sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Resenha: A Metamorfose - Franz Kafka


A Metamorfose - Franz Kafka: Em 10 de setembro de 1912, às dez horas da noite, Franz Kafka (1883-1924) começou a escrever "O veredicto". Quando terminou, por volta das seis horas da manhã do dia seguinte, totalmente esgotado, apontou em seu diário que havia descoberto “como tudo poderia ser dito”; que inclusive para as ideias mais estranhas havia um grande fogo pronto, no qual elas se consumiam para depois ressuscitarem. Dois meses depois viria "A metamorfose", a mais conhecida, a mais citada, a mais estudada de suas obras. Em 7 de dezembro Kafka escrevia à sua noiva, Felice Bauer: “Minha pequena história está terminada”. A obra era concluída 20 dias depois de ter sido iniciada.



Depois de muito tempo ouvindo as pessoas falarem da literatura de Franz Kafka, finalmente a conheci. O que me fez tomar a iniciativa de ler foi a menção ao escritor feita por Jonathan Safran Foer em sua obra, Comer Animais. Comprei A Metamorfose e li. 

A Metamorfose nos apresenta um jovem rapaz chamado Gregor Samsa. Gregor, certa manhã, acordou atrasado metamorfoseando num inseto desconhecido e estranho. A porta de seu quarto estava trancada e notando o atraso de Gregor, sua mãe, seu pai e a irmã começaram a ficar preocupados, afinal, Gregor era um homem responsável e sustentava a família. Pouco tempo depois, o gerente do trabalho de Gregor surgiu na casa de seu empregado para saber o motivo da ausência dele e se uniu a família na espera do lado de fora do quarto. O caos instalou-se na casa. 

Enquanto isso, no lado de dentro do quarto, Gregor, com muita dificuldade, tentava se levantar da própria cama. Ele respondia aos chamados da família, dizendo que logo abriria a porta, mas ainda não sabia que os sons da sua fala se transformaram em sons incompreensíveis. Quando Gregor enfim conseguiu destrancar a porta, o caos deixou de ser caos, pois o que se viu foi uma mistura de choque silencioso com um desespero corporal extremamente visível. Todos ficaram atônitos. O gerente foi embora, a porta do quarto de Gregor se fechou novamente e ele se viu na triste escuridão que é a solidão

"[...] todos eles apareceram misturados a estranhos ou pessoas já esquecidas, mas ao invés de ajudarem a ele e à sua família, mostraram-se todos inacessíveis, e ele ficou feliz quando sumiram de vez." (KAFKA, 2016, p. 78)

Franz Kafka, em poucas páginas (a minha edição de bolso tem 103), criou, numa composição de elementos aparentemente simplórios, uma história devastadora. O que se tem, de modo geral, em A Metamorfose, é uma demonstração de como as pessoas são interesseiras, fracas e egoístas. Tudo isso convertido numa metáfora, repito, aparentemente simplória. 

A escrita de Kafka é direta, por vezes irônica e muito inteligente. Esse primeiro contato me fez querer ler outras obras, o que eu já estou fazendo. Acho interessante mencionar que o autor costumava colocar muito de si em suas obras. 

Aflição, ansiedade e angústia são sentimentos presentes em A Metamorfose. A partir do momento em que Gregor se transforma num inseto, a agonia dá as caras e permanece firme até o final da história. Depois da metamorfose, Gregor continua vivendo em seu quarto durante um bom tempo. Você consegue se imaginar na situação dele? Completamente incapaz? Ele tentava se comunicar, mas ninguém o compreendia. As pessoas ao seu redor tinham medo ou nojo de se aproximar dele, e ninguém levou em consideração o fato de que ele estava ouvindo tudo o que eles falavam. Todos os elementos da família acreditavam que ele não tinha capacidade de entender suas palavras, mas ele compreendia cada detalhe. Sendo assim, nosso personagem se encontrava numa situação completa de incompetência. 

Como já foi mencionado, Gregor era o pilar da família. Era ele quem trabalhava para sustentar cada membro. Era ele quem lutava para quitar uma dívida dos pais. Enquanto estava nessa posição, Gregor era amado e respeitado. Depois da metamorfose, as coisas mudaram completamente. No inicio, apenas a irmã tentava criar um vínculo com aquela criatura na qual Gregor se transformou, mas ela cansou, pois a família precisou voltar a trabalhar para se sustentar. Logo, Gregor se tornou um empecilho para todos. A partir disso, há vários apontamentos e questionamentos possíveis a se fazer. 

Até que ponto vai a fidelidade humana? As pessoas estão dispostas a aceitar grandes mudanças? Elas são capazes de fazer uso da gratidão? Gregor era o pilar, mas quando precisou de apoio, foi quase completamente ignorado, como um tijolo quebrado. Os seres humanos podem ser egoístas e injustos. É aceitável querer eliminar alguém importante das nossas vidas, só porque esse alguém está passando por problemas que estão nos comprometendo também? 


A Metamorfose faz uma comparação entre a "fantasia" de Gregor e a situação humana real. Ninguém vai metamorfosear num inseto amanhã de manhã, mas nós podemos adoecer ou nos meter numa situação muito ruim. Além de como nós vamos nos sentir diante disso, como as pessoas ao nosso redor vão reagir? Serão elas capazes de acionar o botão da gratidão? Enfim, eu poderia ficar horas e horas falando sobre o quanto esse livro é intenso e destruidor, mas isso alongaria demais essa resenha (que já está bastante longa). 

Eu procurei transcrever um pouco daquilo que eu consegui filtrar com a leitura de A Metamorfose, mas a interpretação vai muito além disso. As minhas expectativas quanto à escrita do autor foram supridas. Indico a leitura para todos, mas principalmente para aqueles que querem e gostam de refletir sobre alguns aspectos que envolvem as condições humanas. 


Referência: KAFKA, Franz. A Metamorfose. Porto Alegre: L&PM, 2016.

12 comentários:

  1. Olá Thami!
    Como sempre, sua resenha está incrível.
    Morro de curiosidade para ler os livros do Kafka, mas morro de medo de não gostar :(
    Adorei saber que numa composição de elementos, aparentemente simplórios, o autor criou uma história devastadora. A Metamorfose despertou muito minha curiosidade, já anotei a dica.
    Beijos ♥

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    1. Oi, Bru!
      Ah! Muito obrigada pelo carinho. Acredito que você irá gostar sim, espero que leia.
      Beijocas

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  2. Oi, Thami!
    Menina, eu tentei ler esse livro quando tinha uns 11 anos de idade, mas abandonei logo. Eu achei um tanto quanto sem nexo. Agora mais velha e "mais experiente" nas leituras, quem sabe eu não gosto?
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe da promoção seis anos de Caverna Literária

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    1. Oi, Lu!
      Acho que com 11 anos eu também abandonaria. Acredito que agora há uma grande chance de você gostar. ♥
      Beijos

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  3. Fantasia + realidade = <3
    Amei a resenha do livro!
    http://grandemetamorphose.blogspot.com.br/

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  4. Esse livro é maravilhosa.
    Já o li 3x e uma em cada fase da minha vida.<3

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  5. Oi Thami!

    Lendo o seu post me deu uma vontade de arriscar. Sempre fugi de Kafka. Quando as pessoas me falavam dele, já torcia o nariz (puro preconceito literário). Uma vez quebrei um preconceito literário com o Fahrenheit 451 e foi maravilhoso. Entrou para lista dos melhores livros que já li! As vezes a gente só precisa dar uma chance, né?
    Gostei de saber que o Metamorfose tem só 103 páginas, pode ser um bom começo.

    beijos
    Psicose da Nina | Instagram

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    1. Oi, Nina!
      Entendo. Mas espero que se aventure.
      Um beijo

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  6. Resenha sucinta e objetiva, incrível!
    Eu gostei desse livro pela "crueza" da narrativa, acho que esse tema, a objetificação do ser humano, já que somos só uma pecinha nesse sistema que só visa lucro, é tão atual quanto na época em que o livro foi lançado.

    Eu gostei demais do estilo do Kafka, já comprei "O processo" e está esperando na estante.

    Bjs, Hel.

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    1. Muito obrigada, Hel! ❤
      Eu terminei de ler ontem "O veredicto", ótimo também.
      Beijos

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