quinta-feira, 23 de junho de 2016

O que der na telha - com DeCastro #25


"Cristovão estava com a cabeça as voltas. Nas nuvens. Assoviava o primeiro prelúdio que lhe surgia nos lábios. Era Bach. Os olhos cerrados, perdidos na vastidão das águas, eram duas irrefragáveis evidências da solidão. A barbela sobressaía sobre a gola role. As mãos apoiadas sobre a balaustrada tremiam. O cigarro, apagado no canto da boca, pendia nos lábios moles. 

Uma gaivota rasga o céu e em circunvoluções mergulha na vastidão de água. Alça voo outra vez, mas agora traz no bico um pequeno peixe que, debatendo-se, tenta se soltar do predador. As asas batem elegantemente. Ao longo do cais as pequenas embarcações balouçam vagarosamente. Uma outra, menor que as demais, corta o mar vadiamente, até atracar. Gente simples e feliz, são eles.

Seus olhos de sereno acolhimento enchiam-se de ternura quando, repousados sobre o horizonte, o sol se punha. Os raios que ainda sobravam pareciam-lhe uma girândola das antigas festas em homenagem a Elredo de Rievaulx que Cristovão frequentava regularmente com sua mãe. Decidiu caminhar ao largo da ruela que costeia a praça.

No cruzamento saca do bolso o isqueiro e queda uns instantes brincando com a chama que bamboleia antes de acender o cigarro. Traga a fumaça e atravessa a rua. 

Já na praça, acomoda-se num dos bancos e põe-se a ler Walden. Havia suspendido a leitura por exigências sociais, mas desde que voltou a lê-lo transportou-se para outra atmosfera; para as cercanias do prado. E a noite vinha fria e triste. As luzes do poste acendiam uma a uma. De todo o modo, Cristovão ali permanecia, com os olhos mergulhados no livro, com a leitura a encher seu espírito com uma espécie de insondável e inquebrantável melancolia. O véu negro cobria tudo. Aos poucos, sem se dar conta, Cristovão ia sendo engolido pelo vazio da noite, que tudo devora."

Por DeCastro.

2 comentários:

  1. Oi, Thami!
    Eu adoro os textos dessa coluna. Acho diferente.
    Tenho trauma de gaivotas desde que uma me atacou hahahhha
    Beijos
    Balaio de Babados
    Participe da promoção de aniversário do blog Crônica sem Eira

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    Respostas
    1. Oi, Luiza!
      Fico feliz por você gostar da coluna do DeCastro. Continue acompanhando.
      Beijos

      Excluir

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