segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Resenha: Todos iguais, poucos diferentes - Morais de Carvalho

Sinopse: Agora, neste preciso momento, esqueça o que está ao seu redor. Pare e sente-se comigo neste banco de jardim. Observe todas estas pessoas que correm, que sobrevivem, que morrem. Sinta o seu cheiro a desespero, veja a sua luta diária para pertencer à sociedade. Repare agora nos pormenores: a vizinha que me acolhe nos seus braços e me vem dizer um «olá», uma mulher que foge de mim por ter medo de se tornar num ser louco como eu e um gato que se esfrega nas minhas pernas. Venha, sente-se comigo no meu banco de jardim e no final poderá decidir se quer ser afinal como todos os outros, levantar-se e ir a correr atrás de todos nós, à procura de coisa nenhuma, ou se por outro lado prefere sentar-se neste banco e caminhar os seus próprios pensamentos. Sente-se, vou contar-lhe a minha estória, a minha loucura.


Todos iguais, poucos diferentes, publicado pela editora Chiado, foi escrito por Morais de Carvalho. A obra foi cedida ao blog em parceria com a autora. Muito obrigada!

"Se o ser humano não vê, maior é a dificuldade em sentir." (CARVALHO, 2016, p. 29)

Falarei aqui de um livro diferente, bem como o título é capaz de sugerir. Temos como protagonista e narrador um homem adulto cujo nome não é revelado, pois “o meu nome é de todos aqueles que pensam diferente, que ousam sonhar, que se interrogam”. Este homem vive sozinho em um apartamento, sua única - e necessária - companhia é Dona Maria, sua vizinha idosa (senhora que faz um chá de camomila capaz de acalmar qualquer pessoa!). 

O nosso narrador gosta de dar umas voltas de vez em quando, e é numa dessas voltas que ele vê uma mulher sendo assaltada, e durante o ato, ela consegue afastar o assaltante, pedindo a Deus para que ele seja perdoado, e com isso, o elemento a deixou em paz. Depois de observar tudo isso, o nosso narrador passa a seguir a tal mulher apenas para conhecer - de longe - um pouco da sua vida. Então ele não para mais, fica de longe, no jardim da casa dela, conhecendo e decifrando a vida que leva, muito além das aparências. E o leitor, portanto, acompanha a vida deste homem observador, a relação que ele nutre com sua vizinha, Dona Maria, e as descobertas que ele faz a respeito da vida da mulher que passou a observar. 


Este livro não é aquilo que você pensa que é. Eu acabei de fazer uma descrição acima, que serve como um resumo e é a base do livro, mas ao pegar Todos iguais, poucos diferentes e fazer a leitura de fato, você irá perceber que nem tudo é o que parece quando se trata da vida do nosso protagonista. Concluí a leitura com um arrepio percorrendo o meu corpo, Morais de Carvalho construiu um enredo enigmático, reflexivo, extraordinário! 

"E foi aí que eu vi no seu interior, esse poço negro e vazio que nos suga a alma. Tu também o tens, esse negrume invisível, mas que corre no nosso sangue. Também tu sofres, só não sei a razão. Porque sofres tu?!" (CARVALHO, 2016, p. 51)

Com uma narrativa poética e inspiradora, o nosso protagonista, ao longo da estória, faz incontáveis reflexões acerca da condição humana. Eu gostei dele na maior parte do tempo, cheguei até mesmo a me identificar com ele, mas, como é bastante comum, discordo com alguns de seus pensamentos. Já com relação aos outros personagens, quero expor aqui o quanto em apeguei a Dona Maria, meu coração foi da tristeza até a alegria num impulso com o que aconteceu com ela. Dona Maria me remeteu a minha avó, simplesmente pelo conforto que transmite. 

"Cedo o rapaz conheceu uma paixão que lhe daria a mais completa liberdade que um ser humano consegue atingir - a literatura." (CARVALHO, 2016, p. 37)

Todos iguais, poucos diferentes aborda uma série de assuntos, como por exemplo, o quanto a tecnologia evolui, mas as pessoas só retrocedem; a mania que o homem tem de querer ser melhor que qualquer espécie; a eterna dúvida que temos em relação a quem somos de fato; a velhice; as aparências; a família e como os pais têm um papel fundamental na vida dos filhos, pois o nosso protagonista, por exemplo, nunca encontrou apoio nos pais; a pressa que o homem sempre tem; a vida após a morte; o fato de que ninguém tem uma vida perfeita, entre tantas outras coisas. 

"A filha parecia revoltada, como quando somos o melhor da turma e corremos para contar aos nossos pais e tudo o que eles têm para nos oferecer são uns apáticos "Parabéns", com continuação na sua mente "Tenho de ir meter gasolina"." (CARVALHO, 2016, p. 100)

Eu adorei fazer esta leitura. Foi algo novo para mim, todas as reflexões contidas aqui me fizeram repensar muitos dos conceitos que eu tinha. O homem de Todos iguais, poucos diferentes é alguém que não quer ser feliz, pois para ele, a felicidade nunca é plena, sempre é efêmera. Aí há algo importante para ser pensado. Não me sinto a vontade para expor muito do conceito de “anormalidade” tratado pela autora, pois posso deixar algum spoiler escapar e eu não quero que isso aconteça. Mas posso afirmar que o livro é muito bem trabalhado, os elementos se unem perfeitamente e existe uma resposta para qualquer pergunta que você possa se fazer a respeito do enredo. Este livro é para todos aqueles que estão dispostos a encarar uma boa dose de realidade. E acreditem quando digo que vale muito a pena lê-lo. Repito: eu adorei! 

Para concluir, quero que saibam que o que mencionei acima não é nem metade daquilo que eu pude nutrir da obra. Acredito seriamente que nunca conseguirei descrever tudo aquilo que senti ao ler Todos iguais, poucos diferentes. Aqui, Morais de Carvalho nos faz pensar também, sobre aquilo que normalmente não pensamos.


Referência: CARVALHO, Morais de. Todos iguais, poucos diferentes. Lisboa: Chiado, 2016. 144 p.


14 comentários:

  1. Putz, preciso desse livro. Adoro narrativas que não dão nome ao personagem, é um narrador que poderia ser qualquer pessoa, acho um máximo.
    Com certeza um livro que traz uma rteflexão grande e gera pensamentos.
    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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    1. Sim, Helana. Mas podemos nos identificar com qualquer narrador, basta usarmos nossa imaginação. ♥
      Fico muito feliz em saber que gostou do livro.
      Beijos

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  2. Confesso que não sou muito chegada nesses tipos de livros, mas até fiquei intrigada, vou dar mais umas pesquisadas pra ver se eu gosto!
    Beijos, adorei a resenha

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    1. É isso o que importa, Kerolayne! Já fiquei feliz por você ter ficado intrigada.
      Obrigada! ♥

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  3. Oi Thamires o título é bem curioso mesmo. Parece ser um leitura ótima, bem narrada. Foge um pouco do que ando lendo, o que é melhor, mudar um pouco é bom rs

    Bjs, Mi

    O que tem na nossa estante

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    1. É verdade, Mi. Mudar um pouco é sempre bom! ♥

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  4. Olá! Ultimamente tenho fugido de livros muito realistas ou que tragam uma reflexão profunda, mas de vez em quando é bom pegarmos um livro que nos faz pensar. Esse tem uma proposta de fazer o leitor pensar bastante. Vou deixar a dica guardada para quando estiver em um momento propício para uma leitura assim.
    Beijos!

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    1. Oieeee!
      E faz mesmo, é uma leitura muito reflexiva. ♥
      Beijos

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  5. Pode parecer bobagem minha, mas esse livro é um tipo de "Black Mirror" versão brasileira...

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    1. Não conheço essa série! hahaha. Vou dar uma pesquisada.

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  6. Olá Thamiris, gosto quando o livro envolve o leitor na leitura de forma que convence e sua resenha me deixou disposta a ler e conhecer a escrita desse autor. Ultimamente li alguns livros da Chiado onde os autores são bem interessantes. Dica anotada. Bjkas

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  7. Thami não conhecia o livro e foi ótimo saber um pouco do enredo através da sua resenha e impressões. Muito interessantes os temas abordados e discutidos nele, com certeza luvros assim agregam muito ao leitor. Valeu pela sugestão. É nacional ou português!!??? Fiquei na dúvida!!! Beijos

    Leituras, vida e paixões!!!

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    1. Que bom que gostou, Aline!
      O idioma do livro é o português de Portugal. :D
      Beijos

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