e quando toco o gélido gatilho, meu irmão olha-me e repentinamente seus olhos surgem fagulhas de uma brasa ardente. Um. Dois e um tiro de calibre baixo ribomba no meu capacete. Lembro do blues e de minha mãe e das flores estivais e de tudo o mais que a guerra soterrou.
DeCastro


UAU! Fiquei até sem fôlego. Sensacional \o/
ResponderExcluirBang, bang, bang. A guerra é para desatinados e doentes. Afinal, os verdadeiros interessados estão em casa, assistindo a transmissão do Yankee's.
ExcluirOi
ResponderExcluirLegal o texto, foi uma boa ideia dos personagens de se esconder no cemitério
Um texto com uma ação.
momentocrivelli.blogspot.com.br
Oi, que bom que gostou. Espero que continue acompanhando o blog e, evidente, minha coluna.
ExcluirNão gosto nem de pensar nessa atrocidade que é a guerra. Uma coisa tão triste que ainda acontece hoje em dia.
ResponderExcluirMas seu texto é muito bem escrito, parabéns!!
Beijos
www.ooutroladodaraposa.com.br
Obrigado pelo incentivo. E realmente, a guerra é o próprio inferno.
ExcluirBeijos