quinta-feira, 22 de outubro de 2015

O que der na telha - com DeCastro #10


Os insepultos olhos vagavam no frio das aveludadas e dançantes nuvens, e o vento que batia levemente bagunçando os castanhos cabelos leva consigo em cada lufada os soturnos pensamentos. Aparentemente uma névoa entrou sorrateiramente por debaixo da porta e infiltrou-se pelos gélidos pés da cama, em seguida pelo lençol branco e logo pelo delgado corpo indesejado. Lembrou-se do natal e 1934. A exatamente 22 anos. No deslaçar das fitas vermelhas dos presentes a fatídica notícia: a pequena Tacci fora uma violação. Aquelas palavras não continham ainda para a menina de quatro anos sentido algum, entretanto descobrira depois, não muito tempo em seguida daquelas palavras fazerem morada ali dentro, que elas eram uma espécie de insígnia do mal.

Todos os anos escorriam por entre as falanges de Tacci como uma solução de acônito e asfixiava-a aos poucos, pois convivia com a lembrança daquele ano: Tacci, a violação. A fístula toma conta dela; era ela e agora aquele corpo abstêmio e sagrado que trazia no seu ventre haveria de sofrer as mesmas consequências que Tacci. 

Nevoentos pensamentos atormentavam-na e evocou eguns para auxilia-la, mas sua ladainha nada mais era que fala de ventríloquo. Pululava nela a pestilência, o fúnebre, o tétrico e o abismo do décimo terceiro andar do hospital seduzia-a esmagando sua alma torpe contra a calçada. 

Porta abre. Uma velha enfermeira entra. Seu uniforme alvo apenas marcado por uma pequena mancha de sangue que, provavelmente, ela teria tentado apagar do brunir, mas teria que viver com aquilo por quanto fosse necessário. Sobre o umbral da grande janela Tacci. Medicações caem no chão e espatifam. O quarto abrumou-se rapidamente. Um bisturi invisível cortava os olhos enxutos de Tacci e deposita nas órbitas duas esferas de aço. Em um monólogo dialogado com sua filha, que era pura, como o uniforme da enfermeira, mas também como o uniforme, tinha uma marca, a mesma da roupa e a mesma que vestia Tacci: a mancha da violação. Entre os soluços que cortavam as palavras, a existência deixou de ser anódina.

DeCastro

9 comentários:

  1. Confesso que demorei um pouco para entender o texto, mas é maravilhoso. Me abalou um pouco por ser bastante triste( e tu sabes que sou emotiva para um caralho hsuahas) Mas ficou incrível. A cada dia que passa você me surpreende ainda mais.

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    1. Sim, você é emotiva para um caralho mesmo. Fico bem em saber que atinjo você, Amor.

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  2. Olá, vim vistar, gostei do blog e estou seguindo =)

    Caramba, DeCastro, a tua telha é maravilhosamente louca, primeiro texto que leio da sua autoria e achei assustadoramente belo, rsrs.

    Beliscões da Máh s2
    Blog | Twitter ||Instagram

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  3. Olá, vim vistar, gostei do blog e estou seguindo =)

    Caramba, DeCastro, a tua telha é maravilhosamente louca, primeiro texto que leio da sua autoria e achei assustadoramente belo, rsrs.

    Beliscões da Máh s2
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    1. Hhusauhasua, muito obrigado pelo reconhecimento pinel. Fico bem em saber que me veem exatamente da forma como sou: Louco. Continue frequentando o blog e, claro, a coluna.

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  4. Um ótimo texto. Um tanto complexo, mas inegavelmente bom!

    http://www.decidindose.com/

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    1. Muito obrigado. Outras pessoas falaram também que é um tanto complexo, embora eu não veja tanta complexidade assim. Conquanto a minha vista esteja nebulosa e comprometida pela categoria "escritor".

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  5. Olá DeCastro,
    Também demorei um pouco para entender, mas achei o texto bastante interessante.
    Aliás, tudo o que você escreve é interessante.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

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    1. Olá, Bruna.
      Pois é,acho que não dei conta da dimensão desse texto. Que bom que gostou, acho que o próximo texto irá surpreende-la, ou não. auhsuas
      Beijos

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