quinta-feira, 31 de março de 2016

O que der na telha - com DeCastro #20



Acabara de guardar o tabuleiro de gamão. “Da próxima esse velhote não me escapa” pensou. Sorriu e se pôs a fumar. No fundo gostava de ser vencido. Era mais fácil suportar a vitória estampada nos olhos alheios do que a lúgubre derrota.

A vida de Agnaldo não passava de um rascunho. Uma tentativa frustrada de ser. Marcada por maniqueísmos tolos e pueris. Porém uma vida com disposição. Disposição para amar. E sofrer. Acendeu um segundo cigarro, mas dessa vez o fez recostado na balaustrada da sacada. Lá embaixo os transeuntes sucumbem por todos os lados e somem por tantas outras reentrâncias. Em seu rosto balofo e bonachão de católico praticante, porém desonesto com sua fé, há sempre um bocejo mal disfarçado e eternamente reprimido. Risível. Acena para um magote de estrangeiros que tocam, todos os santos dias, seus instrumentos. Retribuem-lhe o aceno. De todos, o que mais destaca-se é o oboé. Tamborila os dedos encardidos de amarelo.

Agnaldo mantinha o olhar fixo e alinhado para a tabacaria. Repentinamente uma turba de ciganos bêbados e barulhentos ganha a esquina. O som do oboé é sobrepujado pelo dos guizos e guitarras. A celeuma envaidecida e sensual toma a rua. Seu olhar queda degringolando sobre uma cigana miúda de peitos nus e cabelos escuros como a noite. As grandes e pretas amêndoas sagradas que são seus olhos remata Agnaldo que torna-se um torpor só.

O cigarro dependurado nos beiços queima forte, não tanto quanto a chama de vida que emana dela. Ela é toda calor. E alegria; sensualidade. Ocasião. O desejo que arde nela é a força motriz que a move. Enquanto em Agnaldo o niilismo crescente é a causa.

A cigana dança. Mexe-se como pode. Estrugi. Rodopia. Pula. Gira e mexe os quadris. A cigana. A cigana é todo o universo. É toda a verdade. É somente o salaz. Galhofa. E ri.

Um negro vigoroso de carnes firmes e tez lustrosa feito um orixá africano prende-a nos braços nus. Enfatua. Aperta-a e a beija. Agnaldo nesse instante quer sê-lo. Quer tê-la. Quer ser a liberdade que os consome. Ser a partida para lugar algum. O cigarro consome-se. A barafunda cigana ganha o parque. Não se ouve mais o som da guitarra. Nem dos guizos. Nem Cigana e seu Orixá. O oboé começa novamente.

Agnaldo deita na esteira. Soergue sobre os cotovelos inchados. Cumprimenta os músicos com um sorriso amarelo. Pensa na cigana. Pensa no tabuleiro. “Amanhã remato o velhote.” Um prurido faze-o meter-lhe as mãos por dentro da calça. Sacia. Boceja e dorme: “Ah, cigana. Quisera eu que teu sorriso de mil sóis devastasse a nefasta selva negra da minha alma.”

Por DeCastro.

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