quinta-feira, 7 de julho de 2016

O que der na telha - com DeCastro #26


- Aqui está - dizia o ranzinza e inamistoso fotógrafo, entregando o instantâneo e pegando o dinheiro.

- Também quero uma, senhor - disse Jordana com os lábios moles alinhavando a barra do vestido branco com estampas florais, miúdas e alegres. - É para recordação, querido - dirigindo-se ao rapaz, com sorriso esculpido na cabrocha face, falou.

O fotógrafo ajeita o casal, pede para que cheguem mais perto um do outro e que se abracem - coisa que fazem fácil e prazerosamente. Jordana comprime os lábios grossos na face de Ítalo que, aceitando a brincadeira, franze os sobrolhos e a aperta junto de si. O homem arruma a boina cinza puída, colocando-a pendendo para o lado direito, de modo que sua orelha dilacerada seja coberta quase que totalmente. Um fragor sai da máquina e premente, sem nem dar tempo para que voltem a pose inicial, a fotografia já está nas mãos de Jordana. Ítalo paga por essa segunda também e, agradecendo, caminham vadiamente até que encontram um banco junto de um lago do qual na outra margem, para além das paliçadas e dos jambos, mora Ítalo. 

Ítalo recita alguns poemas de memória de Walt Whitman- Ítalo cultivava a poesia e tinha a obra completa in-fólio do poeta em questão- enquanto alisa os cabelos dela e prende atrás da orelha uma mecha rebelde. Sussurra algo no ouvido, coisas que a faz arrepiar até a alma. Em seguida lhe morde o lóbulo da orelha e lhe beija a boca. Antes de partirem compra dois quindim e comem, enquanto caminham às sombras das árvores que margeiam o lado sul do lago. 

Já em casa, ao afundar a mão no bolso com o propósito de sacar as chaves do apartamento, Ítalo sente, antes mesmo que a chapatesta seja acionada, umas notas de aroma doce e triste transfundir os vãos da porta e encher seu espírito de um enfastioso desejo incoerente de pôr em ordem a cama. 

O dia estava lindamente triste e sóbrio. Ao pé da torre esquerda da Saint- Gerome os andrajos pejam com seus cães sarnentos e seus filhos desdentados. Seus corpos são como uma espécie de mortalha fria e singela. Os sinos dobram. 18h, acusam os ponteiros. Ítalo confere em seu relógio, que bate junto com o da igreja. Uma turba de espanhóis recolhe seus instrumentos, enquanto suas mulheres, gordas e férteis, ponham-se em marcha lenta na direção do metrô. Acima e ao largo da praça, o sol, com seu brilho rosado no horizonte, banha de um ruivo quente e sedento o apartamento de Ítalo.

Ítalo lançava breves olhares sobre o espelho após sair da ducha. Seu rosto escanhoado, exceto por um cavanhaque curto e negro que cobria uma cicatriz que, em seu queixo anguloso e firme, traça uma robustez diagonal, e por bigodes excêntricos e pueris, luzia em seu rosto um brilho de fim de dia. Enquanto passava a toalha felpuda por volta da nuca, passando por seu peito de estivador e, com maior leveza, terminando de secar seu ventre, Ítalo punha a cabeça em riste e via os olhos que ali refletiam: olhos de cínico enlevo. Dois arcos munificentes de pelos bem delineados formam-se por cima de seus lépidos olhos. Em mangas de camisa termina sua escovação e vai para o quarto, encarar a arrumação dos lençóis. 

Enquanto retirava a roupa de cama que consistia num lençol branco, duas sujas fronhas azuis e uma espécie de saía que cobria os pés da cama, dissipava o feliz dia que teve ao lado de Jordana. Tudo findava quando tinha que fazer tal serviço. Não havia motivo e Ítalo envergonhava-se muito disso, pois nunca, em hipótese alguma, com qualquer razão aceitável, ele arrumara argumentos que legitimassem seu ódio por tal tarefa. No entanto, todo o contentamento da tarde que passou junto dela, rapidamente e sem motivo sólido, tornou-se numa nuvem lúgubre e fria. Caiu vencido, com o lençol nas mãos, no somiê. Decidiu dar cabo do aporrinhamento. Acendeu um cigarro recostado na janela. Sentia-se feroz, violento, implacável e enjoado de si. O crepúsculo ruivo e quente caíra sobre a cidade e uma cálida brisa tocava as faces. Terminou o cigarro, lançou a xepa janela a baixo, amarrou o lençol no varão da cortina e envolta do pescoço e se atirou para fora, com o cálido rosto desvigorado.

Por DeCastro.

8 comentários:

  1. Oi, Thami!
    Gente, que texto!
    Nesse final me veio na cabeça as pessoas que aparentam serem felizes, mas por dentro estão sentindo qualquer coisa menos felicidade.
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe da promoção de aniversário do blog Crônica sem Eira

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    1. Oi, Luiza!
      Assim como você, adorei este texto do DeCastro. E de fato, isso que você mencionou também passou pela minha cabeça.
      Beijos

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  2. Olá!
    Primeiramente, gostei do conto. Particularmente o final que me interessou, a parte trágica. Porque ao mesmo tempo que nos remete às pessoas que demonstram a felicidade não sendo felizes - e daí toda aquela questão de aparências etc. -, me remeteu a algo diferente, às pessoas que, embora felizes, possuem esses momentos depreciativos com a vida e querem por fim a tudo, momentos geralmente solitários. Como o protagonista que, embora tenha sido feliz junto com a moça, ao estar sozinho se deparou com a angústia etc. e pôs fim ao tormento. A interpretação pode ir mais longe... Como quanto à felicidade; ser uma pessoa feliz é "estar" feliz em boa parte do tempo ou "ser" feliz consigo mesmo e com o que o cerca? (Não ouso responder)
    Enfim, temáticas assim me interessam. Pensar em suicídio agora me faz lembrar de Os sofrimentos do jovem Werther~

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    1. Se em algum momento, por mais breve que seja ele, fiz-lhe lembrar de Goethe, sinto-me orgulhoso. Acho que vale ainda um outro questionamento: o que de diferente,ou de mais nobre, num sujeito que, por exemplo, comete suicídio por perder o emprego, ou terminar alguma relação, de um outro que dá cabo de sua vida por cansar de arrumar as roupas de cama?
      Bem, obrigado por passar por aqui e deixar teu registro. Espero que continue acompanhando-nos- a mim nesta coluna e ao blog.
      Beijos

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  3. Oi Thami,
    Confesso que acabei o texto com o pensamento em meu pai. Ele teve depressão (eu nunca divulguei isso no blog, mas não pude deixar de ignorar esse fato após o post). Nem sempre as aparências de felicidade são verdadeiras e isso é algo bem chocante para mim, pois meu próprio pai conseguiu me enganar... Estranho pensar assim, né? Mas é a verdade.
    Beijos
    http://estante-da-ale.blogspot.com.br/

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    1. Oi, Alessandra!
      É doloroso admitir isso, mas é verdade. Nem sempre se está feliz quando se demonstra estado de felicidade.
      Sinto muito por isso.
      Beijos

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  4. Acho quase profissional quem consegue viver demonstrando alegrias enquanto em seu interior há um mar tão grande tristezas... Mas tão vazias são por deixarem sua depressão matar qualquer suspiro de felicidade que possam ter sentido; acho que nunca vou entender os motivos de um suicida e espero nunca chegar até lá para entender. Ps.: Sempre gosto dos textos do DeCastro. Parabéns.

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    1. Olá, Chai. Que bom vê-la por aqui. Camus sempre disse que o suicídio é o único problema do qual os filósofos e pensadores devem se ocupar. Deve ser pelo que falaste acima. É difícil mesmo de compreender.
      Passa mais vezes por aqui. Os registros são importantes para nós.

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