quarta-feira, 29 de março de 2017

O que der na telha - Com DeCastro #34


A MORTE DE UM PEDERASTA

Levanto-me de manhã cedo e percebo o relógio marcando hora e data. Cinco horas. Sexta-feira, 13. Tudo pode acontecer numa sexta-feira 13, assim como em uma quinta 12 ou em um sábado 14. Numerologia e superstições sempre foram uma prática sedutora nas diversas civilizações. Para mim, no entanto, soa indiferente. Eu, que apenas me desloco na condição úmida e ferina de minha existência, descubro-me e, então, tenho consciência de que é muito fastidioso me vestir. Decido ficar na cama por mais algum tempo. Essa consciência que se percebe proclama sua superioridade ao seu objeto de análise: eu mesmo. Mas ficar aqui atirado sobre o colchão de molas soltas e gastas é por demais angustiante. Sou um ser de angústia, recolhido em mim mesmo.

Semi-ergo-me, convicto e enérgico, ponho-me a calcular minha rotina: primeiro me visto - sempre nesta ordem: meias, calça, cinto, sapato, camisa, que abotoo até o colarinho. Em seguida, o desjejum - pão, queijo, café e uma fruta; faço minha higiene, com banhos regulares, e vou para o trabalho. Mas hoje será diferente. Hoje irei me permitir. Farei coisas que sempre quis fazer, mas por um motivo ou outro jamais ousei. E uma dessas coisas é escrever uma carta, esta carta, como prova para a posteridade da liquidez do cotidiano. Essa plastificação que tanto odeio e que corrói as pessoas. Esse invólucro sufoca minha existência que urge por liberdade; que grita por uma vida vivida por mim e não por outrem. Então, nem que seja por um único dia, eu serei quem sou: Ariel Shefereston.

Vou à janela descamisado e apenas usando uma cueca samba-canção. Abro a persiana e vejo através do vidro os transeuntes lá embaixo. É preciso se colocar acima do humano que há em nós para se sentir poderoso. Daqui de cima, da janela do quarto de meu apartamento, vejo os passantes que seguem, com ou sem rumo, seu cotidiano. Quantos seres ignóbeis, abjetos, abomináveis, baixos, desprezíveis, detestáveis, execrandos e execráveis não caminham em procura de suas mulheres, amantes, putas e filhos? Não estão, talvez, a procura de seus cães, gatos, sapatos, selos, herbários, vestidos, chapéus e de toda a infinidade de penduricalhos que adornam a interminável mediocridade humana? Vejo a todos e ninguém me vê. Sou meu senhor, pois me permito.

Sento-me a escrivaninha. Penso no que me restou: um revólver; seis balas; um gato e uma vida medíocre. Pego as balas e giro o tambor. Direciono o cano da arma para a janela, depois para o gato. Em seguida, encosto-o em minha cabeça. Desisto! Vou a janela outra vez. Olho novamente para baixo e coloco uma bala no tambor. Essa será atirada a sorte. As outras cincos terão destinos: Isaque Krohan, o senhorio; Flora Fernandez, minha vizinha com quem mantenho um romance; o casal, Carlos Garcia e Betina Boaventura Garcia, sovinas donos do Garcia’s Bar e Gilberto Caeiro, pseudo-poeta falido.

Deposito as outras cinco balas no tambor do revólver. O gélido toma meus dedos, minha mão e, sem perceber, estou todo absorvido. Toco o gatilho. Essa meia lua infernal e macabra, tão leve quanto uma pena e tão destruidora quanto uma manada. Em seguida, miro num sujeito que está encostado em um poste conversando com uma mulher, pois ele me parece ser um grande pederasta. Enquanto isso, faço todo o plano em minha mente: “atiro lá em baixo, depois bato a porta de Flora e acerto sua cabeça, sem piedade. Em seguida, é a vez de Isaque Krohan, que provavelmente estará na recepção. Então, me direciono a sala vizinha ao hall, que usam de biblioteca, e atiro em Gilberto Caeiro. Vou ao bar e deflagro as duas últimas balas com destino. Pego a rua Louis Françoise e desço a ladeira. Logo estarei na estação rodoviária e vou para Genebra. Pronto! Salvo! ” 

Deixo a arma carregada em cima da mesa. Preparo a mala: dois pares de meias, três camisas, duas calças, um pulôver, um chapéu e cinco livros. Além de documentos pessoais e dinheiro. Fiódoor, meu gato, enrosca-se em minhas pernas, miando e me olhando docemente. Afago-o. Sirvo sua comida e ele se vai. Gosto de gatos pelo seu desprezo. Termino minha mala e me visto: meias, calça, cinto, sapato, camisa, que abotoo até o colarinho. Saio. Abro a janela e o pederasta ainda está lá. Será ele. Então, vejo esperar na faixa de pedestre um sujeito com ar de filatelista. Nunca gostei desse tipo. Miro nele. Mas do outro lado tem um esquálido e asmático que se encaixa no perfil de um dipterólogo. Se há algo que odeio mais que um filatelista é um dipterólogo. Então, miro nesse. Titubeio. Não sei se atiro no Pederasta, no Filatelista ou no Dipterólogo. Decido pelo Pederasta. Seguro o revólver na mão direita e vou registrando tudo na minha memória para depois terminar de escrever. Pego a mala pela alça e disparo. O projétil corta o espaço entre mim e o Pederasta. Mas não o acerto. Saio em disparada pela porta e imagino as pessoas correndo em todas as direções. Bato na porta de Flora, empunhado com minha arma e ninguém me atende. Toco a campainha uma, duas, três vezes e nada. O revólver começa a escorregar da minha mão suada. Sinto que estão vindo. Ouço passos. Quando olho, é Flora. Sorridente e divina, com a boca um pouco repuxada, graças a um leve derrame que teve a três anos. Ela vem em minha direção com os cabelos balançando. Seu ar é lívido. Acho que não ouviu o tiro, a gritaria, o estrondo. Talvez nem tenha percebido a arma na minha mão. Escondo-a no cinto. Flora me beija e abre a porta. Entro atrás dela e sinto seu perfume. Tenho um propósito. Devo cumpri-lo. Tenho a obrigação de continuar sendo meu senhor, exercendo minha liberdade de fazer aquilo que quero. Ela vai para a cozinha. Diz que vai abrir um vinho. Espero-a na sala, com a mala ao lado do sofá. Tiro do bolso o papel que escrevo esta história, pego sua caneta de marcar recados que fica na mesinha do telefone, pego meu revólver, escrevo até aqui, mordo o cano da arma com força, meu dente trinca e...


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