quinta-feira, 18 de fevereiro de 2016

O que der na telha - com DeCastro #17

Finalmente o fim das férias. Meus traços histéricos - querer muito qualquer coisa e se lançar profundamente naquilo - sempre afloram nas férias e faço poucas coisas - entre elas, escrever - e dedico-me apenas a consumir os aproximadamente três séculos de literatura que preciso pôr em dia. Pois bem, não fosse apenas isso, ainda estava acertando com a editora - em breve sai o terceiro livro - e por conta de todas essas coisas fiquei longe da internet e, por consequência, do blog. Mas agora estou de volta. Revigorado e com os dedos frementes no teclado.


"De quem passa pela calçada oposta ao antiquário e lança o olhar para dentro, vê por entre um incunábulo de vexiolologia e um busto incerto, a bruma envolver em um amplexo todo o local, exceto por uma fraca luzinha vermelha sensual que sai de um velho abajur, toda a sala era um breu total. Se fosse possível, num golpe de mestre, injetar os olhos por entre a nesga da orelha direita da peça de gesso e entre a espiral do livro, um par de olhos negros, oblíquos e simulados, alçava também sobre si uma espécie de pervinca que brotaria no porvir. No entanto era preciso passar por aquilo. Sentir seu espírito estrugir ao ser alcançado por aqueles olhos que falam a língua do silêncio: olhos de louco em aros de poeta.

A campainha superior no batente soa e desperta o balconista imberbe do seu estado hipnagógico. O lugar recendia a cigarro. Os finos dedos desenhavam as silhuetas das peças: a grande maioria eram de contornos brejeiros e grosseiros, entretanto significativos, pois traziam consigo narrativas: narravam vivas, tempos, amores e dissabores que foram retesados. Chegando em uma das prateleiras um velho volume isca-a por dentro, deixando seu espírito siderado pela lembrança. Aquele lugar, embora pardieiro, era um lugar de lembranças- como nossas memórias empoeiradas e sombrias, excluídas da admissão do consciente.

O balconista, um velho com tatuagem de marujo no peito, fica basbaque por longos minutos, enquanto a mulher se desfazia em lembranças. Gatilho. O livro foi para ela um gatilho potente. Decidiu levar consigo o livro. Estugou da prateleira até o balcão. Olhava, mas sem ver. Suas reentrâncias rutilavam à guisa da lembrança: relembrar é viver. Enfiou a mão na bolsa e sacou um talão, assinou e destacou a folha. Encarando o livro, sentiu-se dispneica, sua garganta adstringiu num soluço; sentiu-se triste. Vencida pela estafa, alçou mira sobre o livro outra vez e decidiu não rever sua memória. Queria afugentá-la, mas como isso era impossível,- afinal somos memórias também -contentou-se em afoga-la no esquecimento. Apoiou o livro no balcão. Cruzou a soleira. Campainha. Para na vitrina e vê pela última vez a lombada do livro. Torna-se vapor. Atravessa a rua e junta-se a tantos outros que estão en passant- que de passagem também visitam suas lembranças, principalmente em datas comemorativas. - Tornou-se abstrata na multidão. A lembrança ainda estocava sua memória. Entra em um Café, pede uma bebida e entabula uma conversa com o garçom."

Por DeCastro.

19 comentários:

  1. Bonito texto...
    Mas desculpe minha ignorância, de quem é? São trechos de algum livro ou algo assim?
    =]

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  2. Olá,

    gostei do conto, será que é meu parente? familiar? tenho De Castro no nome rsss.
    www.sagaliteraria.com.br

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    1. Rsrs, quem sabe, não?! Que bom que tenha gostado.

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  3. Olá
    Bem interessante o conto, chaga a dar vontade saber o que vem a seguir.
    Já cheguei a escrever, mas faz tanto tempo, na verdade ainda escrevo uma coisa ou outra, mas é só diversão.
    Parabéns pelo conto.
    Beijos

    www.poyozodance.blogspot.com.br

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    1. Olá, Daniele.
      Obrigado pela atenção dado ao meu trabalho e se continuares a frequentar o blog, lerás outros contos meus quinzenalmente. Sobre escrever: acredito que tenha seus percalços, mas se sente "vocacionada" para a empreitada, siga a diante.
      Beijos

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  4. Oi!

    Apesar de não ser muito o meu estilo, admiro quem tem a habilidade de escrever assim. Parece que hoje em dia os textos, livros e contos são escritos de forma mais direta, sem o charme que só um bom escritor sabe dar.

    Beijos

    www.ooutroladodaraposa.com.br

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    1. Este comentário foi removido pelo autor.

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    2. Olá, Raissa.
      Concordo com você enquanto ao charme de se dizer tudo em meias palavras. Obrigado por compartilhar conosco sua importante opinião. Espero que continue frequentando e deixando suas impressões por aqui.

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  5. Olá! Apesar de não estar acostumada com leituras assim, fiquei encantada com cada acontecimento da narrativa. A vontade é de continuar lendo e saber o que vai ocorrer com a moça. Adorei as palavras. O conto ficou maravilhoso. Parabéns!

    Beijos,
    Fernanda F. Goulart,
    Império Imaginário.

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    1. Oi, Fernanda.
      Para pegar a alma desse tipo de texto basta habituar-se a tal e para isso é preciso consumir narrativas assim. Obrigado pelas palavras de incentivo. Continue acompanhando o blog e, naturalmente, a coluna.

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  6. Adorei o texto! Parabéns, o conto ficou demais!

    Vitória, www.vicio-de-leitura.com

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    1. Oi, Vitória. Que bom que gostou. Continue nos acompanhando.

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  7. Olá, tudo bom? Gostei muito do texto do seu colunista, muito interessante! A escrita é envolvente e prende o leitor até o final de seu texto. Muito bom mesmo!

    Beijos!
    Entre Livros e Personagens

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    1. Olá, vou bem sim e você, Pollyanna? Que bom que gostasse do conto. Espero vê-la aqui mais vezes.
      Beijos

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  8. Adoro colunas novas, o texto, conto muito bem escrito, curti a ideia do DeCastro.
    Beijos

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    1. Que bom que gostasse. É incentivador receber esses carinhos de nossos leitores.
      Passe mais vezes por aqui.
      Beijos.

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  9. Que escrita maravilhosa DeCastro! Adoro esse vocabulário. Gostaria de ver os livros que você citou acima, suas obras. Bjs!

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    1. Heloísa, posso, se assim lhe interessar, enviar a você o meu último livro lançado, basta que entre em contato comigo (decastlee@gmail.com). Continue acompanhando o blog e, naturalmente, essa coluna.

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