sexta-feira, 16 de dezembro de 2016

Mais que quinze anos


Em uma das minhas viagens aos romances de época, parei de repente e fui dominada por uma sensação de nostalgia. Há cinco anos eu estava com um vestido bufante, – não tanto quanto eu desejava – dançando valsa com o meu pai enquanto comemorava a minha décima quinta primavera. Essa memória me ocorreu no momento em que a protagonista da obra que eu lia fazia algumas reclamações sobre o seu vestido ser armado demais.

Não é toda mulher que sonha com um vestido rodado, inspirado em princesa, afinal, cada mulher sonha com aquilo que quer. Mas quando eu tinha quinze anos isso era importante para mim, lembro bem como eu me sentia. E mesmo que hoje, cinco anos depois, eu não me importe com nada disso e prefira uma calça jeans a um vestido bufante, tenho consciência de que naquela época, o vestido era importante. Ele me fazia crer que eu passava de uma etapa para outra. Eu estava me tornando outra pessoa. Eu sou outra pessoa. Agora, eu sou uma mulher.

E pensando sobre isso, relembrando esse momento da minha vida em que o que eu mais queria era ser uma princesa de verdade, acabei por me questionar: se eu soubesse o quanto a vida de uma mulher pode ser complexa, será que eu optaria por passar por aquela etapa com a mesma felicidade? Talvez eu não tivesse consciência, ainda, daquilo que estamos sujeitas a passar perante a sociedade machista em que vivemos.

Só por ser mulher, somos recriminadas. E se eu não me casar? “Encalhada”. E se eu não quiser ter filhos? “Sua vida não faz sentido sem filhos!” Não suporto aqueles gritos que saem dos automóveis quando ando na rua. “Também! Olha a roupa que você estava usando!”. Eu não consigo andar na rua sozinha, em qualquer horário, sem me sentir ameaçada. Eu não consigo me sentir segura se estou sozinha em qualquer lugar e uma figura masculina aparece. O meu coração acelera, e a única coisa em que eu consigo pensar, sendo mulher, é que não suportaria passar por aquilo. E eu não mereço ter que ouvir todos esses apontamentos absurdos, nem sentir tanto medo da liberdade que eu tenho. Nem você. Ninguém merece.

Fechei os olhos e respirei fundo. Do século dezenove, passei pelos meus quinze anos e cheguei numa canção que a minha maravilhosa amiga Érica Duarte me apresentou. Essa canção retrata o nosso drama cotidiano. Ouça e se for capaz, não se abale.


Por Thamiris Dondóssola.

8 comentários:

  1. Olá Thami
    Ser mulher não é fácil. Cobranças a todo momento. Não importa o que escolhamos fazer, sempre haverá alguém para nos criticar.
    Beijinhos

    Vidas em Preto e Branco

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Lary!
      Obrigada por compartilhar sua opinião conosco. Agradeço também a visita.
      Beijos

      Excluir
  2. Oi Thamiris! Música muito forte e realista, qual mulher não sabe o peso de ser mulher? Infelizmente estamos muito longe da total evolução, aqueles que não entendem o que está acontecendo se tornaram cada vez mais ignorantes. Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Maria.
      Exatamente!
      Obrigada por compartilhar a sua opinião conosco.
      Beijos

      Excluir
  3. Olá Thami,
    Como sempre, mais um texto incrível. Você definiu muito bem o que é ser mulher e isso é muito triste. Acho que se eu soubesse como seria esse mundo, quereria nem estar nele, mas estou e luto, dia após dia, para mudá-lo e tornar um lugar melhor para nós.
    Adorei a combinação da música e do texto e fiquei mega arrepiada.
    Beijos ♥

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Bru! <3<3
      Muito obrigada pela visita e pelo comentário. Já que estamos aqui, temos que lutar mesmo. Continue assim. ♥
      Que bom que gostou da combinação. Essa música é de arrepiar mesmo.
      Beijos

      Excluir

Seu comentário é muito importante. Obrigada!

Obs.: Caso você não tenha uma conta no Google e não saiba como comentar, escreva o que deseja na caixa de texto acima e na opção "comentar como" selecione "Nome/URL", preenchendo somente o campo nome.

E-mail para contato: thamirisdondossola@hotmail.com