quarta-feira, 9 de março de 2016

Resenha: As Meninas - Lygia Fagundes Telles

Sinopse: Não foram muitos os escritores que, no auge da ditadura militar no Brasil, abordaram em seus textos temas como a repressão e a tortura e escreveram obras de contestação como As Meninas, de Lygia Fagundes Telles. Livro árduo, dolorido e lindo, As meninas relata os conflitos no relacionamento de três jovens que têm entre si um ponto em comum, a solidão, e como pano de fundo os governos militares. Três universitárias compartilham com algumas freiras um pensionato em São Paulo. Ana Clara gosta de um traficante e vive drogada. Lia briga contra o regime, Lorena, filhinha de papai, ajuda as outras duas com dinheiro. Lia se envolve com Miguel, que é preso e trocado por um diplomata. Sem ligar para a política ou as drogas, Lorena se apaixona por um médico casado e pai de cinco filhos. Um enorme espaço separa o universo das pensionistas e seus dramas das religiosas, que se apavoram com a liberdade das três moças. Cada uma das personagens é um poço de conflitos e monólogos interiores que vêm à tona através das confidências íntimas de cada uma e que se ligam à miséria política e cultural da época. O texto de Lygia Fagundes Telles não cai na vulgaridade, não se banaliza apesar do tema. A linguagem é coloquial e expressiva e os diálogos abandonam as conveniências formais. As Meninas de Lygia são, afinal, as jovens do nosso tempo, saídas da adolescência e ingressando na plenitude da mocidade. Nada mais atual. Apontada pela crítica como um sucesso absoluto, As Meninas é uma obra que resultou do esforço de três anos de trabalho dessa autora perseverante, que valoriza a palavra e mostra, através de seus textos, a luta de todos nós em defesa da liberdade.

Publicado pela Companhia das Letras, As Meninas, de Lygia Fagundes Telles, caiu em minhas mãos por conta do clube do livro da minha cidade. A leitura foi um desafio, pois a escrita da autora fez com que eu saísse da minha zona de conforto. De modo geral, o que encontramos nas páginas desse livro são situações inusitadas pelas quais as amigas Lorena, Lia e Ana Clara passam num momento marcado pela ditadura militar.

O que Lorena, Lia e Ana Clara tem em comum, é a amizade que sentem uma pela outra e o fato de morarem em um pensionato de freiras. Mas há algo que chama mais nossa atenção: As dessemelhanças entre essas três moças são gritantes.


Lorena se destaca como a burguesinha de As Meninas. Ela é uma jovem rica, apaixonada pela literatura e também por M. N., que, diga-se de passagem, é um homem casado. A moça passa o livro inteiro esperando por uma ligação de seu amado. Apesar de ser irritante ao extremo em algumas situações, simpatizei com Lorena em muitas das suas reflexões. O seu gosto musical, suas leituras, sua compaixão e até mesmo a sua “compulsão” por banhos me fizeram admirá-la. Lorena é quem mais recebe enfoque no livro. E eu já estou morrendo de saudades dela.

Lia é filha de baiana com alemão e está na luta contra a ditadura. Ela passa a história participando de esquemas para tirar seu namorado da cadeia. Lião, como Lorena muitas vezes se referiu a Lia, é aquela que combate e não se incomoda em demonstrar a sua insatisfação perante toda a situação na qual se encontra, onde a repressão reina. Lia também me fez sentir admiração por lutar sem “mas” por aquilo que acredita e contra aquilo que não suporta.

Ana Clara é uma moça linda! É possível perceber, pelos pensamentos desconexos da jovem, que ela já passou por coisas muito ruins. Atualmente, foi dominada pelas drogas e é por conta disso que a maioria das suas reflexões são confusas e quase impossíveis de serem compreendidas. As partes em que a narração foi feita por Ana Clara foram muito difíceis de serem lidas.

"Quero te dizer também que nós, as criaturas humanas, vivemos muito (ou deixamos de viver) em função das imaginações geradas pelo nosso medo. Imaginamos consequências, censuras, sofrimentos que talvez não venham nunca e assim fugimos ao que é mais vital, mais profundo, mais vivo. A verdade, meu querido, é que a vida, o mundo dobra-se sempre às nossas decisões."

Eu acredito que a narração de As Meninas é uma das coisas que faz o livro se tornar único. Nunca, entre todas as minhas leituras, encontrei algo semelhante. A narração acontece em 1ª e 3ª pessoa. Ora é Lorena quem narra, ora Ana Clara, ora Lia, ora um narrador em terceira pessoa. A narração vai se alternando sem avisos e quase nunca é neutra, sempre se compromete. Preciso dizer que o começo foi penoso, pois eu não conseguia entender quem era quem, mas assim que conheci um pouco das meninas, consegui acompanhar melhor a narração. Por exemplo, o início do capítulo seis é narrado em terceira pessoa. Não foi preciso destacar nenhum nome para eu saber que aquele capítulo seria sobre a Lia.

Outra coisa que eu preciso destacar sobre a história é que a autora conseguiu abordar inúmeros temas polêmicos para a época em meras reflexões e pensamentos das meninas. Por exemplo, há situações em que as personagens estão refletindo ou pensando sobre temas extremamente polêmicos para a época (e para os dias atuais também), como o aborto e a prostituição. E o mais impressionante é que tudo isso acontece de forma natural, simplesmente a partir de pensamentos. Não foi preciso criar nenhuma situação, a autora simplesmente implantou esses temas em lembranças.

De modo geral, o livro me deixou satisfeita. Alguns motivos me levaram a classificá-lo com quatro estrelas. Mas isso é apenas a minha opinião. As Meninas é um livro que deve ser lido. E após concluir a leitura, fiquei com a sensação de desespero. Demorei para digerir algumas coisas e acredito que a ressaca literária marcou presença. Creio que vou fazer a releitura em algum momento do futuro, quando meus conhecimentos tiverem aumentado e minhas perspectivas me fizerem enxergar as coisas de modo mais profundo. No entanto, neste momento, concluo essa resenha dizendo que Lia, Lorena e Ana Clara estão gravadas na minha memória. 

11 comentários:

  1. Oi, Thamiris!
    É tão legal quando o clube do livro faz a gente sair da nossa zona de conforto e gostamos.
    Anotei a dica. Eu gosto de livros que se passam na ditadura e esse tendo foco em mulheres me despertou bem mais atenção.
    Beijos
    Balaio de Babados
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    1. Oi, Luiza.
      Sim, é sempre muito bom nos abrirmos a novas experiências.
      Beijos

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  2. Oi, Thamiris! Tudo bem?

    Lygia Fagundes Teles é uma escritora incrível!
    Os livros dela são bem polêmicos para sua época, porém, deliciosos de ler em nosso momento atual.
    Adorei a resenha! Parabéns!

    Beijos!
    Danny
    Participe do Sorteio "Mês das Mulheres" no Irmãos Livreiros, serão 10 livros sorteados!

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    1. Oi, Danny!
      O único livro de Lygia Fagundes Telles que li foi "As Meninas". Não conheço as outras obras então não posso falar sobre elas. Mas, o livro em questão, sim, é bastante polêmico e ousado.
      Beijos

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  3. Ai, que resenha linda!
    Parece ser um livro muito bom, fiquei curiosa. Ainda vou ler essa autora, não sei quando, mas pretendo e quem sabe eu escolha esse título, pois adoro narrativas com crítica social.

    Beijos, Hel - Leituras & Gatices

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    1. Obrigada, Hel!
      Tenho certeza de que você ainda vai ler a autora. Espero que goste! :D
      Beijos

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  4. Oie...
    Não conhecia esse livro, mas, pelo que li em sua resenha fiquei bem animada a ler! Adoro variar de vez em quando e ler algo mais complexo e acredito que esse livro seja uma boa pedida :)
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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  5. Ainda não li este livro, na verdade fiquei sabendo por você rs, parece ser muito interessante a historia. Bela resenha, vou coloca-lo na minha lista de leitura.

    Bjinhos, já seguindo pra te acompanhar.

    http://alivross.blogspot.com.br/

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    1. Fico feliz que tenha gostado. E que tenha conhecido ele por aqui. Espero que leia e se encante!
      Beijos

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  6. Uau! Só de ler a sinopse fiquei interessada pelo livro e, após ler sua resenha, fiquei doida para lê-lo! Parece ser uma obra muito forte, bastante densa. Gostei do fato do livro ter uma linguagem coloquial, apesar da dificuldade inicial que você citou com as mudanças narrativas, mas acredito que isso não deva prejudicar a leitura, né?
    Adoro temas polêmicos e indigestos como os que aparecem aí. E essa capa? Que coisa mais linda! Me lembrou um pouco a arte de Beatriz Milhazes.
    Um grande beijo.
    Fê Cardoso.
    http://www.baseadoemlivros.com.br

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