quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Índio: Sinônimo de educação, pureza e submissão?

Ao refletirmos sobre a figura do índio e o processo de colonização ocorrido no Brasil, quase sempre pensamos em pessoas nuas, dóceis, selvagens, aqueles que foram perdedores de uma grande luta, por sua inocência, pureza e ignorância. Acredito que toda essa visão é algo estereotipado, que nos é apresentado desde pequenos quando começamos a frequentar a escola, de modo que parte disso se deve a literatura clássica brasileira e a maneira como ela representou os indígenas. 

De Pero Vaz de Caminha no quinhentismo, – período em que predominavam as cartas e crônicas sobre o Brasil – com suas observações peculiares e espantadas sobre os índios, a José de Alencar, no período romântico, com suas histórias indianistas cheias de heroísmo e idealização da figura do colonizado. Em toda a trajetória da literatura, o índio sempre foi descrito e caracterizado pelo outro, nunca houve espaço para que ele pudesse contar sua própria versão dos fatos. Nunca houve espaço para que sua “voz” fosse ouvida.

Histórias alencarianas como a de Iracema (a índia que viveu um amor proibido com um português, e que morre pela falta dele e por ter abandonado sua tribo), e do índio Peri na obra “O Guarani”, que após salvar e se apaixonar por uma nobre moça, passa a viver dedicando-se inteiramente a ela, foram escritas com o intuito de fortalecer a identidade nacional e exaltar as origens do país. Dizer que José de Alencar e tantos outros escritores da época conseguiram tal feito é, de certa forma, errôneo, já que ao representá-los como pessoas submissas, educadas e sempre civilizadas, que estavam “à espera” do colonizador, os indígenas assumem uma espécie de posição subalterna. Por exemplo, Iracema deixa sua cultura para trás para ser “colonizada”, e seguir o português Martím. Peri, que com todas as suas características de “bom índio” (puro, devoto a sua sinhazinha, e sem nenhum egoísmo), aprende português e torna-se cristão adorando a Nossa Senhora. Diante desses fatos, ouso dizer que, nessa época, o processo de colonização era abordado com extrema romantização, e que o índio, por ser retratado como herói, se igualava a figura de um europeizado.

Fortalecendo essa inferioridade dos índios que nos é exposta por meio da literatura, têm-se ainda a carta de Caminha dirigida ao rei D. Manuel, a qual descreveu detalhadamente os habitantes encontrados na nova terra “descoberta”, e apresentou pessoas fortemente dominadas, que com toda sua ingenuidade, trocavam facilmente seus arcos e flechas por qualquer mercadoria portuguesa. No entanto, todas essas representações contribuíram para que o índio fosse visto com certa estranheza pela sociedade, e sendo vítima de um sistema que deixa à margem todas as minorias, muitas vezes é descriminado e sofre preconceitos, todavia o que mais me aflige diante disso é não conhecer o que, de fato, o índio foi e representou na história e surgimento de nosso país. Depois de serem vencidos, de terem uma cultura imposta a eles, e de serem tratados de forma desumana, hoje lutam para não caírem no esquecimento.


14 comentários:

  1. Muito boa reflexão! Acho que o que mais se aproxima de uma visão mais perto da correta do índio é a obra Macunaíma, de Mário de Andrade. Que mostra a falta de caráter do protagonista que não se deixa enganar pelo homem branco, mas isso só´acontece lááá no pré-modernismo, sabe? Muito tempo depois e até hoje pouco dessa visão foi alterada, de que os índios são ignorantes, irracionais e movidos pelos seus "instintos'.

    Beijos, Hel.

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  2. Olá
    Adorei poder conferir sua postagem, especialmente por conta de uma temática tão marcante e aberta a discussões também. Realmente há a questão do estereótipo, então precisa-se saber que há muito mais por trás disso, por isso surgem as reflexões, como esperado.
    Beijos, Fer
    www.segredosemlivros.com

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  3. Oi, Isa!
    Eu nunca parei para pensar no papel do índio, mas realmente concordo com tudo que você disse. Na história, sempre mostram eles com uma facilidade de se render ao branco e todos sabemos que possivelmente não foi assim que aconteceu.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe do Natal Literário
    Participe da promoção de três anos de Um Oceano de Histórias
    Participe do Sorteio de Final de Ano

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  4. oie, verdade, os índios raramente tiveram espaço, sempre tentam falar por eles, dizerem o que eles devem ser e o que foram, sendo que o índio tem muito mais a nos mostrar e ensinar. Adorei o post.

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  5. Hi baby, tudo bem? amei o texto, ele é excelente para refletirmos a visão deturpada que temos dos índios, eles são muito mais do que a sociedade tenta reafirmar! ótimo texto, parabéns!



    Lilian Valentim
    http://speakcinema.blogspot.com.br/
    beijinhos

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  6. Olá!

    Nossa que texto excelente! Eu confesso que tinha muito preconceito com índios, mas após eu visitar uma aldeia aqui no meu Estado, percebi que era pura idiotice a minha, eles são gente como a gente! E possuem muitos conhecimentos que devemos valorizar!

    Abraços!

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  7. Texto muito bom! Você escreve super bem e trouxe um tema muito interessante, que deveria ser muito mais abordado tanto na literatura como nas escolas etc. Anotei aqui as obras que citou para procurar depois.
    Beijos

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  8. Olá Isadora,
    Até ler seu artigo, nunca tinha parado para pensar como pensava que os índios eram e você está mais do que certo. Nos foi imposta a ideia de que índios eram pessoas submissas, que aceitaram todas as mudanças, mas, pensando bem, acho que eles vão muito além do que imaginamos.
    Estava conversando com a irmã de um rapaz de mora no Mato Grosso e ela me contou que, lá, os homens - ou mulheres - são pagos para casar com índios, o governo dá uma 'ajuda' para eles. Essa 'ajuda' me passa a ideia de que juga-se que os índios não podem se casar por amor nem serem felizes. Você conhecia isso?
    Parabéns pelo artigo, está incrível.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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  9. Olá, tudo bem por aí?

    Que texto maravilhoso! Os índios foram muito injustiçados desde a presença europeia aqui no Brasil. A cultura deles é linda, seus costumes, práticas... tudo! É algo que deve SIM ser muito valorizado, pois é a cara do Brasil. Parabéns pelo post!

    Abraços!
    www.acampamentodaleitura.com

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  10. Expepcional seu texto. Acho que se nós fizermos coisas assim que temos propriedade sempre trás um texto bom. Realmente nos vemos essa inferioridade que a literatura trás sobre os índios coisa que eu não tinha parado para pensar ate agora. É tão verdadeiro seu texto que hoje em dia isso também é refletido em nossas ações. Beijos

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  11. Oiee Isadora ^^
    Eu ando querendo conhecer mais sobre as culturas indígenas desde que descobri que sou descendente de índios (pelos dois lados da família ♥). Fico perplexa toda vez que vejo alguma notícia a respeito da luta das tribos brasileiras ou até mesmo estrangeiras para conseguirem manter suas culturas, suas terras, seus costumes. É triste ver que muitos ainda acham que os índios são inferiores :/
    MilkMilks ♥
    Milkshake de Palavras

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  12. Oi Isadora!
    Eu adorei o seu texto <3 É muito triste ver as tribos lutando para não serem esquecidas e pelos seus direitos. E o pior é que eles são tão importantes para o descobrimento e a construção do Brasil e eles são os menos lembrados.
    Parabéns pelo texto!
    Bjss

    http://umolhardeestrangeiro.blogspot.com.br/2016/12/critica-animais-fantasticos-e-onde.html

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  13. Oie!!!
    Muito interessante seu texto! Gostei como você desconstruiu baseado em fatos e na literatura a imagem romântica dos nossos indígenas e revelou como de fato se deu a colonização em nosso país. Considero certa a luta deles para não perder a identidade cultural e acredito que o que é feito ainda é pouco!
    Parabéns pelo texto!
    Bjinhos ;)
    Elaine M. Escovedo
    Caminhando Entre Livros
    Http://www.caminhandoentrelivros.com.br

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  14. Oi, tudo bem?
    Gostei bastante do seu texto, ele está muito bem construído e concordo com tudo, embora nunca tenha parado para pensar muito nas coisas que você falou. Realmente o índio sempre fica sendo mostrado como inferior e nunca teve voz para falar sobre sua própria história.

    Beijos :*

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