terça-feira, 17 de novembro de 2015

De Helena a Capitu: sobre mulheres, seus cheiros e o tamanho de seus pés

A história da literatura se compõe bonita exatamente por sua diversidade (quase sempre) posta em registro e seus pares de opostos. De um lado, no período romântico, personagens como Helena, de Machado de Assis, deslizavam sobre o chão em vez de caminhar e falavam como quem sussurrava música aos ouvidos, sem contar com o perfume que aquelas peles de pêssego exalavam. De outro, no período realista – não tão distante do romântico – o mesmo Machado de Assis, agora em outra fase, elegia como musa inspiradora de seu romance um outro tipo de mulher. Era Capitu. A moça que cheirava a sabão, tinha cabelo grosso e esganiçado, além de um certo jeito desastrado. Duas mulheres, duas épocas, duas representações, uma pergunta: no século XXI, somos Helenas ou Capitus?

Juntam-se à história de Helena (a moça que se apaixona pelo suposto irmão e que morre de tristeza por esse amor proibido) as inúmeras histórias de José de Alencar, que também adorava essas moças frágeis e delicadas, prontas para viver e morrer por amor. Em A pata da Gazela, uma analogia ao conto de fadas da Cinderela, um homem escolhe a dama a ser cortejada pelo tamanho e perfeição dos pés. O moço acaba se confundindo e escolhendo a moça do pé errado, tenta voltar, mas ela já está com outro. A moça do pé deformado, que se chama Laura, acaba sozinha, enquanto a do pé perfeito, que se chama Amélia, encontra a sorte do amor verdadeiro. Quase 300 anos se passaram, e ainda vejo mulheres buscando alternativas estéticas para representar a mulher do pé pequeno, do cabelo liso, da cintura fina, da perna malhada e depilada, das mechas, da unha feita. Amélias e Lauras modernas ainda esperam ser escolhidas. 

Já em Capitu, protagonista da obra Dom Casmurro, nota-se o relato do próprio Bentinho dizendo que ela é muito mais homem que ele mesmo. Apegado à barra da saia da mãe, o menino pouco se encoraja a dizer o que quer. Nascido para obedecer. Capitu precisa pensar em tudo e bolar seu plano para que Bentinho obedeça e dê conta de, finalmente, pedir sua mão em casamento com consenso da família. Ao fim, não é de se admirar que um homem inseguro e pouco dono de si seja tão desconfiado a ponto de se sentir traído, mesmo sem provas. Para nosso alívio, nesses mesmos quase 300 anos, ainda vejo muita Capitu bancando a casa, ditando as regras no relacionamento e tomando coragem por dois. Estas não nasceram para serem escolhidas, elas aprenderam a escolher. 

Entre Helenas, Amélias e Capitus, fico com os olhos de cigana obliqua e dissimulada. Enquanto for livre a interpretação, vou defender Capitu, pois a mim, pouco importa se traiu ou não Bentinho, nem o tamanho de seus pés. Com certeza, esta foi fiel a si, independente do caminho que tenha seguido no casamento. Mas o que me intriga ainda está além da Literatura, que trouxe essas moças fictícias que tanto envolveram leitores do século XIX e ainda envolvem. O nó que me engasga ainda está ligado às Amélias e Helenas (ou Anastásias?) modernas, presas à espera de um príncipe (ou um Crhistian Gray?), como Cinderelas, tendo que para isso esconder os pés, a gordurinha, o lindo cacho natural do cabelo ou o estranhemento quanto àquilo que não as agrada. Hoje, de Helena a Capitu, qual personagem melhor te representa?



20 comentários:

  1. Oi,
    que texto incrível.
    Sou/fui/apoio/sempre apoiarei Capitu's <3

    bj, amei o post, muito!

    @saymybook
    saymybook.blogspot.com

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  2. Nossaaaaa, que texto incrível!!!! Eloisa, compartilho do mesmo nó... me engasga todos os dias... Sou mais captu!!!!!

    livros terapias / Fan page

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  3. Apesar de eu não resistir a um clichê romântico, sempre defenderei e optarei pelos livros que tem personagens femininas fortes, decididas e com opinião.
    Se eu te contar que, em pleno século XXI, ainda ouço do meu próprio chefe que "eu tenho opinião demais" e que "isso assusta os homens". É triste viu?
    Torço para que os autores se deem conta de que necessitamos de novos modelos de mulher!
    Queremos heroínas como a Katniss, que apenas com 18 anos já lidera uma revolução, deixando até o romance um pouco de lado....

    Beijos!
    www.ooutroladodaraposa.com.br

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  4. Também sou muito mais Capitu!! Mulher frágil e que não sabe o que quer não tem vez no mercado!
    Excelente texto!
    Parabéns!!

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  5. Lindo seu texto. Prefiro ser Capitu. Fiel a mim, as minhas origens, a minha pele branca, ao meu cabelo volumoso e as minhas gordurinhas.
    Amei
    Beijinhos

    Vidas em Preto e Branco 

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  6. Gente, que MARA, Eloísa. Tão gostoso de ler que acabou muito antes do desejado :/ HAHAHA.
    Um verdadeiro giro na história da literatura em um contexto bem atual, amei. Confesso que dentre os estilos e suas distinções épicas, me vejo mais na forma grosseira da Capitu AHAHHAAH. Nem Amélia nem Helena, vou de Capitu mesmo auehaue.

    Parabéns pela surpreendente reflexão que seu texto proporcionou <3

    Faroeste Manolo
    Página Facebook

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  7. Oi ...
    Que texto incrível !
    Adorei as citações dos personagens .
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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  8. Olá, Eloisa.
    Que texto perfeito. Eu amei. É muito engraçado ver como o tempo passa e as coisas continuam iguais. Eu acho que não seria nenhuma nem outra, mas um pouco de cada uma delas.

    Blog Prefácio

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  9. Ah, mas tinha que ser a prof. Elô! Que texto maravilhoso!

    Bjs!

    leiturasegatices.blogspot.com.br

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  10. Oi Eloisa e Thamiris.
    Adorei texto, principalmente o final que faz refletir bastante.

    Bjos

    http://historiasexistemparaseremcontadas.blogspot.com.br/

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  11. Oi Eloísa!
    Adorei o texto! Não conheço a Helena, mas Capitu é uma personagem fascinante.
    Adorei sua defesa e acho que você tem razão quando diz que, independente do que tenha feito, ela foi sempre fiel a si mesma. Se mais mulheres tentassem isso ao invés da tal busca pelo príncipe encantado, certamente perceberiam que não precisam dele para terem os seus felizes para sempre.
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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  12. Olá,

    Primeira vez minha aqui, a Thamiris já passou lá pelo meu blog e agora entendi ainda mais os posicionamentos dela. Adorei o post, a comparação e o texto, de muita qualidade, bem escrito. Achei bem interessante a proposta de historiar por meio da literatura e ah, sou muito Capitu, Helena nunca consegui ser. Sempre estarei por aqui. Beijos!

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  13. Que crítica delicada, sensível e bacana de se fazer, flor! Adorei. Parabéns por reconhecer os diferentes papéis femininos retratados na literatura clássica e, principalmente, por resgatar o valor que realmente importa no final das contas. <3

    Beijos!
    http://www.myqueenside.blogspot.com

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  14. Olá Eloisa,

    Que texto maravilhoso, leve e delicioso de ler. Eu sou mais as Capitus, acho que sou bastante Capitu. As vivências, as circunstâncias e muito da nossa essência nos levam a ter uma personalidade dessa ou daquela forma e isto é simplesmente lindo e nos torna diferentes umas das outras. Eu sempre fui e sou um SER que vai contra o que é padrão e pouco se importa com a opinião dos outros. (hahaha). Amélia??? Hum... Não. Helena... ah! Também não, Anastasia??? O lado psicológico de ajudar o outro no final da trilogia sim, isso eu tenho bastante. Aliás, nunca somos somente uma, somos várias em um corpo ou em frasco que pode ser de perfume ou veneno que inebria sem matar. Podemos ser o mel, mas também o fel e essa dualidade toda são para as fortes que não temem os cachos, assumem as gordurinhas, não acreditam em príncipes, antes de agradar e amar o outro, ama a si e se valoriza ressaltando todos os seus pontos sejam eles positivos ou “negativos”, afinal somos um misto de tudo, pelo menos algumas mulheres guerreiras, protagonistas e autoras da sua história.

    Beijos e parabéns pelo texto
    Tânia Bueno
    www.facesdaleitura.com.br

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  15. Adorei sua crítica e analise dos personagens, um ótimo texto para ser refletido em sala de aula :)
    www.gordinhaassumida.com.br

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  16. Oi! Amei seu texto! Você escreve muito bem! Parabéns!
    Gostei de você ter associado estes clássicos antigos aos livros atuais (como 50 tons). Se Capitu traiu Bentinho, nunca saberemos e não cabe a mim julgar.
    Acho que sou Amélia com uma pitada de Capitu. haahaha
    Bjos

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  17. Olá

    Que texto maravilhoso, toda mulher devia ter uma Capitu dentro de si, ser fiel a si mesma.
    Parabéns pelo seu trabalho é incrível.

    Bjss

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  18. Olá! A mulher é forte para todas as áreas... Creio que a cada mulher possui um pouco de capitu em si, pela força de vontade e de querer vencer seus inúmeros obstáculos diários. E seu texto retratou bem isso neh!
    Beijos
    Ariana Silva
    ariabooks.blogspot.com

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