sábado, 7 de novembro de 2015

Conto: A professora sem nome - Jorge Goulart

Olá pessoal! Hoje eu trago para vocês um conto extremamente interessante. Se eu fosse vocês, leria até o final. Este conto é de um leitor do blog, o Jorge Goulart. Apreciem:

A professora sem nome

Era dia de aula de educação física e chovia muito. Nessas condições, as meninas sempre acompanhavam a professora para uma outra sala. A separação significava que nós, os garotos, poderíamos contar piada, jogar bingo ou damas... Sem muita discussão, escolhemos contar piada. Meus colegas, adoravam parecerem homenzinhos com seus chistes e gracejos de conteúdo, na maioria sexual. Abundavam os tipos étnicos, caricatos: os portugueses, japoneses, americanos, negros e brasileiros - sempre malandros e levando vantagem em tudo. Sem o advento do politicamente correto, as ofensas racistas, muitas vezes eram comuns, escancaradas ou mascaradas em frases de duplo sentido, situações inusitadas e mesmo personagens bíblicos e do além. O professor, comandava aquele tipo incomum de teatro e cabia a ele dar o tom, contando as piadas mais cabeludas. Quando não entendíamos muito bem, sorríamos disfarçada e quase ingenuamente.

A timidez era um mal que me afetava e ainda hoje, de certa forma afeta. Esforçava-me para não me sentir o mais ridículo dos garotos e não baixar a cabeça para as situações que uma criança de nove anos enfrentaria sem dificuldade. O mundo era estranho e feito para os fortes. Revelava-se em mim, a máxima de Brás Cubas, a qual "o menino é o pai do homem". No meu caso, o menino era um covarde e o homem a nascer, o espelho do mesmo. Naquela manhã chuvosa, o ânimo para a sacanagem aflorava e arrancávamos gargalhadas prolongadas e sinceras do professor, que não usava barba e nem era gordo, mas parecia um papai noel obsceno.

Naquele revezamento de retórica impura, os colegas saboreavam poucos segundos de fama em meio a uma quase balbúrdia abafada pelo aguaceiro conivente. Diante disso, enfrentei meu medo e ensaiei levantar o braço, tentei uma vez, duas, três, mas ninguém dava atenção. Alguns garotos contaram mais de uma piada, os gestos sobressaiam às palavras, tudo parecia mais exagerado, vivo, colorido... Sorri muitas vezes, mas não me contentava, tinha de falar, parecer normal assim como eles.. fiquei nervoso, pensei em desistir, fugir da sala, mas um tipo incomum de orgulho que ainda não havia sentido, me impediu e então, quase no fim da aula, me cederam a palavra.

As paródias eram a moda, os garotos transformavam músicas populares em tiradas pornográficas, grotescas. Lembrei de uma mais conhecida, do Roberto Carlos, que adulteram para um conteúdo racista. Meus colegas negros, estavam acostumados, era um tipo de provocação criada para a rivalidade do futebol, acreditava ingenuamente.

Na hora em que finalmente estava na frente de todos e prestes a começar a minha cantoria, soou o alarme terminando aquela aula. Já não podia mais desistir, tinha de fazer parte do mundo masculino, me transformar em homem. As alunas e a professora aguardavam na porta para a aula seguinte - algumas entraram na sala, mas resisti e enfrentei o medo. Talvez o professor não acreditasse que eu teria a coragem para tanto e por isso não me impediu, esperava algo ingênuo, infantil... Cantei aquela mesmo e nem lembrei que a minha professora era negra, que algumas meninas e colegas meus também e no calor da emoção, perdi a noção... Alguns garotos, ainda ensaiaram umas risadas insolentes, em solidariedade, mas era tarde. Minha professora estava lívida, não acreditando no que ouvira. Depois, o silêncio e uma advertência: Na segunda-feira iria conversar comigo. Não me lembro se consegui dormir, sei que não brinquei, se dormi, sonhei e tive pesadelo. O final de semana, estranho e interminável me levava mais perto do meu destino, a cada hora que passava, como se eu fosse (desculpe o exagero) um escravo nos momentos antecedentes ao castigo inevitável. Pensei até em suicídio!

Na segunda-feira, a professora não me repreendeu, os colegas não comentaram, não aconteceu nada. Estranhei o silêncio e o tratamento idêntico dela, continuava a mesma pessoa. Nem um olhar de ressentimento, nada. Acho que esse silêncio foi ruim, até hoje me sinto em débito constante, a falta de castigo me castigou prolongadamente e meu relacionamento com pessoas negras são sempre superficiais - impera entre nós uma desconfiança fria, olhares distantes, indiferentes e quando me deparo com situações de injustiça ou de injúria racial, torna-se impossível esquecer daquela professora, do seu rosto assustado, estático pela ofensa de um menino que ela ajudou a educar e que naquele dia, a feriu profundamente.

Não lembro do nome dela.

Por Jorge Goulart

11 comentários:

  1. O único problema desse conto, é que ele acaba.
    Post it & Livros

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  2. Que post mais profundo!
    http://grandemetamorphose.blogspot.com.br/

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  3. Olá, e minha primeira vez aqui, e já deparo com algo tão incrível !! Adorei, muito bom.

    Beijos ♥
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  4. Olá!

    Adorei o conto! Continue escrevendo e postando mais coisas maravilhosas como essa!

    Beijos!
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  5. Oii Thamiris, Tudo bem?
    Amei o conto e o seu blog! *-* Já estou seguindo! Depois dá uma passadinha lá no meu para conhecer! :)
    Beijos,
    Isa – Night Phoenix Books

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    1. Este conto não é meu.
      Fico feliz que tenha gostado do blog!
      Beijos

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