sexta-feira, 14 de julho de 2017

Numa casa abandonada


O silêncio reinava. As paredes rachadas, o farelo de cupim, um aspecto carcomido tomava conta do ambiente. Há muito tempo eu não ia lá. A casa estava abandonada. Não sei o que me levou a achar que, naquele dia, de alguma forma, poderíamos brunir o nosso relacionamento. Procurar brilho num lugar tomado de escuridão foi uma atitude impensada e infeliz.

Quando eu decidi convidá-lo para dar uma volta naquela antiga casa de campo, eu havia deixado de lado toda a empáfia (pois segundo mamãe, era isso o que eu sentia) que havia no meu interior, eu queria recomeçar dando a ele uma segunda chance, depois da maldita agressão que cometeu contra mim. Ainda era dia quando chegamos. Não havia sol, mas estava bastante claro. Lembro de ter olhado para o céu e ter feito uma pequena prece: Meu Deus, que o sofrimento cesse, por favor.

Eu o convidei para entrar. Ele estava confuso, depois de tantos xingamentos e muito tempo sem me encontrar, eu finalmente decidi vê-lo. E o convidei para ir até a casa abandonada que minha família mantinha no campo, para conversarmos, longe e a sós. Eu juro que a minha intenção era reconstruir a nossa relação. Eu queria perdoá-lo. De alguma forma, eu o perdoei.

- Eu sinto saudade.

Foi a primeira coisa que ele me disse, enquanto abria as janelas e acendia algumas velas. A escuridão começou a dar as caras minutos depois de chegarmos, era inverno. Eu ainda não me sentia a vontade para falar, então deixei que ele preenchesse o silêncio com suas palavras... vazias. As palavras, dizem, tem um grande poder. Eu sempre acreditei nisso, mas nunca fez tanto sentido quanto naquela noite. E foi por elas, suas palavras, que meus pensamentos tomaram um rumo novo. Sombrio.

Ficamos sentados no sofá. Ele falou por bastante tempo. Vê-lo dizer que sentia a minha falta, que havia cometido um grande erro me agredindo naquela noite infeliz, fez com que eu me sentisse mal. Digo mal, pois a primeira sensação que tive ao ouvir suas desculpas esfarrapadas foi uma tontura desagradável. Eu apenas concordava com ele, enquanto ele conduzia nossa conversa. De repente, um pequeno trecho da cena surgiu em minha mente, o momento em que ele me jogou no chão e me deu o primeiro tapa. Então eu falei pela primeira vez, desde que chegamos naquela casa:

- Um minuto, preciso ir ao banheiro, acredito que ainda funciona.

E foi no banheiro, diante de algumas lagartixas e baratas, que eu recomecei a me sentir um alvo. A escuridão e a distância, estarmos só nós dois naquela casa... Comecei a sentir um medo indescritível. Maldito pensamento e atitudes impensadas! A esperança se esvaiu, eu não queria mais dar brilho ao nosso relacionamento. Eu queria brunir a mim mesma. Então sai do banheiro, decidida a ir embora, só não sabia como fazer isso, estava com muito medo. No caminho, passei pela cozinha e coloquei uma faca dentro da bolsa, assustada, sem entender o que estava fazendo. Quando voltei até a sala, tentei disfarçar a insegurança e falei a primeira coisa que me veio à cabeça:

- Desculpa, eu não me sinto bem. Vamos embora? Olha, eu acho que cometi um erro, eu não estou pronta para perdoá-lo.

Aquilo bastou. Ele veio, furiosamente, em minha direção e começou a me sacudir. Eu sabia que suas palavras eram controladas, que tudo era mentira e em vão. Naquele momento, eu sabia de tudo. Ia repetir toda a cena, mas, bem, eu cortei o mal pela raiz. Foi instantâneo, não tive tempo de pensar. Num impulso, tirei a faca da bolsa e a cravei em seu peito. Seus olhos arregalaram, bem como os meus no dia em que me agrediu. Tirei força não sei de onde para puxar a faca, agora cheia de sangue, e apunhalá-lo outra vez. Deus me ouviu, por um momento, a dor cessou, mas ele não atendeu o pedido da forma que eu esperava.

Escrevo da penitenciária. Numa casa abandonada, matei o homem que começou a me matar, mas não terminou, pois não teve tempo. Enquanto eu passo o resto da minha vida atrás das grades por ter acabado com quem iniciou o meu fim, me arrependo, não se paga a violência com violência, mas o que eu poderia fazer? Ninguém questionou aquele homem quando eu fui agredida, mas todo mundo duvida de uma mulher.

Por Thamiris Dondóssola.

5 comentários:

  1. MUITO FORTE! Apenas.
    Diferente de uma forma boa seu texto Thami, e não menos maravilhosamente escrito!
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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  2. Oi, Thamiris
    Nossa, que forte e real! Achei a jogada da casa genial, deu um ar mais sombrio, como só uma vida de agressão pode ser. Super amei. Criatividade e escrita maravilhosa. Parabéns!

    Livros, vamos devorá-los

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    1. Oi, Leticia!
      Ahhhhh que linda! Muito obrigada. ♥
      Beijos

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  3. Olá,
    O texto conseguiu prender minha atenção do início ao fim e fiquei com aquela angústia para saber o que ia acontecer a cada linha lida.
    O final foi bem impactante e mostra a diferença que são tratadas mulheres e homens, que infelizmente não foge do real.

    LEITURA DESCONTROLADA

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