quinta-feira, 3 de março de 2016

O que der na telha - com DeCastro #18


Gertrude estava vencida pela estafa. Sofria de jet lag. Ainda assim mantinha o sorriso de mil sóis estampado no rosto lívido. O dancing estava apinhado, fumacento e azul. Na pista, ao som dos músicos argentinos, casais jactantes dançam o tango num frenesi burlesco e erótico. Enquanto isso, na lateral direita da porta dos fundos, sobre a penumbra, alguns se alucinam com cocaína e uísques sobre as mesas envernizadas. O tango acaba. Rapidamente entram os músicos do jazz e põe-se a descompassar o ritmo. Alguns dos casais que encontravam-se às mesas logo foram para a pista; outros que lá estavam, sentam-se. O baterista, um belo negro espadaúdo com punhos de pugilista, soca o instrumento e, feito um pavão, é todo exibicionismo. A pedido de Ferdinando, o garçom traz um duplo com gelo para ele e um bloody mary para Gertrude. Entornam de uma única vez. Pagam as despesas e saem. Nada falavam. Continham-se apenas em dirigir magros olhares um ao outro. Muito se tinha o que dizer, o problema era como dizer.

Ferdinando empunha a valise de Gertrude até que encontram um táxi. Ferdinando faz sinal. O carro para. Gertrude dá o endereço do hotel em que está hospedada. O chofer toca a aba do boné puído e numa guinada brusca, guia o auto ladeira acima. Gertrude e Ferdinando entabulam conversas aleatórias, mas tudo o que dizem não passam de meias palavras triviais. Tudo é muito reticencioso e premeditado. Tudo entre eles é como a névoa da manhã: densa e fria. Era preciso uma única frase para que tudo se resolvesse. Uma única oração e tudo seria como o primeiro raio de sol pela manhã, dissipando a lassidão da névoa matinal. No entanto, acovardados que estavam, não proferiram as palavras para esconjurar a escuridão. Não estacada os fundamentos do diálogo, deixaram com que o silêncio imperasse implacavelmente entre eles outra vez. O chofer assovia uma canção popular. O silêncio espicaçava-os a alma.

- São trinta mangos - disse o taxista virando o dorso para os passageiros.

- Fique com o troco – falou Gertrude estendendo-lhe a quantia.

- Tome de volta o dinheiro. – atalhou Ferdinando intervindo o pagamento- Deixe que eu pago.

Gertrude mete o dinheiro no bolso e sorri, constrangida. Ferdinando ajuda-a com a mala. Gertrude atravessa a soleira da recepção, enquanto ele, entrando novamente no táxi e arriando o vidro, diz para ela, entre dentes, para passar no seu apartamento no dia seguinte. Rompe o desconforto e, já acomodado no banco traseiro do carro, confessa que andou escrevendo sobre ela.

- Na certa me pintou miticamente. Tens fortes inclinações a loucura – e sorrindo docemente desapareceu no saguão do hotel.

A ignição é acionada. O motor rumoreja e o condutor profere uma bravata qualquer.

- Siga em frente até o Parque Balzac e suba o Bulevar dos Cafés, por favor. – disse Ferdinando.

- As suas ordens, chefe.

~♥~

No Bulevar as pessoas empilham-se umas sobre as outras. Falam alto, riam muito e gesticulam tanto mais. Nem bem o carro passou pelo A Brasileira e Ferdinando diz que fará o resto do trajeto a pé. Pagou a corrida, vestiu o casaco e o chapéu de feltro e se pôs a caminhar. Ao atravessar a rua uma velha amiga estrugi o braço de dentro do Sant’.

- Alô, Ferdinando. Quanto tempo, hein.

- Alô Clarice. Como vão as coisas para você? – disse Ferdinando.

- Tanto faz. – respondeu-lhe.

Ferdinando se restringiu a sorrir. Direcionando outra vez a fala para ele, diz:

- Tens algo hoje?

- Não, não. Estou limpo.

- Ah, que pena. – prosseguiu ela- Estou ali com uns caras. Amigos meus. Lembra do Bruno?

- Não, não lembro. Desculpe.

- E da France?

- Também não. Lamento.

- Seja razoável, eles passaram o verão conosco. Lembra? – disse Clarice numa última tentativa de fazê-lo lembrar. Consternado, Ferdinando diz:

- Não.

- Tudo bem. Entre e divirta-se conosco um pouco. Você não parece muito bem. Parece um pouco cerdoso; inexorável.

Ferdinando fita o Café. O Sant’ fica numa reentrância entre dois prédios públicos. É um lugar pequeno e brejeiro. O lugar recende a cannabis misturado com gim barato e esperma.

- Não posso. Tenho que voltar a escrever.

- OK – e quando Clarice se vira, Ferdinando saca do bolso uma pequena bucha plástica envolta com um cordão encerado. 

- Clarice, espere. Tome.

- Obrigada, Fer. – disse ela alçando os braços em torno de seu pescoço.

Clarice tinha boas curvas- não tão bem delineadas quanto as de Gertrude, mas em bojudas proporções. Suas longas pernas eram torneadas e sua carne branca e firme. Embora o cabelo estivesse sempre emaranhado, sobressaia-se os olhos negros, porém rutilantes. Ela volta para o Café e Ferdinando continua sua subida até o número 288.

Enquanto caminha a passos prestos pensa no quanto Clarice está diametralmente oposta à realidade do Sant’. Sempre que pensa nela a mesma imagem toma suas lembranças de empréstimos: silhueta seráfica e lânguida. Teve com ela uma única noite, mas aquela ocasião valeu-lhe por todas as mulheres com quem já se deitou. Exceto a deslumbrante e arrebatadora Gertrude. 

Gertrude tinha um quê de mistério no olhar. Falava manso e até mesmo suas funções mais simples eram cheias de sensualidade. Gertrude encarnava Afrodite e em nada fica em dívida com a grega. Era para ela que ele existia. Ferdinando existia para sofrer por ela e pior, fazê-la entender que toda sua desconsolação era para que Gertrude crescesse. Ele era como o adubo que deixa a flor viçosa. Sentia que esse era seu papel e estava satisfeito em desempenhá-lo desde que ela continua-se a florir nas primaveras de sua vida. 

~♥~

6:30. O dia amanhece frio. O café está quente. Beberica com escrúpulos e acende um cigarro. A fumaça corre em filetes por entre seus finos dedos. Mal traga e apaga-o. Coloca uma folha na Mignon e bate à máquina. 9:37. Termina de escrever o conto. 9:39. Torna-se apreensivo. Gertrude está dezenove minutos atrasadas. Prepara um chá que batiza com Bourbon. Acende outro cigarro. Abre um livro. Lê meio parágrafo. 10:01. A campainha soa. Ferdinando pula da poltrona que estava encarquilhado, ajeita a camisa, separa o manuscrito, dá o último gole na bebida. Queda em frente ao espelho. Campainha soa outra vez. Sorri amarelo e percebe seus dentes rotos. Pensa em escová-los, mas isso demoraria um bocado e sabendo do temperamento de Gertrude, ela não suportaria esperar três soar de campainha. Confere o colarinho da camisa. Sente que está um pouco amarrotado. Se percebe com uma barriga a descer-lhe do ventre. Repuxa-a. Aperta o cinto. Campainha toca pela terceira vez. Desta feita parece que quem a aciona está impaciente. Pigarreia e abre a porta.

- Bom dia, senhor. Deixaram essa correspondência em seu nome na recepção. – disse o senhor morboso e imperturbado.

- Obrigado – respondeu Ferdinando plangente.

A carta era da parte de Gertrude. Disse que teve que tomar o bonde às pressas. Lamento, dizia. Ferdinando empertigou-se aflito. Uma lágrima corre-lhe à face magra. Rasga o papel. Liga para Clara, mas a ligação cai.

- Porra.

Por DeCastro.

6 comentários:

  1. Oie...
    Como sempre seu texto está maravilhoso!
    Parabéns...
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá.
      Que bom que tenha gostado. Seu comentário é importante para mim.
      Beijos.

      Excluir
  2. Adorei esse texto, mas confesso que fiquei com um pouquinho de raiva do Ferdinando hsuahs
    Te amo,baby.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Você e a sua empatia pelos personagens- qualquer dia desses você soca alguém pensando ser um personagem cretino.
      Te amo, Amor.

      Excluir
  3. Respostas
    1. Muito obrigado.
      Continue frequentando o blog e, naturalmente, a coluna que aqui se apresenta.

      Excluir

Seu comentário é muito importante. Obrigada!

Obs.: Caso você não tenha uma conta no Google e não saiba como comentar, escreva o que deseja na caixa de texto acima e na opção "comentar como" selecione "Nome/URL", preenchendo somente o campo nome.

E-mail para contato: thamirisdondossola@hotmail.com