sexta-feira, 3 de junho de 2016

Entre a crise e a canção


Pés frios. Domingo. Silêncio. Dei uma rápida olhada na internet e a temperatura não passa dos 20º. Sem vontade de vestir um par de meias, quero sentir meu corpo esfriar, os pelos do meu braço eriçar. É uma droga ser sensível, até mesmo uma mosca morta por acaso é capaz de causar dor. A playlist trava em Total Eclipse of The Heart e eu sinto que vou desabar. É apenas uma questão de tempo. Repito: é uma droga ser sensível. Mas há algo pior: Ninguém perceber.

Bonnie Tyler: De vez em quando eu fico um pouco solitária.

O vento entra pela janela, abro a geladeira. Quero congelar, me tornar fria como o tempo de hoje e ser indiferente a tudo. Mas não consigo, sou um poço cheio, derramando um líquido quente e compadecido. Sentimental. Não ouço muito, o telefone não toca, o cachorro não late, o vento é silencioso. O único som ao meu alcance, além da música, é o som da minha respiração ofegante e perdida.

Bonnie Tyler: De vez em quando eu fico um pouco cansada de ouvir o som de minhas lágrimas.

Lágrimas. Elas são frequentes e intensas como uma tempestade. Estou cansada de ouvi-las, de tê-las como uma característica minha, mas, sobretudo, estou cansada de tentar escondê-las. Desabei uma vez, o cansaço me venceu. Que vergonha eu senti, não soube me explicar. Nunca sei me explicar. 

Bonnie Tyler: De vez em quando eu fico um pouco nervosa por terem os melhores anos de minha vida já passado. 

Infância. Quando o mundo era quase perfeito e os brinquedos me sossegavam. Quando a noite era espaço de sono (não de insônia) e as lágrimas eram de frustração, por não poder mais tempo na rua com os amigos. Sinto que vou sufocar. Como os anos passam rápido! Em breve vou envelhecer e isso me assusta. Sinto saudade de quando a única preocupação que eu tinha era a de não ver Mia e Miguel se brigarem.

Bonnie Tyler: De vez em quando eu fico um pouco inquieta e sonho com algo selvagem.

E talvez eu não esteja dormindo. Oro para que os pensamentos ruins explodam, como uma agulha espetando um balão. Mas eles são mais frequentes que as lágrimas. Negatividade, pessimismo... Talvez eu esteja descontrolada. 

Bonnie Tyler: De vez em quando eu desmorono.

E não sei o que fazer. Olho para os lados e vejo obstáculos, as ruas estão cheias deles. Meu corpo se arrepia, estou serenando. A parte boa: a crise nunca dura mais do que alguns minutos. A parte ruim: ela é curta, mas retorna. Preciso descobrir um jeito de acabar com ela. Agora, mais do que nunca. Chegou, portanto, a hora. Ligo o chuveiro, o corpo gelado se choca com a água fervente. Quero melhorar. Vou melhorar. 

Por Thamiris Dondóssola.

9 comentários:

  1. Meeeu parabéns pelo texto! É lindo como captou e metaforizou os sentimeentos, as experiências, os felt-senses da situação. Incrível! Não pare de escrever

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    1. Obrigada, Lucas!
      Fico feliz que tenha gostado tanto assim. Muito obrigada!

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  2. Meeeu parabéns pelo texto! É lindo como captou e metaforizou os sentimeentos, as experiências, os felt-senses da situação. Incrível! Não pare de escrever

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  3. Sonhando aqui com o dia em que terei um livro seu nas mãos, Thami! <3
    "A parte boa: a crise nunca dura mais do que alguns minutos. A parte ruim: ela é curta, mas retorna."
    Texto incrível, como sempre.
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

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    1. Ai, sua linda! <3
      Obrigada por esse carinho imenso, Carol.
      Beijocas

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  4. Parabéns por este texto, parece ser real.

    Arthur Claro
    http://www.arthur-claro.blogspot.com

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