quinta-feira, 24 de setembro de 2015

"O que der na telha" - com DeCastro #06


Enforco a vida todas as noites quando sento à máquina ruminando meu ser atrás de algum material interno no qual eu pudesse escrever. Mas nada do que produzia era inócuo a folha. Havia dias em que ficava sentado duas, três ou quatro horas sem que algo fosse depositado no papel, exceto fuligem literária. Então despejava uísque e inalava fumaça de cigarro. “Vou conseguir” e arcava novamente sobre a mesa. O crepúsculo despontava no horizonte.

Meu corpo caiado estava mais para a Oca de Manu, do que para depositário da minha alma. Tornei-me mórbido desde então. Não fosse a ainda remota ocupação de escritor, entregar-me-ia totalmente a loucura. Mas não podia. Ela havia se ido e deixou-me só. Nossas mãos tocando, uma a outra, em cumplicidade. Nossos dedos enlaçados, cada um ao seu par, num gesto de carinho recíproco, eram depositados em minha memória com força e violência. Abandonou-me ao meu espírito pernicioso que insiste em me flagelar. O gládio do desvairo assolava-me todos os dias. “Vou conseguir”. O cancro consumia-me o interior, mas não havia desistido. Algo rumorejava: “Não irás dar conta. Desista. É débil insistir”. Sentia o cheiro sulforoso da minha alma sendo queimada em exéquias.

Minha luta era picaresca, cujo herói tinha a obrigação de vencer, caso contrário tudo tornar-se-ia uma moderna tragicomédia. E seria eu, o abobalhado protagonista. Eriçava-me todo quando, num assalto de consciência, as lembranças tomavam conta de minha cabeça e maltratavam-me com as indevidas acusações de incompetência. “Ei de conseguir”. E havia mesmo, se de fato tirasse meus flancos que avolumavam-se rapidamente da poltrona e fizesse algo. Escrevesse, talvez. Mas noite passada havia feito isso. Ligarei para ela. Isso. Empunho o telefone, digito vadiamente todos os números; chama. Uma. Duas. Três vezes. Desisto. Mais bebida. Solvo tudo de um só gole. Acendo um cigarro- todos precisam de um cigarro para suportar sobre os ombros a densa realidade que insiste recair sobre nós. Baforo. Inalo a fumaça. Trago. Baforejo outra vez. Telefone no ouvido. Seguro-o entre a orelha e o ombro direito. Com uma das mãos disco, com a outra seguro o tubo cilíndrico incandescente na ponta que dispersa sua fumaça pelo ambiente até encontrar refúgio na janela aberta. Chama. Uma. Duas. Três vezes e, quando vai chamar a quarta lembro: “Não há linhas telefônicas no cemitério”. Caio sobre a otomana. Trago novamente. Beberico mais um pouco e penso, com meus botões: “Vou conseguir".

DeCastro

8 comentários:

  1. Olá DeCastro,
    Sempre que leio seus textos sinto uma profundidade sem tamanho. O texto de hoje me deixou arrepiada, como sempre, está impecável.
    Você já pensou em escrever um livro :o
    Beijos
    http://mileumdiasparaler.blogspot.com.br/

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    1. Olá Bruna,
      agradeço as palavras de incentivo. Tenho duas coletâneas publicas, além de um terceiro livro pronto, faltando apenas tirá-lo da prensa. Também estou trabalhando, mas isso é para o ano que vem- em uma novela psicanalítica. Talvez eu publique aqui alguns trechos.
      Beijos,

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Esse texto me deixou muito emocionada
    Você é incrível 23 hsuahs
    Te amo, baby

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    1. As lágrimas que escorrem dos teus olhos quando me lês é o sinal de que estou no caminha certo. Te amo, baby.

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  5. Olá, Thamiris, Olá, Filipe.
    Parabéns pelo texto, está ótimo. Sem falar que é cultura, tem umas palavras ali que eu não sabia o significado e fui procurar para saber hehe. Adorei, especialmente o final.

    Blog Prefácio

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    1. Olá, Sil.
      Obrigado pelas palavras de carinho, sempre é bom ouvi-las. Penso que uma boa literatura deve, sobretudo, nos desequilibrar e ajudar na nossa formação.

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