quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

O que der na telha - com DeCastro #16


MORFEU

O dia acinzentado, a chuva caindo na janela, embaçando o vidro, gotejando sobre a sala de estar, onde havia uma goteira que há tempos deveria ser tapada.

Observando o cair do orvalho, há dois corpos, estendidos um ao lado do outro, abraçados, ao uníssono ritmo do coração, com a respiração arquejante de quem está cansado; apaixonado.

Sobre o chão, uma espreguiçadeira jogada para o conforto dos corpos, já que para o da alma tinham o alento do outro, pelo toque, pelo beijo. Suados, amantes, completos e jogados um na direção do oposto.
Ela, deitada no seu peito - com pêlos que enroscam-se à corrente, o braço tatuado que ternamente envolve o cálido corpo compungido por marcas fortes de um momento fogoso de gozo humano - beijava-o na mão, no braço, no peito, na boca.

Ele, contemplando a bela ninfa de cabelos escuros e desatados, pele alvacenta, peitos médios molhados pela sua saliva, depilada. A língua que percorre todo o encômio corpo sente como melífluo seu sabor sensual saindo dos favos que são os poros tocados.

O cara levantou-se e foi acender um cigarro.

Enquanto saboreia seu fumo, sente, na nebulosa fumaça, a sensação de liberdade que a proximidade com a morte sempre lhe traz. Percebe a letargia em que sua vida se transformara no momento em que a fumaça se desvencilhava do tubo cilíndrico de papel branco com uma das pontas amarelada - a outra é incendiada pela faísca saída de um isqueiro a gás - envolvida por dedos finos e longos, que seguram com garbo e elegância o passaporte para sua liberdade.

Tabaco, uísque, sexo e poesia. Vícios, promiscuidade, literatura. Morte, vida, ilusão, passagem. Toda essa epiderme da realidade se plasma aos olhos vivazes do homem que vê em sua frente a mulher nua, lânguida e apaixonada.

Cigarros e feromônios. Sexo e poesia. Literatura. Viver a vida quando se tem cigarros e uísque é muito mais fácil e deixa mais aprazível a dura existência. Tem-se tudo o que é necessário para se viver: amigo fiel - o uísque - e a liberdade de se fumar um bom cigarro para se deixar exasperar de sua vitalidade denunciante, que pulsa em suas veias submersas de mediocridade.

Na vitrola, Blues, sobre os lençóis, o amor. A paixão, o sentimento, o suor, o sorriso.

A possui por prazer contínuo. Jamais sentirá saudades suas. Saudade é para quem está distante. Ele a tem, se não em seus braços, mas em suas lembranças. Momento efêmero e permanente, passageiro e eterno.

Tudo isso numa sala, com a chuva caindo lá fora e a goteira ali dentro, ditando o ritmo. Mistura-se poesia a música, sexo a cigarros.

Bebidas fortes são como o átimo enrijecido de um recorte de vida passado a dois. Num universo de possibilidades, tudo se anexa e se desanexa nos múltiplos encontros que o acaso proporciona. Vive-se um périplo sem sair do local quando se conurbam, em uma alto-narrativa, momentos que são comuns ao cotidiano com o hiperbólico narrar. Faz-se dessas vivencias verdadeiras odisseias quando se está ébrio e cheirando ao odor forte, seco e envolvente do fumo.

Puta displicente na cama, mulher comedida na rua. Demonstras quem és só para ele, só nele. Pensamentos misturados com a liquidez do momento que se diluem no espetáculo da vida.

Banho. Chuveiro quente. 

A água que cai em seu corpo se mistura com o suor e o sangue que sai de seus ferimentos adquiridos agora. Embotado de sua dor, esfrega a esponja ensaboando-se e, em seguida, deixa-se novamente ser enxaguado pela ducha agradável que escorre sobre sua cabeça molhada. Através do vitrô, passa uma fraca luz que ilumina o ambiente, com uma lucarna que clareia o sótão aquela abertura se parecia. Ela entra. 

Enrolada na toalha, pudica, dengosa, desata os cabelos e deixa deslizar, sobre seu corpo curvilíneo, a toalha felpuda. Seus lábios violáceos, frenéticos, doces e molhados encontram o do homem que tem um nariz aquilino e protuberante, destacando-se em seu rosto branco, pálido, fino e marcado por arranhões. Lacuna é algo que não existe entre eles: seus corpos ficam tão pertos, unidos, colados, conluios, que se misturam e se encaixam, apenas interrompidos de sua inércia inicial pelo movimento dos quadris.

Toca e é tocada. Como quem faz movimentos trinados, os dedos de ambos vão deslizando do rosto as coxas, passando pelo queixo, pelo peito, ao longo da barriga, num movimento lento o suficiente para arrepiar-se e rápido o tanto para sentir que se está tendo um contato. Os lábios se tocam, os olhares se cruzam, a fala baixa ao pé da orelha... O prazer.

Sentem-se um ao outro, jamais a si mesmos. Nesse momento, só se sente o outro. Alheio a si estão eles que não sabem se dão ou sentem mais prazer.

Ele a pega pela mão. A traz. A conduz. Ela o sente; ele a possui. Beijos na boca, no pescoço, nos peitos, na virilha. Sentem-se!

Ele sugere uma posição, ela sorri cretinamente. Querendo-o, desejando-o. É quando, então, ele tem um espasmo e acorda. Tudo é como sempre: vazio, opaco e molhado, no seu quarto em dias de chuva. 

Por DeCastro

8 comentários:

  1. Oi Thamiris.
    Gostei bastante do texto. Achei bem escrito e deixou um gostinho de quero mais um pouquinho.

    Bjos

    http://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com.br/

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  2. Primeiro conto seu que li
    Acho que me apaixonei por você depois de lê-lo hsuahs
    É um dos meus favoritos
    Admiro muito seu trabalho, és um excelente escritor(e parece um pouco com o velho buk sim!)
    Te amo, bem.

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    1. Sei o quanto gostas desse conto e também sei da tua ressalva, mas também- confesso- acho que me apaixonei por você quando o li, ou lia outro qualquer; afinal, seus olhos de amêndoas sagradas cativos no textos me excitam.
      Te amo, Baby

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  3. Muito bom seu texto... surpreendente!!! Parabéns, continue com a escrita, está ótima!
    Até mais!
    http://umavidaliteraria1.blogspot.com.br

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    1. Obrigado Isabela e sim, certamente continuarei a escrever, afinal é isso que faço de melhor. Até mais.

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  4. Nossa Thamiris, adorei. No início estava meio na dúvida, mas realmente me impressionou, vc escreve muitíssimo bem.
    Tenho visto muitas coisas positivas sobre o seu blog. Parabéns, ele faz jus aos bons comentários.

    Bjs!
    Fadas Literárias

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    1. rsrsrsrs não tinha entendido a assinatura, só agora percebi que o texto não é seu rsrsrs

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  5. O verdadeiro "sexy sem ser vulgar". Parabéns mais uma vez.

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