quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Com amor, mulher.

Olá leitores, tudo bem? O post de hoje é diferente do habitual. Não vou falar de livros, vou falar da realidade que nos cerca quando o assunto é estupro, aborto e assédio sexual. Espero que possam ler o texto e compartilhar comigo suas opiniões. Até a próxima!


Querido diário, 


Na semana passada, uma moça de dezenove anos foi agredida e estuprada dentro da sua própria casa. Eu não a conhecia até que o ocorrido começou a aparecer nas telas das tevês e nas folhas dos jornais. 

Eu preferia continuar não a conhecendo.

Beijos, Laura.


Hoje pela manhã, acordei cedo, vesti uma blusa amarela confortável e uma saia rodada que eu adoro. Tomei café, abracei meus pais e saí para trabalhar. Eu tenho vinte e um anos e trabalho como professora de Língua Portuguesa e Literatura há uma semana. Hoje, finalmente, o dia amanheceu ensolarado e abafado, depois de uma semana inteirinha muito chuvosa e fria. Durante o caminho, notei o olhar de algumas pessoas, um olhar de reprovação. Eu sabia que elas não estavam me olhando de um modo normal, mas procurei não pensar muito naquilo.

Ao chegar à escola, passei pela sala dos professores, cumprimentei meus colegas, que, assim como as pessoas na rua, me olharam de forma diferente, mas me retribuíram o cumprimento. Achei que, talvez, fosse o tempo abafado. Na semana passada estávamos congelando. Quem acredita nas quatro estações? Peguei meu material no armário, aquele que deixei ali na última sexta-feira e segui para a sala de aula, onde daria a minha primeira aula de Literatura do dia, estudaríamos Humanismo. Íamos fazer isso. Íamos.

- Professora Laura! Por que a senhora está vestida assim? 

A pergunta foi tão direta que me pegou de surpresa. Para resumir a situação, recebi uma pilha de questionamentos sobre a minha roupa, todos começaram a falar ao mesmo tempo, as meninas me olhavam com reprovação e os meninos riam, falavam bobagens e gritavam. Me senti como um pássaro recém capturado na gaiola, sendo observado. Naquele momento, não soube o que fazer, acredito ter me descontrolado, mas enfim, creio que agora já não faça diferença, estou traumatizada. Corri para a rua, peguei um ônibus e chorei.

 ♥


Querido diário,


Ontem, enquanto eu navegava no facebook, encontrei uma postagem que dizia o seguinte: “Jovem é estuprada pelo próprio tio. Grávida, ela opta pelo aborto”. Os comentários abaixo na notícia chamavam a jovem de assassina. 

Eu preferia não ter lido aquilo.

Beijos, Eliza.



Fui vítima de estupro. Hoje, depois de sete anos, estou finalmente sentindo a ponta da recuperação. Um fantasma me assombrou durante todos esses anos que se passaram, ele me acompanhava além dos pesadelos, ele era meu companheiro diário. Acordava, almoçava, passava a tarde e ia dormir comigo. Mas, finalmente, estou conseguindo me libertar dele. 

Foram anos de terapia, acompanhamentos, consolos e lágrimas, muitas lágrimas. Acho que acabei com o estoque. A culpa foi daquele desgraçado. Enquanto eu voltava do trabalho, às oito horas da noite, fui surpreendida por dois homens desconhecidos. Eles me puxaram com tanta força para dentro do carro, que eu não consegui reagir, foi tudo muito rápido. Quer dizer, essa parte. A outra demorou uma eternidade para passar. 

Chegamos a uma casa muito velha, eles amarraram meus braços. Eu estava apavorada, me pergunto como não desmaiei. Então, um deles foi embora. Ficamos eu, o desconhecido e o silêncio acompanhado dos meus gritos e pedidos de socorro. Não tinha ninguém por perto. Depois de um tempo sendo agredida, eu desmaiei. Foi aí que aconteceu. 

No dia seguinte, amanheci num hospital, tinham me encontrado jogada na rua, como um lixo, algo descartável. A partir daí, das notícias, da gravidez, minha vida se tornou um inferno. Eu não queria aquele filho. O corpo era meu e eu não suportaria. Julgaram-me. “Assassina!”, era o que eles diziam. Mas eu não os ouvia, só queria que alguém tirasse de mim aquilo que me faria lembrar sem interrupções, para o restante da minha existência, o pior acontecimento que me aconteceu na vida. 

 ♥

Querido diário, 



A manchete do website de notícia dizia o seguinte: “Mulher é vítima de assédio sexual dentro de ônibus”. Essa mulher era minha prima, ela se chama Marcela e tem lindos olhos azuis e um corpo invejável. 

Vou visitá-la hoje.

Beijos, Aline.

 ♥

Entrei no ônibus lotado, como sempre. Aquele horário, o das cinco horas, era sempre muito movimentado. Estava voltando do trabalho e indo buscar meu filho na escola, depois ia para casa. Tive que ficar em pé dessa vez. Normalmente, mesmo o ônibus estando cheio, eu sempre arranjava um lugar. Daquela vez o destino contribuiu. 

Ele chegou perto de mim, mas eu não percebi, tinha muita gente ao redor, quase todos absortos em seus pensamentos, estressados ou cansados. Só depois eu percebi sua presença, depois, quando ele sussurrou no meu ouvido: “Não ouse gritar”. Eu o olhei extremamente assustada. Ele segurava uma faca em minhas costas e encostava-se a mim. Virei para frente, engoli em seco, depois o olhei novamente, ele sorria. Era um sorriso maligno, sujo e amedrontador. Lágrimas começaram a rolar em meu rosto. 

O homem começou a sussurrar o local onde desceríamos. Era a minha parada, perto da escola do meu filho. O destino se meteu novamente, dessa vez, para me ajudar. Concordei com o homem e fiquei pensando o que faria quando o ônibus parasse. Ele me ameaçava. O ônibus parou. Qual seria o meu destino? Agressão? Estupro? Morte? Descemos. Assim que descemos, ouvi aquela voz. “Mamãe!”, meu filho veio correndo na minha direção, atrás dele, meu marido gritava: “Jorge, cuidado para não tropeçar! Aline, ele não tem jeito”. O homem começou a se afastar na medida em que meu marido se aproximava.


Queria não precisar estar escrevendo isso. Queria desconhecer essa realidade cruel em que as mulheres são obrigadas a viver. Você não está segura nem dentro da própria casa, como o primeiro caso mencionado, quem dirá na rua. A rua é vista por nós, como um campo de batalha, como o desafio diário. Vamos sair hoje, mas quem nos garante que voltaremos da mesma forma como saímos? Ou melhor: Quem nos garante que voltaremos para casa?

Por quais motivos nós, mulheres, temos que nos preocupar com a roupa que vamos vestir? Se usarmos uma saia muito curta ou uma blusa muito decotada, a probabilidade de sermos automaticamente rotuladas é imensa. Isso se não formos assediadas. Se o calor é de quase quarenta graus: Ok, tudo bem. Agora, se eu gosto de me vestir assim. Se eu gosto de usar roupas curtas: Não, não está tudo bem. Você está sendo vulgar! Há motivos e motivos. O segundo não é aceitável.

A mulher é dona do seu corpo. Ela tem total direito sobre ele. Ela tem liberdade sobre ele. É claro que quando se é mencionada a palavra “aborto”, essa descrição é esquecida, deixada de lado. A mulher é questionada: “Como você tem coragem de matar uma criança? Todos nós temos direito a vida!” Mas, abrimos um espaço para a seguinte questão: Como a mulher vai lidar com o fruto do estupro em todos os dias da sua vida? Bem? Mal? Se bem, tudo bem. E se lidar mal? O que ela pode fazer? Cometer suicídio? Praticar o abandono? Quais as consequências?

Por quanto tempo ainda teremos que viver com o monstro do assédio sexual, do estupro e do aborto em nossas vidas? Quando chegará o dia em que sairemos tranquilas na rua e não nos assustaremos quando algum desconhecido se aproximar no ônibus, na rua, em qualquer lugar? 

 ♥

Querido diário,

Estou aqui, novamente, contado a você o milagre diário pelo qual passei hoje: Não fui assediada, nem estuprada. Foi um dia carregado, mas felizmente estou salva. 

Boa noite!

Por: Thamiris Dondóssola

22 comentários:

  1. Oi Tha, acho que qualquer um que acompanha seu blog ou que leu esse post pode entender porque eu indiquei ele na categoria melhores textos!
    Sempre que venho aqui me deparo com assuntos pertinentes e textos muito bem elaborados. (Não é atoa que seu blog está a frente na votação)
    Felizmente esse assunto vem bombando na internet e é bom que seja debatido e que vários lados do machismo sema abordados.
    Até tema de redação no enem foi!
    É muito difícil mudar algo que está enraizado em nossa cultura há tanto tempo. Mas com textos e pessoas como você, sei que isso pode ser feito!


    Beijos
    www.ooutroladodaraposa.com.br

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    1. Oi Raissa,
      Não sei nem como agradecer pelo carinho, muito obrigada mesmo!
      Sim, foi muito bonito ver esses temas na redação do Enem.
      Sonho com o dia em que as coisas começarão a mudar.
      Beijos!

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  2. Oi Thamy
    Tema pesado, mas infelizmente é muito recorrente. Como eu não trabalho, não passo por isso diariamente, mas percebo sempre que saio olhares, e olhe que não sou fã de roupa curta e justa. Se saio com meu filho, é ai que a coisa pega. Eu tenho 22 anos, mas sou bem pequenina e tenho carinha de bem mais nova, então sou metralhada com olhares acusadores. Morro de medo de asir sozinha. Aqui eu só saio se for em local próximo. Se tenho que ir mais longe, vou com meu marido. Ele mesmo não gosta que eu saia sozinha aqui. Infelizmente é assim que a sociedade caminha.
    Beijos

    Vidas em Preto e Branco 

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    1. Oi Lary,
      Não falei dessa situação, mas realmente, é algo a ser pensado também.
      Agora, me diga, deveríamos sentir medo de sair sozinha? Não. E nem é porque a onda de violência é grande, é por medo, medo do que pode acontecer pelo simples fato de sermos mulheres.
      Beijão

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  3. Impossível não se emocionar Thammy!
    Infelizmente sabemos que isso é verdade, que acontece diariamente, às vezes até sendo alguém que deveria proteger a mulher e em vez disso faz atrocidades como essas. Sonho com um lugar em que nada disso exista e reine a felicidade, segurança, tanto para mulheres como para criança. Apenas SONHO!
    Beijocas

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    1. Ai, Ana ♥
      Mulheres, crianças e segurança para animais também, hehe.
      Obrigada pelo comentário minha linda!

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  4. Li os textos e me coloquei no lugar delas, fiquei sem reação e não sei o que eu faria se fosse comigo. Ontem uma amiga passou por algo parecido, mas não aconteceu nada com ela, Graças a Deus! Quase chorei ao lembrar dela, porque hoje ela chorou ao lembrar.
    Espero que chegue logo o dia que esse pesadelo acabe.
    Amei o post! Beijos
    http://peque-na-sonhadora.blogspot.com.br/

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    1. Oi Gisely, comigo, enquanto escrevia, o mesmo aconteceu.
      Que bom que não aconteceu nada, graças a Deus!
      Obrigada, beijos.

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  5. O tema é pesado, mas você soube tratar com muita delicadeza e firmeza em suas palavras.
    Apesar de intimamente ninguem querer viver,conhecer e ler sobre isso, precisamos debater em todos os lugares.
    Gostei muito do que li aqui.
    Beijinhos
    Rizia - Livroterapias

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    1. É verdade, Rízia. É preciso debater sobre o tema.
      Muito obrigada! ♥
      Beijos

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  6. Olá! Caramba que texto, muito real. Nós mulheres de fato vivemos amedrontadas com o que pode acontecer, temos que vestir de forma que não chame muito a atenção porque nós somos culpadas até do jeito de vestir. É atormentador. Hoje fui fazer um exame, tive que ficar praticamente nua, apenas com uma roupa daquelas fininhas. Entrei só no laboratório e ficou eu e o médico, morri de medo. E sei que não é só eu que sou assim, a grande maioria. É tenso =/

    Esse sem dúvidas, é um assunto que deve ser debatido, conversado, falado em todos os lugares. Mulher não é um objeto é um ser humano e deve ser respeitado como tal.

    Sério, amei teu texto.
    Beijos
    www.lendoeapreciando.com

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    1. Oi Kamilla,
      Não posso ouvir frases do tipo: "Também! Você viu a roupa que ela estava vestindo? Estava pedindo!".
      Eu entendo você e te digo: Teria a mesma reação.
      Sua última frase descreve tudo.
      Muito obrigada!
      Beijão

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  7. Oi Thamiris!!
    Minha primeira visita aqui no blog e estou encantada com tudo, mas principalmente com seus textos. Esse em especial, é muito tocante para nós mulheres.
    É triste vivermos nessa realidade. Tudo avança, menos a mentalidade humana.
    Parabéns pelo seu trabalho! Voltarei sempre.
    Beeijos
    http://myqueenside.blogspot.com.br/
    http://www.pequenosvicios.com.br/

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    1. Oi Bia,
      Isso me deixa muito feliz! É muito bom saber sua opinião, obrigada por compartilhar.
      ♥♥♥
      Beijos

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  8. Oi...
    Essa é infelizmente uma realidade brasileira :(
    É só ligar a TV que ficamos sabendo das piores violências contra a mulher . Ainda tem muita coisa a ser mudada .
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Nem precisa ligar a TV, a violência está por todo lado.
      Beijos

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  9. Nem sempre foi assim, mas com o processo "civilizatório" a coisa tendeu a piorar. Mulheres em culturas ancestrais eram tidas como sagradas, mas atualmente, com a objetivação das relações humanas, ou seja, a necessidade patológica e doentia- desde as histérica idade média, provavelmente-, de tornar tudo objeto, "coisa" e concretude- pois assim a manipulação é mais fácil- as mulheres são violentadas, pois afinal os "machos reprodutores"-no fundo não passam de descompensados sexualmente- as têm como objeto.

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    1. Vejo que as coisas se perderam. E essa necessidade é ridícula!
      Obrigada pelo comentário.

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  10. Oi Thamires! Estou de volta ao blog e mais uma vez encantado com o que leio.
    Sua criatividade na escrita é maravilhosa,porém, sobre esse texto, o que torna a postagem ainda melhor é a forma como você abordou esse - ou esses - assuntos tão delicados e preocupantes.
    O desrespeito com a mulher é absurdo e o julgamento dos outros são carregados de uma injustiça preocupante.
    Semana passada acompanhei uma amiga num ensaio fotográfico que ela fez, na praia. Óbvio que as fotos foram de biquíni e chegando no local alguns rapazes - alguns babacas na verdade - estavam pela praia. À medida que o fotógrafo começou a tirar as fotos eles começaram a soltar piadas e dizer coisas com conteúdo pornográfico. EU morri de vergonha, de nojo por ela e junto com ela.

    Vamos vivendo da torcida por dias melhores e pessoas menos ignorantes e grosseiras.
    Bjão.
    Diego, Blog Vida & Letras
    www.blogvidaeletras.blogspot.com

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    1. Olá!
      Quero agradecer-lhe pelo carinho. Obrigada por compartilhar conosco o seu ponto de vida e uma experiência observada.
      Beijos

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  11. Olá Thamiris!
    Esse tema é sempre algo que me revolta e assusta ao mesmo tempo. Ainda hoje a violência sempre presente, o que para mim é algo tão retrógrado... Uma pena que as nossas crianças estejam sendo criadas com esse medo e habituadas à opressão.
    Eu achei o seu texto maravilhoso! Parabéns! Me tocou no mais profundo, e sei que tirará muitas pessoas da zona de conforto! Comentei, vou compartilhar e aplaudir sempre que ler!
    Amei de verdade!
    BeiJU!

    Paixão de Leitora | Fanpage

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    1. Oi meu anjo,
      Suas palavras foram excelentes para descrever meus sentimentos.
      Fiquei muito feliz com seu carinho, obrigada por compartilhar, o texto e a opinião. ♥
      Beijinhos

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