quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

O que der na telha - com DeCastro #31


O inverno havia chegado pesado e massivo. O vento agia como navalha, ressecando os lábios e cortando-os em pequenas fissuras que ardiam ininterruptamente. Dos olhos, o mesmo vento arrancava lágrimas. Charles Garras terminava sua sopa escaldante enquanto esperava, para seu deleite, um saboroso risoto de alho poró, combinando com um grande bife embevecido num grosso molho madeira. Bebia um vinho tinto do porto, de inigualável sabor, ainda que fosse uma bebida razoavelmente barata, refestelando-se à mesa. 

O Le Bristot servia refeições a preços módicos e tinha em sua clientela intelectuais e artistas, em sua maioria. Toda essa gente formava uma enorme turba barulhenta e disforme. Claudet, uma jovem romancista com finais apoteóticos e assassina de personagens, mantinha seus olhos miúdos e seus grossos e desejados lábios sempre voltados para uma xilogravura de Gilvan Salmico, imaginando sua viagem ao Brasil. Usava brincos escuros, grandes e chamativos, que pendiam em suas orelhas, conferindo-lhe presunção e elegância. Por sua vez, o balofo Yusef, um rabino que se aventurava em escrever poesia mística, bebia sempre e quase nunca comia. Yusef Ben Shalomon era diretor da maior Beth Midrash de Paris. Andava sempre acompanhado de seu melhor discípulo, o jovem Benyamin, cujo brilho e sofisticação dos argumentos eram ressaltados e reconhecidos pelas mentes mais altas da cidade. Yusef não perdia uma boa ocasião para instrui-lo. Suas instruções iam desde a interpretação da Torá e do Talmud, a composição de poesia mística, as orientadas leituras da Cabala, a escolha do melhor vinho e produtos não kosher. 

- Diga-me, senhorita Edmond, ghost writer é oque? Já que bem sabemos que artista não pode ser. -Disse Gustav, um estudante de hagiologia raquítico, com ar doentio e despautério.

- Porque achas isso, Gustav? Tu entendes apenas de santos. Bem que, por tanto os conhecer, poderia pedir a eles um milagre para deixar de ser tão desprovido de inteligência. - Quando terminou de responder, Claudet Edmond virou-se para Charles Garras, que vestia seu casaco e seu boné, cobrindo, assim, sua cabeça cônica, alongada e vermelha. Os imensos olhos negros de Charles tornaram-se duas bolas de vidro cheias de empáfia.

Gustav insultava constantemente Charles, pois Charles havia ganhado os favores de Edmond, por sua falta de presunção, possivelmente, que outrora estavam deliberadamente a favor de Gustav. Gustav vinha se ocupando com uma pesquisa sobre a semântica da Cruz de Santo André, mas sua pesquisa tinha chegado em um beco sem saída. Ainda assim, insistia no empreendimento, pois os recursos investidos eram exorbitantes. O rosto rural, os olhos febris, os dentes brunindo, os braços e pernas ressequidas, o cabelo ralo e seboso de Gustav serviam-no como uma carranca que expurgava os demônios e conservava, por trás de tal aparência, um poder místico e sacrossanto. A medida que mais lia sobre a vida dos santos, os milagres e as adversidades que passavam em nome da fé, mais parecido com eles Gustav ficava.

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Charles Garras caminhava contemplativo. A lua tingia de um cinza-claro a noite. Sobre seus ombros, encurvando-os, fazendo uma grande corcunda saltar das costas e se sobressair pelo casaco, pesava-lhe a frustração. Após acender seu último cigarro, envessando na boca emurchecida, enrolou o cachecol envolta do pescoço mirrado. Suas mãos tremiam ao pensar em Gustav. Seu rosto ficou exangue, parcialmente cobrido pela sombra da aba do boné. Os lábios tremelicavam de frio e raiva. 

Ao entrar num pub turco, sentou nos tamboretes do bar e pediu um Bourbon, entornando-o. Serviu-se de uns acepipes em conserva e pediu outra dose, dupla e sem gelo.

- Obrigado. 

- Como vai o trabalho? - Perguntou Osman.

- Tem rendido bons trocados, ainda consigo beber e comer – enquanto falava, metia a mão num gorduroso vidro contendo alguns pepinos no vinagre e voltava-se para o garçom, do outro lado do balcão. - E por falar nisso, Osman, prepare um daqueles saborosos sanduíches de frango, por favor.

Osman era um muçulmano não praticante, atarracado e de caminhar pendular. Conservava uma longa barba negra e olhos miúdos. Um nariz pequeno e um grosso bigode de pontas viradas para cima.

- Aqui está. Tenha bom apetite. - Com a cabeça, o sanduíche entre os dentes, Charles Garras agradece, com um aceno. 

- Osman, seu amaldiçoado, já pedi para que não deixe-nos sem carvão. - Dizia uma voz cavernosa no fundo da sala, em meio a uma fumaça azulada e densa de narguilé.

Enquanto Osman levava o carvão crepitante, debaixo das zombarias do faquir, Charles mira a faca no balcão. Sua lâmina reluzia mais que a lua e sem dúvida cortava mais que o vento frio da rua. Dobrou-se sobre o bar, passando a metade do corpo para o outro lado, quase trombando com alguns copos, pegou a faca e a guardou no bolso do casaco. 

- Me veja uma carteira de Marlboro vermelho, Osman. - O tumor de Osman começava a dar sinais evidentes de que ganhara força. Atrás de sua orelha direita, já parcialmente dilacerada, a doença tinha espicaçado boa parte de sua carne e do seu espesso cabelo. Pagando a conta, Charles Garras volta para o Le Bristot, subindo calmamente as escadas atapetadas que dava acesso ao mezanino do restaurante. Sentia o cabo amadeirado encaixar-se em suas mãos perfeitamente. Um gosto de sangue subia-lhe garganta acima e se misturava a saliva, que engrossava e descia garganta a baixo outra vez. "Gustav. Gustav." Era somente em Gustav que Charles Garras pensava. Segurou mais forte a faca, de modo hábil sacou do bolso um cigarro e acendeu, pendendo-o nos beiços rijos. "Gustav. Gustav, seu grande filho da puta, vou te mostrar se fantasmas fazem o que farei contigo." Raios faiscavam em seus olhos quando chegou a porta do restaurante. Seu semblante era demoníaco. 

- Onde está o maldito Gustav? - Berrou, segurando ainda mais firmemente a faca.

- Foi para casa, Garras. – Disse Claudet, que ainda contemplava a xilo, meio apalermada, com uma taça de vinho na mão e um cigarro queimando entre os dedos. A faca caiu no bolso.


18 comentários:

  1. Oi. Sou nova aqui no seu blog, quando comecei a leitura fiquei um pouco perdida, tive que buscar a origem do DeCastro no seu blog mesmo, então compreendi.
    Texto rico em detalhes e vocabulário enriquecedor. Parabéns

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    1. Olá, Célia.
      Seja bem vinda e espero que se sinta bem em nosso meio. Que bom que, ao não saber quem sou, foi pesquisar e mais, deixou aqui teu comentário, o que para nós é sempre muito valioso. Obrigado pelas palavras e espero que continue nos acompanhando.

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  2. Oiee
    Tudo bom?
    Nossa em não conhecia, e confesso que ainda não conheço De castro.
    Achei a escrita bem formal, pelo menos é o que pareceu.
    Bjs

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    1. Olá, tudo bem sim, e contigo?
      espero que tenhas gostado e que com o tempo, a partir de outras leituras minhas, tu possa conhecer-me melhor. Sempre que der, visite-nos e deixe comentários, isso é importante.
      Beijos.

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  3. Olá,
    Gosto de me deparar com escritas mais rebuscadas de vez em quando, afinal são enriquecedoras pelo fato de podermos conhecer mais algumas palavras e inseri-las em nosso vocabulário.
    Acompanhei pouco dessa trama, mas adorei por abordar vários temas distintos (hoje um pouco sobre câncer) e colocar o dedo na ferida.

    LEITURA DESCONTROLADA

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    1. Olá, Michele.
      A literatura parece-me que tem desempenhado um papel importante, qual seja, o de provocar e incomodar os leitores, pondo-os, por vezes, num estado de completa instabilidade de espírito. Para além disso, quando ela traz consigo questões pertinentes, vocábulo rico e trama envolvente, ela exerce uma função de arte inigualável, considerando que faz refletir e cria novos espaços de reflexão. Continue nos visitando e deixando teus comentários.

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  4. Oie. Quando eu comecei a ler eu fiquei bem perdida, eu achava que devia ser algum tipo de conto, ou algo assim. Foi quando percebi que estava lendo o capítulo 31. Como é a primeira vez que venho ao blog, eu não estava sabendo disso. Infelizmente no momento não posso avaliar a estória, pois ainda não li todos os capítulos, mas em relação à narrativa, sem dúvidas ele é bem fluída.

    Bjs.

    www.ciadoleitor.com

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    1. Olá, Patrícia.
      o que acabasse de ler é sim um conto. Portanto esse texto está completo, com começo, meio e fim. O #31 é porque é o trigésimo terceiro conto da coluna- como os textos não possuem títulos, exceto por um ou dois, eles são identificados desse modo. Espero que tenha sido claro o suficiente.Também espero que continues passando por aqui e deixando teus comentários, pois eles são importantes para nós.
      Beijos.

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  5. Penso que acima de qualquer coisa aquele que se propõe a escrever tem que prestar pelo entendimento do seu leitor, que a mensagem tem que ser passada da melhor forma possível, caso contrário não faz sentido.
    Mas entendo que o objetivo dessa coluna é diferente da proposta da grande maioria das postagens dos blogs literários, enfim foi bom ler e tentar entender a mensagem. Sucesso nos próximos textos.

    Leituras, vida e paixões!!!

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    1. ... Uma das palavras saiu errada ... Quis dizer ... Se propõe a escrever tem que prezar pelo entendimento ...

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    2. Oi, Aline.
      E porque o leitor, um sujeito que em sua maioria passível, não pode se prezar a entender o que o texto quer dizer? Acho sim que o escritor, como uma das partes dessa tão fabulosa coisa que é a literatura, mas que, como bem nos é sabido, não é a única parte, pois é preciso que, no jogo da escrita, o leitor, o suporte, a técnica, a trama, o enredo e, naturalmente, o próprio escritor, deve ser claro, mas como ser claro se a linguagem é, por vezes, um grande poço de desentendido, como bem aconteceu no teu comentário. Não dominamos a linguagem, mas ela mesma tem sua vida e sua vontade, saindo para ganhar sentido outros em outras mentes.
      Sou grato por deixares aqui tua impressão, que nos é de grande valia e espero que continue lendo-nos.

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  6. Eu adorei, não conhecia De castro mas adorei a escrita dele.

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    1. Oi, Ketellyn.
      que bom que gostou e espero que continue acompanhando os contos
      que aqui são publicados.

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  7. Olá!!

    Fiquei perdida no começo, pensei que fosse uma resenha! Então corri para o fim e vi a assinatura!
    Parabéns ao autor, Decastro. Está muito bem escrito seu conto, me agradou bastante! Publica também pela Amazon?

    Bjus

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    1. Olá, Andréa.
      fico feliz que tenhas gostado. Também sou grato que tenhas reservado um tempo para deixar aqui tua impressão, que sempre é importante. Obrigado pelas palavras elogiosas e não, eu não publico na Amazon, mas caso tenha interesse em ler mais coisas minhas, deixo aqui meu e-mail. Entre em contato e me peça que te mando um pdf do meu último livro.
      beijos

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  8. Também fiquei perdida achando que era uma resenha, rs, até perceber que se trata de um conto. Ainda não conheci a coluna do autor aqui no blog e adorei ver um trabalho de qualidade tão grande publicado por aqui.
    Só consegui me concentrar no risoto de alho poró! Hum! ~aquelas esfomeadas~
    Parabéns ao autor! Publicas quando? Rs! Talento não falta! <3
    Abraços,

    www.umdiamelivro.com.br
    www.youtube.com/literamigas4

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    1. Andresa, também sou desses que aprecia uma boa mesa rsrs. Obrigado pelas palavras elogiosas e por deixar tua impressão aqui, isso serve-nos como motivador. Espero encontrar-te por aqui mais vezes- a coluna é quinzenal.
      beijos

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  9. Bom vou levar em consideração o aspecto dos personagens que achei bem irônico e um tanto sarcástico na maneira de ser. É um conto interessante quando se acompanha. Bjs

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