quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

O que der na telha - com DeCastro #28


É PRECISO PROVAR PARA SABER

Uma luz fria e fuliginosa inundava o bar apinhado. A lua, clara e ostentosa, contrastava com a penumbra do bar. Uma fumaça azulada dos cigarros tornava o ar denso, indevassável, poluído. As pessoas falavam todas juntas; uma Babel. Logo começou a pejar de mais gente. Os cinco garçons não davam mais conta de atender a todos. Um homem alto, mas raquítico e calvo, de tez umedecida e sulcada, cansou de esperar pelo barman e saiu, esbravejando. Antoin apenas ia pegar uma cerveja e sair caminhando, entornando-a noite a fora. No entanto, por ter vago o tamborete, Antoin decidiu ficar, fumar um ou dois cigarros, beber um pouco e finalmente partir. Pediu um Jameson duplo e com gelo. Pousava sobre Antoin um brutal peso do nada. Seus olhos escavados no rosto jovem e anguloso, porém com mostras evidentes de cansaço e depressão, estavam ainda mais fundo do que de costume. Os lábios, finos e moles, exprimiam-se entre os dentes amarelados constantemente, como que nervoso, irritadiço. Comprimia-os e relaxava-os. Pequenas bolhas de sangue começavam a se formar nos cantos da boca. O olhar de Antoin estava perdido na vastidão da não-existência, na podridão amorfa que são alguns humanos.

- Vai tornar-se água pura.

- Como? – disse Antoin, despertando de seu estado letárgico e detendo-se, pela primeira vez, em alguém; numa mulher.

Judith era loira e bonita. Aparentava menos idade do que tinha, embora na conversa, e depois Antoin percebeu isto, parecia ter uns dez ou doze anos a mais. Seus olhos, como os de Antoin, eram claros. Os dela eram mais cristalino que os dele. Judith era viva, rija, sempre com uma sugestão de riso acanhado, torcido. Tinha a boca pintada de um urrante vermelho, intenso e aberto.

- Tua bebida. O uísque. Ficará péssimo- e soltou um risinho. Com os dedos buliçosos, Antoin agarra o copo e sorve tudo, de uma só vez. Limpa as gotas presas a barba com a mão trêmula. 

- Judith, prazer- estendeu-lhe a mão. Os dedos ornados com anéis com pequenas pérolas falsificadas enlaçavam, agora, os dele. 

- Vi que gosta de vermelho- atalhou ele, detendo-se sobre as unhas dela- Antoin, a seu dispor.

Em meio a risadas estrondosas e falas tonitruantes, o riso dela se sobressai. Talvez aquilo não seja muito bem um riso, mas sim um esganiço, altíssimo e bizarro. 

- Ninguém se apresenta mais assim.- e ri, ainda mais.- que século pensas que estás? Vieste em uma máquina do futuro? Quer dizer: do passado?

Antoin ri, constrangido. Um verniz rubro lhe tingiu a face, que encrespou e começou a suar gotículas que limpava, displicentemente, com um guardanapo sujo. Um sorriso imenso e radiante pairou nos lábios de Judith. 

- Posso te pagar uma bebida? – disse ela.

- Sim, mas é claro.

Já com as bebidas empunhadas ela o convida para saírem, pois ali estava muito quente e fedorento. Eles saem. Judith caminha a frente, erguida, sóbria, encantadora. Ele segue seus passos; caminha as suas costas, tísico. 

- Ali, na balaustrada, que tal?

- Parece bom- respondeu ele.

Sentaram. Acenderam seus cigarros, deram uma longa tragada e soltaram a fumaça. Podia-se ouvir o blues tocando no bar, nos intervalos irregulares dos carros que passavam, velozes e com suas descargas barulhentas. A lua ainda fulgurava forte. As estrelas haviam sumido um pouco, deixando um céu carregado, com nuvens espessas e grandes. Entabularam uma conversa que versava desde literatura, sistemas econômicos, filmografia, música, filosofia, esoterismo, cabala, bebidas, selos, sexo, poesia, modos bizarros de matar e de morrer. Uma sintonia percuciente estava estabelecida. Ambos foram tomados por um arroubo, seja pela conversa em tom inebriante, seja pela própria bebida, sentiram-se ligados, suas almas se misturavam, tornando-se uma única coisa, nodosa e bela.

- Para a minha casa? – disse Judith.

- Pode ser. Vou pegar mais duas cervejas e um maço de cigarro.

Enquanto entrava no carro dela, Antoin pensou no quanto ele, um sujeito de vida estreita e estragada, tivera sorte em encontrar alguém como Judith. Recolheu-se em silêncio, contemplativo. Aumentou o som do carro, tocava Rimsky-Korsakov. Seus dedos, gelados de segurar as cervejas, vibravam a cada ária forte da música. Ela acompanhava tamborilando o volante. Os cigarros queimavam nos beiços. 

- Dê-me outro cigarro, Antoin.

- Mas tu acabaste de fumar um.

- Cala a boca e acende aqui para mim, logo. – falou em tom de troça.

- Tudo bem, tudo bem- disse ele, acendendo o cigarro.

Chegando ao prédio, entraram. O prédio era simples, mas conservado. Ficava no subúrbio e era razoavelmente arborizado, com um parque na frente, as voltas de uma escola. Subiram dois dos quatros andares, pelas escadas. O apartamento era amplo e confortável, do tipo lofit. Continha poucas coisas ali, apenas móveis de cozinha, uma cama grande e confortável, um criado mudo amarelo, um sátiro para livros, dos quais figuravam Dostoievski, Gógol, Anna Akhmátova, Perec, Ginsberg, Platão, Bakunin, Marx, dentre outros, e alguns quadros pendurados na parede, umas litografias emolduradas no chão, uma tapeçaria fofa e escura, um sofá e um Fritz Dobbert. 

- Ainda não creio que tu a conheces. Ainda por cima a lês. Anna Akhmatova é incrível, fantástica. Escreve de um modo que nos arrebata. Sua poesia vibra em nós. Sua verve é única. Por onde tu andavas esse tempo todo? – e ruborizou-se, ao falar isso.

- Por aí. Nos bares, na noite, em bibliotecas. Por aí...- respondeu-lhe ela enquanto servia as batatas fritas com cheddar e bife e Coca-Cola. Comeram.

Com as louças atulhadas na pia, se puseram a conversar, na cama. De repente, as mãos se encontram, cumplices e quentes. Os dedos se entrelaçam. Uma imagem pula na memória de Antoin: quando viu as unhas esmaltadas de Judith. Os lábios se tocam. As línguas se encontram num frenesi. Os beiços são chupados, sugados, mordidos, beijados. Um perfume de gardênia exala de Judith. Suas mãos percorrem pelo corpo de Antoin, parando no rosto liso. Já as mãos dele seguram a cabeça dela, com os dedos enfiados entre os cabelos macios. Beijam-se fervorosamente. Ela o deita, monta em cima, tira a camiseta dele, beija-lhe o pescoço, descendo para o peito, detendo-se brevemente em sua barriga. Crava-lhe suavemente os dentes perto do umbigo, arrancando um suspiro sonoro de prazer. Judith sorri. Tira-lhe o cinto e abre o zíper. Uma nesga da cueca preta fica a mostra, excitando-a ainda mais. Ele se ergue, com ela em seu colo, tira, por sua vez, a camiseta dela, o sutiã, e lambe o peito direito, em movimentos curvilíneo e circulares, até chegar no mamilo. Suga-o e lhe dá umas pequenas mordidas na ponta, enquanto aperta o outro. Judith vai a loucura. Ela começa a mexer os quadris, vagarosamente, aumentando o ritmo de acordo com o prazer. A calça de Antoin se avoluma. Judith escorrega para baixo e com destreza tira-lhe o jeans puído. Agora Judith está com os dentes cravados na cueca dele, tirando-a vadiamente, mostrando, aos poucos, um pau rosado, firme, grande e pulsante. Ela sorri. 

- Espera um pouco que já volto. – disse ela.

- Que? Como assim? Onde vai?

- Calma, já volto. – e foi até a geladeira, pegou uma lata de leite condessado, foi até o guarda roupa e pegou quatro algemas.

- Que tal?- perguntou Judith. Antoin sorriu, cretinamente. 

Quando ela chegou perto dele, ele a jogou na cama, tirou sua calça, virou-a de quatro, empinou a bunda branca e dura dela, tirou-lhe a calcinha preta e súbito e de uma vez, lançou-se, de boca, entre as pernas de Judith. Ela arfou, gemeu alto e se contorceu de prazer. Enquanto sua língua percorria a boceta dela, apertava, com mãos firmes, suas nádegas. E ela mexia, rebolava. Ele arrancava gritinhos agudos quando penetrava fundo com a língua. Isso o excitava ainda mais. Seu membro pulsava. Ela sai e pede para que Antoin se deite. Ela prende primeiro sua mão direita na cabeceira da cama. Beija-lhe a boca. Depois a mão esquerda. Mais um beijo. Antoin vê a boceta de Judith ali, aberta e molhada, exigindo por ele. Ela desce por seu peito, beijando. Prende o pé esquerdo e depois o direito. Passa o leite condensado por toda a extensão do pau dele e lambe, retirando, aos poucos, as camadas. A lua reflete por entre a janela. Antoin se contorce. Não podendo mais de tanto prazer, ela sai de cima dele, abre a porta e um homem entra.

- O que isso significa? – grita Antoin fazendo força para se soltar- Solte-me, Judith.

- Não posso, me desculpe.

- Toque, baby- disse o outro, para ela. Judith senta-se ao piano e começa a tocar, alto e com vontade, Stravinsky. Antoin se torce, grita, esbraveja e implora para que o solte. 

A terceira pessoa era um homem forte, alto, com ombros largos e morenos. Tinha uma barbicha escura e olhos verdes. Tinha um rosto sombrio e inadaptado. Seu nariz era aquilino e grande. Suas mãos, enormes e calejadas; inolvidáveis. Vestia uma camisa branca, sem estampa e calça jeans escura. Pegou da cozinha uma faca grande e com cabo de madeira envernizado. A luz da lâmpada refletia no aço gélido da faca.

- O que farão comigo? – gritou a todos pulmões Antoin. Mas ninguém, a não ser o homem com a faca, pode ouvir. O som do piano estava muito alto. Era uma bela canção, não fosse a cenografia que se compunha ali. 

A ponta da lâmina riscava o corpo de Antoin, causando um vermelhidão de sangue. Antoin xingava, se debatia, mas quanto mais xingava e se debatia, mais fundo a ponta da faca rasgava a carne, mais sangue emergia da pele branca e cindida. Antoin estava abandonado a si. Entregue as vontades de dois doentes, perversos, de duas pessoas lúgubres, a encarnação do mal. Seu rosto foi desvigorando aos poucos até perder a consciência e, quando a perdia, a faca era fincada mais profundamente em sua carne, despertando-o, fazendo-o gritar e quanto mais gritava, mais fundo a lâmina entrava, mais alto o piano soava. O sangue corria aos borbotões, manchando o lençol e a camiseta branca do torturador. A faca então toca, com o fio, sobre o pau de Antoin que, diferente de antes, um membro rijo, viril, forte e pulsante, tornara-se uma espécie de flor de carne branca-avermelhado, coberto de sangue e, pacientemente, vai transpassando-o, aos poucos, com precisão cirúrgica. Antoin solta gritos horripilantes, mas não pode ser ouvido, pois Stravinsky entoa por todos os cantos do apartamento, do prédio, no pequeno bosque. E num último esforço firme, o pênis de Antoin é arrancado de sua virilha. Antoin berra e antes mesmo de terminar de xingar a fria lâmina lhe corta a palavra na garganta.

Judith e Salvador vão a cozinha. Enquanto ela acende o fogo e prepara o óleo, Salvador corta em pedacinhos o pênis de Antoin e o joga, em pequenas rodelas misturadas com pimentão vermelho, verde e amarelo, além de tomate e cebola, na frigideira. A campainha toca. Ambos se olham. Olham para o corpo sanguinolento estendido na cama. Os olhos de Antoin estão imóveis. Salvador manda ela ir abrir a porta. Judith abre, mas só um pouco, de modo que o cadáver fique escondido. Era o vizinho do apartamento 7, em roupas de dormir.

- Por acaso não sabes que horas são? Isso não são horas de tocar. Tem gente que trabalha aqui e por isso precisa acordar cedo, pela manhã. Tenha bom senso e pare de fazer barulho- disse o vizinho, virando-se e indo de volta para seu apartamento.

- Perdão. É que estamos cozinhando. Recebi um amigo de viagem e queria tocar para ele enquanto fazíamos comida. O senhor não quer jantar conosco? É uma carne excelente, de ótima qualidade e procedência.

O vizinho se vai. N frigideira tudo pula e doura. Um cheiro adocicado levanta e enche todo o apartamento. A lua, assim como as estrelas, não está mais visível. Uma fraca chuva começa a cair. Judith pega um livro e se põem a ler, para Salvador

- ‘’Torcia as mãos sob o xale escuro…/’Por que hoje estás tão pálida?’/– Fui dar-lhe de beber minha amargura/Até deixá-lo embriagado./Como esquecer? Ele saiu, cambaleando,/E nos lábios uma horrenda contorção…/Desci correndo, sem pegar no corrimão,/E no portão segurei ele pela manga./Sufocada, eu gritei: ‘O que se deu/Foi brincadeira. Se tu fores, não aguento.’/Ele então com toda calma respondeu/E com frieza: ‘Não te exponhas tanto ao vento’.’’ Anna Akhmátova.


12 comentários:

  1. Espantada! Comecei a ler achando interessante, no meio fiquei contrariada achando que era pornografia e terminei espantada descobrindo que era um conto de morte e horror. Enfim, que escrita interessante e surpreendente! É algo como gostei e não gostei, gostei da escrita, da surpresa, da forma como o texto me prendeu, mas não gosto de histórias de morte. Há mais "gosto" do que "não gosto" e fim. Escreves muito bem! Abraço.

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    1. Olá, Maria.
      Que bom que deixaste por aqui tuas impressões. Para nós, eu e o blog, isto é muitíssimo importante. De acordo com o que escreveste pude perceber que alcancei meu propósito:provocar, angustiar o leitor. Há ainda uma outra dimensão no texto: qual a face do mal?
      Abraço.

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  2. "Drogas, sexo, amputação genital e carne frita"

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  3. Meus sais. Que foi isso? Misto de emoções aqui. Amei e odiei. Arrepiei de excitação e de pavor.
    Parabéns

    Vidas em Preto e Branco

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    1. Oi, Lary. Fico feliz e sinto que alcancei o pretendido quando leio comentários tipo o teu. Espero que continue nos acompanhando, a minha coluna- quinzenal- e ao blog, sempre, que possível, deixando tuas impressões.
      Até breve.

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  4. Um conto excepcional! Literariamente engajado e envolvente! Uma trama que exige uma grande participação do leitor imaginativa e emocionalmente. Uma história que causa um emaranhado de emoções positivas, negativas, cômicas, irônicas e algumas das quais o meu vocabulário não consegue definir precisamente. Sem mencionar o elemento angustiante que a escrita e trama proporcionam. Um desfecho simplesmente paradoxal. Repercute ao que lê, certamente uma grande incógnita da qual não se sabe exatamente explicar com meras palavras. No entanto, realmente fiquei intrigado com a citação final e o motivo destas específicas referências na construção do conto? Além de agora pairar em minha mente: "o qual é a verdadeira face do mal?". Como citaste acima em um comentário. Embora eu tenha a minha particular visão sobre esse tema gostaria muito de ouvir a sua DeCastro. Faça-nos esse favor?
    Eu fico impressionado em como você consegue evoluir ainda mais a sua escrita! Parabéns!

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    1. Suas palavras, camarada, vem de encontro a mim e se alojam. Ler o que te tocou, e como te tocou, assim como os demais que aqui deixaram suas impressões, é-me muito acalentador. Afinal, o escritor, aquele possuído mesmo, espera que o leem; que o compreendem. E ler é, naturalmente, muito mais fácil que compreender. Não acho que eu seja um escritor fácil ou mediocre, embora isso pareça presunção minha, mas o cerne da coisa foi compreendido, capitado pelos excelentes leitores desse blog.
      Pois bem, respondendo-te, ainda que minimamente, digo-lhe que vejo a face do mal aí, em todo o lugar, em cada face crua, ou sulcada, encurvada, em rostos flácidos e esticados; vejo o demônio em cada ser, em cada um de nós, já que ele é sem rosto, ou melhor, é todos os rosto. O mal e sua face, não tem tipo. É a mais pura banalidade.
      Obrigado por compartilhar conosco e passe sempre por aqui, no blog e, por consequência, na singela coluna que por ora se apresenta. Abraços

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  5. Tu sabes como admiro tua escrita, te falo isso todos os dias. A cada dia que passa vejo tua evolução, e porra como é foda ver isso de perto!,
    Enfim, já te falei pessoalmente o que achei desse conto, as mescla de emoções que senti (e que sinto toda vez que te leio). Obrigada por nos proporcionar isso, DeCastro!
    Te amo ❤

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    1. Muito do que escrevo verte de ti. Se gostas e tudo o que sentes é, tão apenas, sentir a ti mesmo e estar de frente a um espelho, se gostando- mas ainda continuo com o meu pau no lugar. Fique sempre por perto, ainda que de vários modos possíveis. Amo-te, Baby.

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  6. Ótimo conto... Tão detalhado que ao ler consegue ver na mente as cenas ocorrendo de acordo com o que lê... Realmente muito bom... Sem palavras para descrever o que se sente ao ler o conto...������

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    1. Thais, para quem disse que não tinha palavras para descrever o que se sente ao ler o conto, tu descreveste-o muito bem. Obrigado por reservar um tempinho para ler e para comentar. Isso é muito importante para mim e para o blog. Sempre que der, passe por aqui.
      Beijos

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