quinta-feira, 8 de outubro de 2015

O que der na telha - Com DeCastro #08


A família é como a varíola, a gente tem quando criança e fica marcado o resto da vida. Parecia muito claro para a jovem Jordana o sentido do que é uma família; o condão de todos era permanecer juntos. Mas mal sabia ela o que germina no cerne das relações conjugais. 

Seu pai frequentemente bebia doses de uísque que tornavam sua condição cancerosa ainda mais severa e confrangia sua alma. Todos adoeciam com o Sr. J. e Anna, mãe de Jor, não aceitava ter que morrer junto com o esposo, afinal havia lhe dedicado a vida sem retribuições ou reconhecimento.

Num rasgo de desatenção de sua mãe que fora preparar o banquete suntuoso dos domingos, Jor pegou o inexpugnável celular em cima do bidê: Você foi demais na noite passada, baby assinava alguém chamado C. de Cameromm. Anna atravessa a porta e violentamente arranca das mãos de sua filha o telefone. Lança com aquelas grandes ameixas enegrecidas incrustradas na cara um olhar pulverizador para Jordana que corre para seu quarto, estupefaciente, no interminável corredor com as obras de arte e as portas a sucederem-se umas às outras numa ordeira disposição. Trancafia-se em seu quarto e o imbróglio moral se estabelece em Jor: contar para o pai que sua mãe está lhe traindo e assim acabar com a família legitimamente feliz ou deixar tudo às escondidas e sobrepujar o dilema contando ainda com os passeios domingueiros e as festividades natalinas? Eis a questão.

Dois dias passaram sem que Jordana sentisse a brisa que fazia fora de casa. Recebia as refeições ali mesmo sobre as desculpas que não estava disposta para sair. Anna sabia que tudo isso não passava de ludíbrio e que em breve essa ogiva poderia estourar, então decidiu mantê-la dessa forma. O quarto é, muitas vezes, o subterfúgio do caos que as famílias se tornam aos domingos. 

O cancro de não saber resolver o nó górdio a tornou mais doente em dois dias do que seu pai nesses sete anos de combate ao câncer que tinha acabado com a metade de sua boca. Desapiedar-se do Sr. J. e contar-lhe toda a verdade ou continuar sendo testemunha de um pecado corrosivo? Jordana podia sentir o fel na sua boca: não apenas sua amada mãe havia traído, ela própria também estava traindo e pior, se contasse também trairia. Uma abrasadora vontade da verdade tomou conta de seu coração e Jordana decide sair do quarto e findar com toda a aflição. 

O trinque gira aos poucos- a insegurança de não saber como dar uma notícia tão escabrosa fê-la quase desistir- a maçaneta é acionada, a porta se abre. Tímidos passos em direção a sala de jantar. Anna deixa desabar os pratos que estava pondo na mesa e estremece ao ver que Jordana tinha saído do quarto para pôr o derradeiro fim a tudo. J. com dificuldade se levanta e vai abraçar a filha que está sôfrega e deprimida, sem mesmo que os braços dele anelassem ao corpo delgado de Jor e sobre o olhar súplice de sua mãe, Jordana, como uma metralhadora, faz o disparo. O choque é grande. “Vocês me traíram. Ponham-se para fora daqui as duas, já!” Anna com o avental e um suéter de linho e Jordana com apenas um vestido de musselina puído e amarrotado, cruzam o umbral da porta. Chegando na rua Anna diz: “não quero que venha comigo. Confiei em você e me traíste.” 

A lua, importando-se com o sofrimento da jovem Jor foi, desde então, sua única companheira e família.

DeCastro

12 comentários:

  1. Oi ...
    Como sempre você arrasou !!!
    Amei esse finalzinho :)
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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  2. Texto forte. Parabéns. Fique tensa com: " O quarto é, muitas vezes, o subterfúgio do caos que as famílias se tornam aos domingos.".

    Beijos,
    http://postandotrechos.blogspot.com.br/

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    1. Muito obrigado, ao menos o quarto de quando eu morava com minha mãe servia-me de refúgio.

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  3. Olá DeCastro, tudo bem?
    Como sempre, seu texto está muito bem escrito. Mas, esse texto não funcionou pra mim. Não sei explicar, ele não conseguiu me cativar. Claro que isso não muda o fato de você escrever maravilhosamente. Só acho que não estou num bom momento para ele :(
    Beijos
    http://mileumdiasparaler.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Bruna. Tudo sim e você, como tem passado?
      Não dá para acertar em todas, há textos que nos aproximam mais, enquanto outros nos afastam de suas linhas. É assim mesmo.
      Gosto e espero que continue comentando, pois os comentários servem como um feedback.

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