quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O que der na telha - Com DeCastro #07


O cotidiano transcorria normalmente. 18:00 horas. Céci foi a primeira dos Burgsons a chegar em casa depois de prestar expediente na biblioteca municipal. Nem bem havia chegado e já começou a preparar o jantar. Em seguida chegaram Marcel e o pequeno Stuart. Marcel era um ex esbirro que foi afastado da corporação quando começou a apresentar comportamento facistóide. Recebia seus rendimentos sem precisar exercer seu antigo posto. Assim que chegaram, começaram a desempenhar seus papéis sociais.

Os Burgsons raramente demonstravam amor uns pelos outros. Todos ali não passavam de meras peças de um quebra-cabeça, com funções bem delimitadas e que se, colocadas em outras disposições, não se encaixariam e assim, seria impossível a formação esperada pelo rótulo do brinquedo.

Marcel foi a cozinha aventada e encostou os lábios nos de Céci- isso jamais poderia ser considerado um beijo; não havia sentimento nem entrega, apenas um acordo social, como de estranhos que, ao se verem, apertam as mãos. Provou o tempero- como todos os dias fazia- aprovou-o e saiu. Com as panelas fervilhando no fogo, Céci vai a sala ver Stuart. Beija-lhe a testa. Stuart encontra-se sentado sobre os calcanhares fazendo umas garatujas nas folhas em cima da mesa de centro.

Céci volta para as panelas. Marcel pega seu antigo revólver. Deposita-o na mesa de centro e coloca um disco para tocar: jazz. Senta-se a otomana e dedica alguns minutos a leitura de um opúsculo do partido. Seu espírito arrevesa. Pega a arma na caixa oblonga e procura pela sala o pano de limpar o revólver. “Na segunda gaveta do balcão amarelo” responde da cozinha Céci. Marcel ocupa novamente o estofado, o pequeno Stuart agora está escrevendo algo ágrafo. O tecido desliza por toda a extensão da arma. O gélido da morte toma-lhe as primeiras falanges, em seguida as segundas, logo a mão e o braço. Stuart projeta sobre Marcel seu olhar terno. Entre o berrante e os sobrolhos responde ao olhar do pequeno e afaga sua cabeça. Fecha um dos olhos. Inclina a arma num ângulo de 45 graus; seu dedo num frenesi inexplicável toca a meia lua infernal e um som estrondoso abafa o desarrumado jazz. Stuart cai com a cabeça sangrando e os olhos esbugalhados sobre seus desenhos. Como em um estroboscópio tudo escoa em frente aos olhos de Marcel. Outro disparo. Novamente o som da música é sobrepujado pelo eco seco da morte. Céci, com seu costumeiro avental, com a faca de cortar carne em uma das mão e com a toalha na outra, vê pelo pórtico de acesso de um cômodo para o outro seu filho e esposo caídos, sangrando. Esse na otomana, aquele na mesa de centro. Emerge de seu coração a dor e ela solta um grito- outra vez não se ouve mais os acordes da guitarra- de horror. O disco agora segue entoando seu ritmo pelo silêncio sepulcral da casa. A fatalidade é um suvenir ofertado a preço módico.

DeCastro

16 comentários:

  1. Oi DeCastro,
    Esse texto me arrepiou completamente.
    Acredito que você descreveu muito do que é a família. Atualmente, não há demonstração de amor entre os familiares, deixou de existir aquele 'calor' que nos mantém vivos.
    Concordo contigo, "A fatalidade é suvenir ofertado a preço módico."
    Cada vez que leio seus textos, tenho mais certeza do quão bem você escreve.
    Beijos,
    Um Oceano de Histórias

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi, Bruna.
      Realmente, a "família" tem se tornado qualquer outra coisa, exceto família. Obrigado pelas palavras de carinho.

      Excluir
  2. Oi Thamiris, td bem?
    Nunca tinha visto essa coluna por aqui, vc posta texto de outras pessoas, é isso?
    Sinceramente, nunca li nada assim. Muito tenso, e achei interessante as palavras que ele usou...
    Bjs
    http://acolecionadoradehistorias.blogspot.com

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Oi Carol! Já tivemos sete contribuições do DeCastro. Também gosto.
      Beijos

      Excluir
  3. Que texto belo e brutal. Muito bem trabalhado e escrito, sem falar que o fim me surpreendeu.
    Excelente postagem!

    Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de outubro. Serão seis livros para três vencedores.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado e, fatalmente, o trágico é brutal e cru, cabe ao escritor dar tons mais amenos.

      Excluir
  4. Adorei o texto, Filipe. Parabéns!

    Beijos,
    http://www.gemeasescritoras.com/

    ResponderExcluir
  5. Olá Thamires, tudo bem com você?
    Eu adorei aqui, inclusive adorei seu texto, me arrepiei até!

    http://ancorandoomundo.blogspot.com.br

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Olá Yasmin, fico feliz por ter gostado do blog. Muito obrigada!
      Por favor, há uma indicação de que esse texto não é meu.
      Beijos

      Excluir
  6. Respostas
    1. Este comentário foi removido pelo autor.

      Excluir
    2. Lembro de você arrepiando quando leu o texto, baby.

      Excluir
  7. Lipe simplesmente não sei o que dizer. Que texto intenso! Chegou a me arrepiar rsrs

    Beijinhos, Ana.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Para quem não sabia o que dizer, conseguiu dizer algo uahsuas. Também achei intenso e por isso gostei muito do conto.
      Beijos

      Excluir
  8. Lipe simplesmente não sei o que dizer. Que texto intenso! Chegou a me arrepiar rsrs

    Beijinhos, Ana.

    ResponderExcluir

Seu comentário é muito importante. Obrigada!

Obs.: Caso você não tenha uma conta no Google e não saiba como comentar, escreva o que deseja na caixa de texto acima e na opção "comentar como" selecione "Nome/URL", preenchendo somente o campo nome.

E-mail para contato: thamirisdondossola@hotmail.com