quinta-feira, 2 de março de 2017

O que der na telha - Com DeCastro #32


O gélido amplexo do inverno apertava junto de si todas as coisas e seres. Na Montmartre as pessoas apinhavam-se nas calçadas imundas. Alguns postes luziam uma luz fraca, enquanto outros bruxuleavam, ora mostrando mulheres encasacadas, exceto pelas pernas seminuas, ora deixando apenas silhuetas sugestivas que mexiam os quadris suavemente quando por ali passavam alguns homens ou algumas mulheres a procura de prazer.

Um tédio doloroso cobria tudo. Sobre as cabeças enegrecidas pela noite pairava a lua que tingia de cinza os prédios e becos, insinuando uma noite lasciva, carnal. Wallace Marc era um habittue da Montmartre, de seus cafés e dancing, da vida noturno e agitada que ali pululava aos montes. Marc andava sempre à procura de noites de sexo avulso, frio e inconsequente. Portanto, ficava as voltas da rua, ou então sentava em um dos pub’s, sempre sozinho e quieto, pedia algo para beber e fumava, nervoso e compulsivamente. Marc gostava das mulheres dali pois elas eram seres apócrifos, tais como ele, indesejadas pela maioria das pessoas. Elas eram loucas, alcoólatras, ex religiosas, excomungadas pela vida depravada e desviante que tinham. Eram mulheres abandonadas pelas famílias, pela assistência social, esquecidas por Deus, e pelo Diabo, também. Na Montmartre, as mulheres eram verdadeiras desajustadas, cúmplices, abotoadas umas às outras pela miséria, pela existência sórdida e impune. No entanto, pensavam, tanto quanto qualquer outro, na trivialidade da vida. Na banalidade da existência, no desassossego d’alma quando não se tem nada para beber, ou fumar; tampouco alguém para foder. Pensavam em geometria isotrópica, em buracos negros e no universo em expansão. Eram partidárias de Pound e de Anais Nin, odiavam os escritores russos, de modo geral, pois os achavam melancólicos demais. Nenhuma delas vivia mais de trinta anos. Morriam jovens. Ou eram mortas jovens. Morriam de tudo, exceto de felicidade ou de tanto sorrir. Eram mulheres com a marca de Caim. 

Uma chuva fina e fria começara a cair. As marquises começavam a ficar povoadas rapidamente. Muitas das mulheres davam a noite por terminada, armavam o guarda-chuvas e iam embora. Se dessem sorte, encontrariam alguém pelo caminho que lhes pagassem ao menos um conhaque, ou gim. Marc caminhava só, pesadamente, sobre a chuva que agora aumentara. Entra no Marina’s. Ali encontra-se uma humanidade licenciosa e degenerada. Os tipos variados sobressaem as meras aparências: as luzes dos lustres sobre as mesas aquecem os miolos borbulhantes, acalorados pelas bebidas fortes. Ao atravessar a soleira, antes mesmo que a porta se feche nas suas costas, uma lufada toma-lhe por trás e arranca seu boné achatado na cabeça. Marc tem um rosto claro, quadrado, com uma cicatriz horizontal no queixo anguloso e firme. Por trás dos aros grossos dos óculos mostra olhos combalidos, inexpressivos, embora anguloso e sádico.

No fundo do bar, de baixo de uma ótima cópia do Cristo Amarelo, havia uma mulher de olhos negros com brilho intenso e sádico. Lia com prazer um grosso livro, ainda que parecesse vencida pela estafa. Parecia sofrer o jet lag. Ainda assim, mantinha o sorriso de mil sóis estampado no rosto lívido. A pista estava abarrotada, fumacenta e azul. Ao som dos músicos argentinos, casais jactantes dançam o tango num frenesi burlesco e erótico. Enquanto isso, na lateral direita da porta dos fundos, sobre a penumbra, alguns se alucinam com grandes carreiras de cocaína e com uísques caros sobre as mesas envernizadas. E falavam. Falavam muito. Tagarelavam sobre qualquer coisa, somente precisavam falar, tudo isso sobre o efeito da droga. O tango acabara. Rapidamente entram os músicos de jazz que se põe a descompassar o ritmo. Alguns dos casais que se encontravam às mesas logo foram para a pista; outros que lá estavam, na pista, sentaram-se às mesas. O baterista, um belo negro espadaúdo com punhos fortes de pugilista, soca o instrumento e, feito um pavão, é todo exibicionismo. Marc senta-se no tamborete do balcão, pede para si um duplo com gelo, pergunta o que a mulher no canto está bebendo e manda Antoin levá-lo. Antoin prepara um Bloody Mary e a serve.

Ela vira o drinque, fecha o livro, coloca-o na bolsa tiracolo, levanta-se e senta ao lado de Marc. Depois das devidas apresentações, Wallace entorna sua bebida num só gole, pede outro Bloody Mary para Brigitte que, por sua vez, vira o copo de novo. Seus dedos crispados tamborilam levemente o balcão, acompanhando os acordes da música. Enquanto isso, com o dedo indicador da mão esquerda, faz movimentos circulares na borda do copo; são movimentos hábeis, trinados. Nada falavam. Continham-se apenas em dirigir magros olhares um para o outro. Ele afunda as mãos nos bolsos da calça sarja. Toca em algumas moedas que ao chocarem-se entre si e em um molho de chaves, emitem um ruído metálico estridente. Brigitte é tomada por uma memória antiga, proibida e embaraçosa. Uma vileza sensualmente satânica flutuava nos olhos negros de Brigitte Rosenstock. Brigitte desvia o pensamento, detendo-se em algumas figuras no balcão: Marmaduque fora um marinheiro que caçava focas na costa do Japão a bordo do Mercedez II. Marmaduque tinha a orelha direita decepada por uma briga de facas com um nipônico em um bar, enquanto o lóbulo da orelha esquerda estava carcomido sabe-se lá por qual diabos. 

Uma voz firme, que parecia começar tímida, no fundo de sua cabeça, começa a ganhar corpo e força, arrebatando-a do transe:

- Qual seu signo? - perguntou Marc, mas Brigitte não demonstrou interesse na pergunta, pois nem bem terminada de faze-la, ela já se ocupava com o baterista, que socava, por sua vez, tão violentamente com suas baquetas os pratos e todo o resto da bateria, que parecia que iria estourá-la logo.

- O que estavas lendo?

- Os Irmãos Karamázov- respondeu ela.


A música ia bem. Os ponteiros já acusavam duas horas. Antoin continuava o mesmo: polido, educado, sorridente e amigável. Ainda mantinha o colarinho alto, rijo, brunindo. A gravata borboleta alinhada, escura, opaca. Apenas uma mexa de seu cabelo caía na testa sulcada, conferindo-lhe um ar jovial, despropositado, galante. Antoin tinha um porte de toureiro: magro, forte e ágil. Fazia sucesso. Jamais ia para casa desacompanhado, exceto quando queria. 

Diferentemente de Antoin, Gerard, o outro garçom, era um sujeito rechonchudo e calvo, impassível e calcinado. Vivia irritado, carrancudo, gesticulava muito, sempre tinha uma piada suja na ponta da língua. Ainda assim, no que diz respeito aos modos de trato e a roupa, Gerard era tão impecável quanto Antoin. Gerard era favorável ao partido comunista francês, para Antoin, tanto fazia. 

- Antoin, por gentileza, meu camarada, sirva-nos aqui: um duplo com gelo, do mesmo, certo?, para mim, e mais um Bloody Mary para a Brigitte - disse Marc.

- Camarada é o Gerard - respondeu-lhe Antoin, de modo muito amistoso. Tanto Marc quanto Antoin se puseram a rir.

- Vão tomar no cú, seus sacanas - disse Gerard, dando uma tapinha nas costas de Wallace Marc e sorrindo para ambos. - Perdoe-me, madame.

- Antoin, uma cerveja, não mais o drinque - disse Brigitte.

- Como preferir! - e pôs-se servir a bebida. A cerveja, ao ser desarrolhada, saiu uma fumaça fria da refrigeração, já o uísque, ao tocar o fundo do copo com gelo, soou como uma ária de Mozart.

Os clientes começavam a ir para casa. 4h 36min. Sobraram apenas alguns nos tamboretes no bar, terminando suas bebidas, dentre eles, o velho marinheiro, Marmaduque, e outros, nos cantos, sobre os bancos estofados, dando cabo de suas últimas carreiras de cocaína. Os músicos desmontavam os instrumentos, enquanto Antoin lavava os copos e Gerard punha o salão em ordens. A chuva cessara. Grandes poças d’agua formaram-se no asfalto. Algumas mulheres voltavam a procura de um ou outro transeunte já alto. Brigitte sai, recosta-se na parede, do lado de fora do Marina’s, de baixo do letreiro luminoso que indica a atração da noite, o tango argentino, acende um cigarro, esperando por Marc, que paga a conta e pega mais duas cervejas, atocha o boné na cabeça, despede-se, um pouco enrolado e trôpego, de Antoin e Gerard que, num gesto de cumplicidade, sorriem. A fumaça do cigarro é carregada pela brisa que sopra. Antes mesmo que a fumaça do cigarro e os miasmas saídos dos interstícios das bocas-de-lobo se fundem, imagens horrendas se formam em frente a Brigitte. Wallace Marc oferece uma das cervejas a Brigitte, ela pega e apaga o cigarro com a sola do sapato, mostrando boa parte de suas coxas brancas e firmes. Joga a xepa no bueiro. 

Ambos caminham pela calçada lado a lado, quietos e encolhidos. Uma nuvem cinge a lua, causando um momento parcial de densa escuridão. Passam por uma prostituta que, com uma voz clara e branda, lhes oferece serviços. Ignoram-na e se vão, emudecidos e com as mãos nos bolsos. Então Brigitte rompe o silêncio, entabulando uma conversa:

- Está aqui a procura do que?

- De poesia que não pode ser, acredite. Procuro apenas a lúbrica obscenidade - responde-lhe. Dito isto, tornaram-se a quietude. Brigitte Rosenstock baixa a cabeça e finge um sorriso. Ganham a esquina e são tragados pela noite.

5 comentários:

  1. Sabes da admiração que tenho por esse romance, esse capítulo está incrível.

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    1. Ele é dedicado a ti, ainda que tenha páginas obscuras, ele reflete o brilho dos teus olhos, Baby.

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  2. Respostas
    1. Obrigado, Luiza. Espero que venhas mais vezes, e deixe teus comentários.

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