quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Resenha: A pérola que rompeu a concha - Nadia Hashimi


Título: A pérola que rompeu a concha
Autora: Nadia Hashimi
Editora: Arqueiro
Nº de páginas: 434
Ano: 2017

Publicado pela editora Arqueiro, A pérola que rompeu a concha, da autora Nadia Hashimi, é um livro maravilhoso, inspirador e incrível sobre duas mulheres extremamente fortes.

Este foi um daqueles livros que eu comecei a ler e não queria, de forma alguma, parar. A história, que se passa no Afeganistão em épocas diferentes, tem duas protagonistas: a jovem Rahima e sua trisavó, Shekiba. Enquanto a história de Rahima se desenrola, sua tia, Khala Shaima, conta a Rahima a história de Shekiba, que por sua vez, também se desenrola. Assim, os capítulos do livro se alternam entre a história de Rahima, em primeira pessoa, e Shekiba, em terceira pessoa.

Rahima é uma jovem menina que vem de uma família de cinco irmãs mulheres, nenhum homem. Seu pai é viciado em ópio e sua mãe praticamente não tem voz, pois nunca é ouvida. Para ajudar a mãe com tarefas que o pai não ajuda, por conta do vício, a tia de Rahima traz a ideia de a menina adotar um antigo costume afegão, o bacha posh, que faz com que ela se “transforme” em um menino até a puberdade, momento em que ela deve voltar a ser menina e conseguir um marido. Assim, por um tempo, tudo fica bem, mas as coisas na casa de Rahima acabam piorando cada vez mais e, aos treze anos, ela é forçada a deixar o costume e se casar com um homem perigoso e muito mais velho que ela. Passamos a acompanhar, portanto, a difícil vida de Rahima a partir daí.

"Animada, comecei a correr mais rápido. Ninguém me olhou duas vezes. A sensação era de que minhas pernas estavam livres, em disparada pelas ruas sem que meus joelhos batessem contra a saia e sem me preocupar com olhares de repreensão. Eu era um rapaz e parte de minha natureza era correr pelas ruas." (p. 54)

Shekiba teve seu rosto desfigurado por conta de um acidente na infância. Assim, ela era motivo de piada e nojo. Quando ainda era muito jovem, perdeu seus irmãos para uma epidemia. Tempos depois, perdeu a mãe, e ao final de tudo, perdeu o pai. Shekiba ficou sozinha no mundo e passou a se virar sozinha, ainda que em condições precárias. Depois de um tempo, a avó a resgatou e deu a Shekiba uma vida ainda pior em sua casa. Este, no entanto, foi só o começo de um caminho doloroso que Shekiba ainda iria percorrer. Ela foi mandada para outra casa e também para um palácio, onde se vestiu de homem e trabalhou como guarda. Acompanhamos, portanto, a difícil vida e a trajetória quase que inacreditável de Shekiba.


A pérola que rompeu a concha é um livro maravilhoso, apesar de fazer nosso coração chorar. Tanto a história de Rahima, quanto a história de Shekiba, são inspiradoras, que exemplos de mulheres nós temos aqui! Aliás, ambas as histórias nos prendem de uma forma incrível, eu estou apaixonada pela forma com que Nadia Hashimi escreve. Vocês não vão encontrar, nesta resenha, nenhuma reclamação ou ponto negativo, eu só tenho coisas boas para falar deste livro.

O preconceito é um dos temas de A pérola que rompeu a concha, e ele existe em todo lugar, mesmo diante de pessoas que temem tanto a Deus. E mais: o preconceito é escancarado, ninguém tem vergonha de demonstrá-lo. Shekiba teve sua alma machucada por viver em volta de pessoas tão ruins. Shekiba foi explorada e ridicularizada pelas pessoas, apenas (mas não somente por isso) por ter seu rosto desfigurado, mas ainda assim, continuava seguindo em frente. 

Mas apesar de o preconceito se fazer muito presente, A pérola que rompeu a concha é, principalmente, um livro sobre as mulher e sobre seu papel e representação social em culturas que a desvaloriza imediatamente apenas por seu gênero. É por isso que eu gostei tanto deste livro! Esse assunto me interessa muito e deveria interessar a todas nós. Hashimi expõe tradições ridículas que somente favorecem o gênero masculino e inferiorizam o gênero feminino, não vou citá-las, mas vocês provavelmente imaginam quais são.

"O vestido, o marido, a sogra... Como eu gostaria de poder me livrar de todos eles." (p. 313)

Ainda assim, mesmo sendo mulheres e vivendo em uma “sociedade” tão injusta, Rahima e Shekiba fazem acontecer (do seu modo limitado, mas fazem), e é por isso que vocês precisam ler este livro. Eu o indico com todas as minhas forças, é uma história que merece muito ser lida pelo maior número de pessoas possíveis. No geral, eu adorei as protagonistas e, também, a tia de Rahima, Khala Shaima, que é uma mulher incrível que sempre incentivou as meninas a estudarem.

"Cada gota de conhecimento faz algum bem. Olhe para mim. Tenho sorte de saber ler. É como uma vela em algum quarto escuro. O que eu não sei, posso descobrir sozinha. É mais fácil enganar alguém que não é capaz de descobrir as coisas por conta própria." (p. 233)

Quanto a edição da editora Arqueiro... Está linda! Eu adorei a capa, as cores e todos os detalhes. Nas últimas páginas, têm-se, além dos agradecimentos, uma nota da autora e uma entrevista feita com ela. Achei muito bacana e informativo.

Talvez eu não tenha falado nem metade do que eu gostaria. Durante a leitura eu ficava pensando: “Nunca vou conseguir, por meio de uma resenha, expressar tudo o que eu estou sentindo!”, então saibam: o que eu expus até aqui, é apenas um recorte da grandiosidade que este livro é. Leiam, leiam, leiam!


HASHIMI, Nadia. A pérola que rompeu a concha. São Paulo: Arqueiro, 2017.



8 comentários:

  1. Vi esse libro no catálogo e fiquei com vontade de pedir.
    Ainda quero dar uma chance para essa leitura por conta das personagens =D
    Sua resenha me deixou assim, com mais vontade ainda rs

    Beijos

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    1. Dê, Clayci, dê. As personagens são inspiradoras! E eu fico feliz que a resenha tenha feito isso em você.
      Beijos

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  2. Oi Thamiris!
    Já tinha visto a capa desse livro mas ainda não tinha lido nenhuma resenha. Fiquei interessada, a história parece ser muito emocionante. Só sua resenha já me deu vontade de chorar.

    Beijos,
    Sora | Meu Jardim de Livros

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    1. Oi, Sora!
      Fico muito contente em saber disso. Espero que você leia e ame este livro tanto quanto eu amei.
      Beijos

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  3. Que legal, ainda não conhecia. Uma ótima resenha :D

    http://submersa-em-palavras.blogspot.com.br/

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  4. Nossa Thamiris, eu confesso que não imaginava que era um livro tão bom! Acho que vou gostar da abordagem da autora para falar do preconceito e sua resenha ficou ótima!!

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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    1. Obrigada, Mi!
      É um livro muito mais que bom, é maravilhoso!
      Beijão

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