quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

O que der na telha - com DeCastro #29


Um avião, com destino a Istambul, vara o céu negro matizado de estrelas, sobrepujando, com suas potentes turbinas, Charles Mingus. Uma única luz, amarela-fuliginosa, arde constantemente na sala do apartamento. Um ruído metálico, porém sonoro e vibrante, soa ininterrupto ali dentro. Encarquilhado sobre a cadeira velha, Arnaldo lê uma antiga revista de hagiografia, enquanto fuma um toco de Marlboro. Entediava-se com toda aquela iconografia religiosa de gosto duvidoso, ainda assim insistia em manter os olhos grudados sobre as fedorentas e velhas folhas amarfanhadas. A lua enchia a janela, destacando, no reflexo do vidro, uma sombra pequena, de orelhas pontudas e profanas.

- Volte para o quarto, garoto - esbravejou Arnaldo, com uma voz tonitruante e rouca, retirando, assim, seus olhos opacos e sublimes da revista.

- Mas já estou cansado de ficar lá. Passo o dia todo ali dentro, sem fazer nada além de contemplar as imbecis formigas no aquário, labutando dia e noite, construindo infindáveis impérios - retorquia Salomão, com olhos arriados e com uma voz pastosa. Coçava o olho direito, com os imundos dedos gordurosos, por entre os óculos e suas espessas sobrancelhas que formavam dois arcos munificentes de pelos loiros pontudos e, enquanto os coçava, sentia seus olhos incharem, acompanhando a gradativa vermelhidão que se tornava, e a cegueira momentânea que lhe acometia frequentemente. Aos poucos, sua visão toldou, precisando, assim, da ajuda de Arnaldo para voltar ao breu do seu quarto.
Arnaldo, por sua vez, voltou a costurar. Pôs-se à máquina, dobrando-se sobre si, matinha os empretecidos olhos na agulha. Trabalhava num quimono para uma poetisa de Meclamburgo, que lhe encomendara a quinze dias a peça e esperava ansiosamente por ela. Do quarto, Salomão implorava por comida e água, protestava pela liberdade que lhe fora usurpada a mais de vinte dias e pelas promessas feitas por Arnaldo. Entretanto, a voz do menino foi perdendo viso e Arnaldo começou a deixar de escutá-la. 

- Coma tudo - disse Arnaldo, mergulhando os olhos no rosto rural do menino. - e tome isso. Trouxe-lhe um refrigerante do sabor que gosta - e estendeu o prato de sopa de cebolas e o copo com a bebida. Salomão mantinha os olhos voltado para o chão, não ousando encarar a face satânica daquele que o mantinha cativo. Os olhos rasos do menino ergueram-se um pouco, ao ponto de ver canelas finas metidas em meias axadrezadas, com botas puídas de cano médio, folgado. - Tudo bem. Pode me olhar - continuou ele, lançando sobre uma mesa envernizada, carcomida de cupim, o jantar. Algumas cebolas caíram do prato em cima de uns esboços que, ainda que com traços rudes e inexperientes, eram promissores.

- Esse é John Knox - falou Salomão, com uma voz flexível e nervosa. Pela primeira vez havia olhado diretamente para Arnaldo. Os olhos pretos, o cabelo grisalho puxado para trás, deixando à mostra uma testa larga, caucasiana, com pintas de velhice por toda a extensão estavam ali, esculpidos num corpo velho, decrépito e cansado. Quando se virou, Salomão viu outra face. Onde antes se mostrava um senhor, agora, por mais que o tempo ainda lhe tivesse cobrado seus empréstimos, apresentava um rosto vigoroso, com sulcos ainda debaixo dos olhos, formando bolsas roxo-escurecido, mas mesmo assim atraente. Na biface uma boca pequena, com lábios finos e sutis, sempre com uma espécie de ricto a dar vasão, causou uma sensação nova em Salomão: Salomão percebeu que algo crescia vertiginosamente dentro de si. Atafulhava em sua alma de tal modo que sentiu seu corpo todo vibrar, emitindo sons desconhecidos e efeitos inexplicáveis. Sentia como se sua alma refulgisse. - Aprendi sobre ele quando lia escondido na biblioteca de meu pai - continuou com empáfia, como que orgulhoso pelo conhecimento que possuía.

- Eu sei quem é John Knox- atalhou secamente Arnaldo, deixando cair o corpo escanzelado na otomana onde Salomão estava. O corpo do garoto começou e tremular, feito uma bandeira presa ao mastro em dias de ventos agudos.

- Desculpe-me - e tomado por uma coragem, ainda que desviado o olhar, disse - O senhor não deve fazer isso comigo. Manter-me aqui por tanto tempo e em tais condições é ultrajante. Preciso sair. Preciso de minha família.

Arnaldo, com os olhos voltados para a janela, enxergava pela fresta o sicômoro. Um alento tocou sua lembrança: o tempo em que estudava Platão à sombra dela. Seu espírito arrefeçou. Pôs-se de pé, caminhava de um lado para o outro, de cabeça baixa, com os braços para trás das costas, segurando o vergasto pulso. Pensativo, balbuciou:

- Mas lhe dou comida, deixo desenhar e contemplar o aquário de formigas. E por falar nisso: não irás comer? - E terminando suas palavras, Salomão, segurando-se em uma cadeira e na mesa, pois ainda não tinha recobrado totalmente a visão, acabou rapidamente com o jantar.

- Pão e circo. Essa política é muito antiga. - Disse-lhe ele, com a boca cheia de pequenas cebolas em conserva que flutuavam outrora no prato. Após beber e já em posse de sua visão, ainda que enxergando alguns vultos aqui e acolá, Salomão se estira na otomana. 

O relógio acusa vinte e três horas. Uma pequena garoa começa a cair, fazendo com que um cheiro de ervas inunde o apartamento. Charles Mingus toca amiúde na sala e, num arroubo vindo do mais profundo de seu ser, Salomão, num tom cicioso, deixa escapar por entre os lábios moles e sujos:

- Eu te amo, Arnaldo. 

17 comentários:

  1. Nossa, que escrita maravilhosa!
    Quando se tem o dom, se tem e ponto! E Decastro, você definitivamente tem esse Dom!
    incrível! Parabéns!
    Linda e comovente história.

    Decastro, você definitivamente tem o Dom!

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    1. Olá, seja tu quem fores rsrs.
      Que bom que gostou da leitura e deixou tua impressão, isso é importante. Para mim a palavra dom é carregada de um inatismo ou maravilha divida concedida aos homens. E pode ser isso mesmo. No entanto faço uma leitura disso de outro modo, uma leitura mais pós-moderna e ai eu trocaria o conceito de dom por trabalho. Penso que mais do que ter o dom pra coisa, eu trabalho muito para oferecer um bom texto. Obrigado pelas palavras de carinho, foram significativas para mim. Continue passando por aqui e deixando comentários.
      Beijos

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  2. Que escrita linda, vou confessar que algumas palavras vou ter que procurar no dicionário, pois não conheço e não sei o que significa.
    Achei super detalhado o texto e uma excelente narrativa.
    Parabéns.

    Beijinhos, Helana ♥
    In The Sky, Blog / Facebook In The Sky

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    1. Olá, Helana.
      Não há problema em consultar um dicionário. Penso bem pelo lado inverso: um texto que, para além da proposta provocativa te oferece palavras novas para aumentar o léxico, é um texto que colabora com o crescimento nosso.
      Que bom que tenhas gostado. Espero que continue passando por aqui e que deixe mais comentários.
      Beijocas, DeCastro.

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  3. Olá,
    Sou curiosa e li os comentários acima e tenho que concordar que adorei o texto e que me ajudou a aumentar o vocabulário rsrs
    Desconhecia algumas palavras e recorri ao dicionário. Tonitruante foi uma delas que nunca havia me deparado e achei extremamente interessante porque agora posso perturbar um colega de trabalho com ela, afinal ele é literalmente um trovão falando!!
    Adorei o texto que é instigante e espero poder acompanhar outros!

    http://leitoradescontrolada.blogspot.com.br/

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    1. Olá,
      Fico feliz em saber que para além da fruição estética o conto serviu para a formação de vocabulário. Atormente a todos, inclusive o Voz de Trovão do teu trabalho. uahsu
      Sempre que der passe por aqui e deixe suas impressões, pois são válidas. Continue a nos acompanhar.

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  4. Gosto tanto dos detalhes que coloca nos textos, faz lembrar de um livro que li quando pequena.
    Obs: suas histórias me prendem do início ao fim e deixa um gostinho de QUERO MAIS

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    1. E terás, é só continuar acompanhando a coluna- que sai quinzenalmente. Continue deixando tuas impressões, é importante.
      Beijos

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  5. Olá!
    Adorei o texto.
    Sua narrativa é agradável, com detalhes na medida certa. Confesso que assim como outras pessoas que comentaram, recorri ao dicionário por conta de algumas palavras.
    Vou continuar acompanhando.
    Parabéns!
    Beijos.

    Li
    Literalizando Sonhos

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    1. Oi, Aline.
      Obrigado pelas palavras de carinho. Fico feliz em saber que está havendo trocas de alteridades nos meus contos. Talvez isso seja o cumprimento de algo que seja, possivelmente, a literatura. Esperarei por ti nas próximas colunas.
      Beijos.

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  6. Confesso que não é muito o estilo de leitura que me dê prazer, mas reconheço todo o empenho e esforço do escritor. As relações humanas são sempre ricas, sejam para o bem ou para o mal e inspiram os que desejam escrever e provocar reflexão em seus leitores.

    Leituras, vida e paixões!!!

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    1. Olá, Aline.
      Que bom ver por aqui uma manifestação contrária as demais, no entanto mesmo assim muito importante. Tens razão ao dizer que as relações humanas são ricas, pois elas são de fato um prato cheio para pensar tantas coisas, sobretudo o trato com o outro.
      Continue passando por aqui e deixando suas impressões.

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  7. Olá Filipe, bem sinistro esse texto, fiquei morrendo de aflição e pena de Salomão, Arnaldo uma pessoa que se mostra perturbada e mantem o menino cativo. As palavras usadas no texto intensifica ainda mais a breve história do texto. Bem criativo. Abs.

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    1. Oi, Denielle.
      Aflição é sim um sentimento bem presente no conto. Pensei em causar isso, quando o escrevia. Mas há uma outra camada nesse conto. Pense, por exemplo, que podemos trocar Arnaldo pelo governo e Salomão pela sociedade-as pessoas-, que tal? Como lhe pareceria uma leitura a partir desse prisma? Muito mais assustador e sinistro, não? Obrigado por deixar teu comentário aqui,continue nos visitando e deixando suas impressões. Beijos

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  8. Gostei demais da sua narrativa,um pouco aterrorizante,mas clara e super fácil de entender e acompanhar. Vou procurar seus outros textos para ler. Parabéns viu,tu escreve muito bem !!!!


    bjssss

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    1. Oi, Biazinha
      obrigado pelas palavras de incentivo. Tenho outros tantos textos aqui, talvez haja outros que possam te agradar ainda mais. Continue nos acompanhando- quinta feira agora, dia 02, sairá outro texto, confira.
      Beijos

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  9. Olá, adorei a narrativa...vc tem muito talento e criatividade, continue a escrever sempre!

    Abraços

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