terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

Sobre passar a maior parte do tempo se sentindo feliz

"Eu me sinto livre de culpa, eu me sinto leve."
Eu não sei dizer exatamente como me tornei aquilo que eu sou hoje, mas garanto que fez uma diferença enorme na minha existência. Quando eu era mais jovem, talvez uns treze ou quatorze anos apenas, o meu avô cortou um pé de goiaba que eu vi crescer. Naquela época e do meu jeito, eu sofri. Talvez eu tenha apenas resmungado algo para a minha mãe, talvez eu nem tenha dito nada, mas lembro perfeitamente o quanto aquele gesto, a princípio muito simples, mexeu com o meu emocional. Vou reforçar que não sei o que me fez ser o que sou, mas hoje, ao fazer um longo trajeto no banco de trás de um carro, eu me lembrei desse episódio. Nem tudo é tão simplório quanto aparenta ser.

Talvez eu devesse parar de procurar uma razão e apenas agradecer a Deus sobre como eu sou alguém que passa boa parte do tempo se sentindo feliz. Se o mundo não fosse tão mau e as pessoas não fossem tão ruins, eu me sentiria completa. Mas, nem tudo sempre foi como é hoje. Eu nasci com um pensamento indiferente com relação aos animais. Nem gato nem cachorro me encantavam, eu os desprezava, não me importava com a existência de cães abandonados vagando pelas ruas, por exemplo. Eu me envergonho disso. Mas aos poucos, eu comecei a notá-los, sim, pois ver e notar são coisas diferentes. Um dia, depois que perdi o gato Elvis, entendi a diferença que eles, os animais, podem fazer em nossas vidas. E não, não estou falando de comida. Anos mais tarde, talvez por obra do destino, eu quis adotar um cachorro. Adotei o Mac no dia 27 de outubro de 2012 numa adoção de vira-latas instalada no colégio em que eu estudava, o CEDUP. As informações eram de que o Mac tinha aproximadamente um mês e que tinha sido encontrado abandonado junto aos seus oito ou nova irmãozinhos. Alguns diriam que Mac veio morar comigo, mas eu tenho certeza de que eu é que fui morar com ele. 

Aquele cachorro mudou a minha vida, acredite você ou não. Eu passei a ter um instinto de proteção que eu jamais tive, ele me fez enxergar a vida de um jeito completamente diferente, mais sensato e puro. Mac me fez ter esperança nas pessoas. O amor que eu sinto por ele é inexplicável, como todas as coisas mais importantes da minha vida são. 

Mais ou menos três anos depois da adoção do Mac, eu dei um passo que, mais uma vez, transformaria a minha existência. Tempos depois, também adotei uma cadelinha mágica chamada Nina que foi abandonada na rua da minha casa. Mas foi a partir do passo referido acima que eu comecei a me sentir na maior parte do tempo, inteiramente feliz. Amar alguns animais apenas, não era o suficiente.

Nunca fui fanática pelas outras carnes, apesar de comer de vez em quando, mas tinha uma forte inclinação por galinha. Comia muito, não conseguia me imaginar sem, “frango xadrez” era o meu prato favorito. Ou melhor: não dava importância o suficiente para tentar me imaginar sem, e eu acho que esse é um grande problema. Mas isso mudou. Não sei dizer quando, nem a razão. Mas eu passei a olhar para o Mac e ver um porco, um boi, uma galinha, um peixe. Acho que é uma questão de consciência, que mais cedo ou mais tarde acaba nos perseguindo. Coube, portanto, a mim, escolher ignorar ou fazer algo a respeito. 

Antes de prosseguir, espero que entenda que estou longe de ser inteiramente justa, mas acredito firmemente que cada passo faz diferença. Primeiro, decidi parar de comer carne de boi. Depois, parei de comer carne suína. Ainda me alimentava do frango, mas o gosto começou a se tornar insuportável. Larguei. Ainda comia peixe, mas não era justo. Parei. No mês de março completo dois anos sem comer animais. Algumas pessoas me perguntam, como quem não quer nada: “Nem de vez em quando, nem um pedacinho?” Eu gostaria de perguntar a elas quais são os seus problemas, mas minha educação não deixa. Eu fiz uma escolha, não tenho razão para comer um “pedacinho” de vez em quando. Não estou brincando de não comer animais, eu não quero, não como e não, não sinto mais vontade de comer. Há coisas mais importantes com as quais eu convivo, não comer animais é uma escolha interior, para que eu me sinta melhor comigo mesmo. Não é status, não é bobagem, não é “quero ver até quando você aguenta”. 

De 2015 para cá eu me sinto mais justa. Ainda não cheguei ao meu objetivo, mas me sinto feliz por ter feito o que fiz. Não comer animais é algo que me deixa orgulhosa de mim mesmo. É algo que me deixa feliz na maior parte do tempo. Eu me sinto livre de culpa, eu me sinto leve. Eu olho para um cachorro, um boi e um porco e enxergo vidas, não vejo pratos. O meu olhar não capta nenhuma diferença, o meu olhar enxerga a todos esses animais com igualdade. Ter consciência de que eu não preciso me alimentar deles para sobreviver, de que nenhum animal precisa sofrer e morrer para que eu viva me faz sentir uma sensação de leveza inigualável. Se sentir livre de qualquer culpa faz a minha vida valer a pena. Talvez eu não esteja aqui para ver isso acontecer, mas em meus mais almejados sonhos, pessoas e animais têm o mesmo direito à vida. 

Coloco um sorriso no rosto, pois apesar de sentir frequentemente que tudo está perdido, eu ainda acredito na justiça. As pessoas podem até dizer que estou me iludindo, mas não podem tirar de mim aquilo que me faz levantar todos os dias: esperança.

15 comentários:

  1. Olá Thamiris! A questão de comer animais está enraizada na cultura. Acredito que se os pais vegetarianos ensinarem seus filhos a não comerem carne, teremos um futuro em que não será comum o consumo de animais. Isso vai demorar, talvez não estejamos vivas para ver, mas gradualmente pode acontecer. Eu como carne, não me orgulho disso. Me pego pensando às vezes que guardamos cadáveres em nossa geladeira, isso não é estranho? Não é estranho nos apaixonarmos por aves como papagaios, periquitos e calopsitas e, não termos dó da galinha? Me pergunto se o consumo de animais está ligado ao fato de acharmos que são irracionais. Enfim, consumir animais é uma prova do quanto somos pouco evoluídos. Não vou revestir de hipocrisia e dizer que este mês tentei parar de comer carne, mas confesso que tenho pensado bastante sobre o assunto. Beijo!

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    1. Oi, Maria!
      Obrigada pela visita, adoro ver você por aqui.
      Enraizada na cultura, na tradição... Também acredito nisso que você mencionou. E sim, isso vai acontecer. A salvação do planeta depende disso.
      O consumo de animais está mais relacionado a seguinte questão: as pessoas não enxergam o sofrimento pelo qual eles passam. A carne embalada não as faz enxergar um matadouro, muito sangue e violência. Sendo assim, é fácil comer. É aquela velha história, aquilo que Paul McCartney disse: se os matadouros fossem de vidro...
      Enfim, fico feliz que você esteja pensando sobre o assunto. Esse é um grande ato, acredite.
      Beijos


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  2. Simplesmente fantástico. Quando te conheci, a princípio achei estranho, porém logo me acostumei, como também super respeito a tua escolha e esse teu jeitinho maravilhoso de ser. És uma inspiração para todas nós que te cercamos. Beijinhos minha frô.

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    1. Obrigada, Ana! ♥
      É muito bom ler isso, muito bom mesmo.
      Beijocas

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  3. Olá Thamiris, a vida é feita de escolhas não é mesmo. Essa questão sobre alimentação também, eu não sou muito chegada a carne vermelha para falar a verdade, mas como por força do hábito, aves e peixes tbm, mas não me vejo tirando completamente da alimentação, faz parte da cadeia alimentar. Mas respeito que opta por levar uma dieta diferente e se sente feliz é o que importa! Bjkas

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    1. Oi, Danielle.
      Isso mesmo, a vida é feita de escolhas... E eu escolhi não comer animais. ♥
      Beijos

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  4. Achei seus argumentos lindos.
    Mas tenho algumas questões que discordo que não vou discutir com você, acredito que cada pessoa deve ser feliz como ela quer e como bem deseja, seja comendo um alimento que você goste ou não.

    A questão de adotar é maravilhosa, hoje em dia sinto que as pessoas mal tratam muito mais os animais, eu não sei se a questão d ainternet ajuda nas denúncias, por isso é visto tanto.
    Queria poder fazer mais do que faço hoje em dia. Ajudo APAD da minha cidade com ração, sempre compro uma vez por mês e levo lá e já muitos bichinhos em situação complicada.

    Mas tirando esse ponto, é como falei com um crush outro dia hehehehe. O ser humano tem um problema doentio. Se você pensa diferente de uma pessoa, esse ser se acha no direito de ficar dedando você por pensar diferente, tormar atitudes diferentes. Cuidar da vida alheia ainda é um problemão enorme. No momento que as pessoas começaram a mudar hábitos pequenos, a coisa muda de foco.
    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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    1. Obrigada, Helana.
      Sim, adotar é lindo, é revigorante.
      Acho que essa questão de maus tratos sempre houve, mas com a internet a gente passou a ter mais consciência disso.
      Seu gesto é lindo, parabéns! ♥
      Beijos

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  5. Olá!
    Em primeiro lugar parabéns pelo seu texto e por sua atitude. Admiro quem consegue não comer carne de nenhum tipo. De verdade.
    Eu não vejo sem comer carne, não que eu coma tanto, mas nesse caso penso que a quantidade não importe tanto, e sim o ato em si. Mas como você disse, é questão de escolha e eu respeito e admiro a sua.

    Sobre adoção, é ato de puro amor. Sou totalmente a favor, já adotei e só não adoto mais porque não moro sozinha e minha mãe não quer mais cachorros aqui. Sou do tipo que vejo um animal na rua e já quero trazer para casa, quem dera eu pudesse.

    Beijos.

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    1. Oi! :D
      Obrigada, Aline.
      Quando eu tiver a minha casa, adotarei mais anjinhos de quatro patas, também moro com minha mãe.
      Beijocas

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  6. Thami,
    Como sempre, mais um texto extraordinário e você sabe o quanto gostei dele.
    Você é um exemplo pra mim e, por mais que você diga que tem algumas atitudes não boas, sei que todas são maravilhosas. Admiro você demais por não comer carne, por ter adotado seus cães e por expor a vida dessa forma. Oxalá, um dia, eu possa ser como você.
    Beijos ♥

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    1. Oi Bruzinha. ♥
      Obrigada por tudo isso meu anjinho, você também é um ser iluminado.
      Beijocas

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  7. Oi Thami
    É uma decisão muito nobre, mas eu ainda não consigo tomá-la. Um dia, quem sabe?
    Beijos e viva toda a sua felicidade plenamente

    Vidas em Preto e Branco

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  8. Achei bacana o texto, mas preciso confessar que me senti um pouco ofendida com ele.
    Sim, as escolhas são suas e eu super entendo quando você fala do seu sentimento em não comer carne, acontece que, para mim, comer carne e maltratar animais são coisas muito diferentes. E no seu texto, ficou parecendo que quem come carne é um monstro que, como não vê problema em um animal morrer para se alimentar também não vê problema em maltratar qualquer outro animal... E é aí que me senti ofendida, ao me sentir culpada por simplesmente gostar de comer carne - e ser totalmente contra a maltratar animais. E não, não são a mesma coisa...
    E se for assim, o que eu acabo pensando é que "criar plantas" para matar e comer teria o mesmo sentido de "criar animais" para matar e comer. MAS, cada um com sua escolha. Se você é mais feliz assim, ótimo. Não estou comentando com a intenção de dizer que você está errada em não comer, que está errada em pensar assim, ou até mesmo para perguntar se "nem um pedacinho" (afinal, dá para ver que isso é uma escolha sua, e se é escolha não tem sentido achar que você está brincando de não comer carne como algumas pessoas pensam pelo que você citou no texto...), se é o que te faz feliz, ótimo!!! Acho que o mundo seria muito melhor com mais pessoas felizes - e que cada uma possa escolher como será mais feliz.
    Beijinhos,
    Lica

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