quinta-feira, 17 de setembro de 2015

"O que der na telha" - com DeCastro #05


Cul-de-sac. Sinto-me assim. O café já há muito tempo esfriara na xícara e perdi as contas de quantos cigarros fumei nesse curtíssimo tempo que ponho-me a escrever. Ao longe, na vitrola, o Jazz agressivo e disforme enche toda a sala e minha alma. Subúrbio do eu é onde encontro-me. Garranchos na agenda de notas que mal posso ler. Escrevi ás pressas enquanto vinha do cinema. Provavelmente será apenas mais linhas que serão engavetadas e esquecidas. Se bem garimpado, encontrar-se-á boas coisas; admiráveis, até diria. Mas recuso-me a isso. Garimpar meus textos é ir ao encontro de mim mesmo e isso é por demais angustiante. Todo périplo interior requer coragem e alma, coisas que faltam-me desde que fui tomado pelo infortúnio vácuo que tolhe minha criação.

Sinto-me oco. Desprovido de matéria. Suspenso na bruma nostálgica de minha infância pobre. A rara comida que caia em meu estômago pairava no rarefeito do meu órgão. Mas eu tinha tudo. E tudo era aquela janela velha da nossa casa caindo. Janela de mundos. A relva, os animais, as montanhas e em toda sua extensão as árvores. Incontáveis árvores verdes, grandes e pequeninas árvores verdes. Apenas existia. E isso era tudo que queria. Existir. Para mim. No entanto cá estou eu, a digitar incontáveis linhas frenéticas e pouco inspiradas, apenas saudoso da casa dos meus pais.

Milhões de milhares de existências estendem-se amiúde por ai. Loiro, negro, alto, baixo, gordo, magro, com variações de cores de olhos; que gostam de gatos, cachorros, cavalos, peixes, avestruzes; que bebem e fumam, ou nem bebem nem fumam e também não fodem; inspirados ou com bloqueio criativo; que transam com suas mulheres, amantes, com outros homens; que cometem incesto, estupro, zoofilia, necromancia, bromance, são highsexuais; que gostam de velhinhas indefesas ou praticam pedofilia; pederastas. Bibliófilos, filatelistas, praticantes de filumenia, notafilia, numismáticos, tabacofilia, enfim, no lençol da existência, sujeitos avultam-se aos borbotões. O que difere-me de todos esses estares no mundo, que sentem, choram e alegram-se é que sou casado com a mulher que amo, cuja janela reencontrei no seu olhar.

DeCastro

10 comentários:

  1. Oi ...
    Como sempre você escreveu lindamente ...
    AMO seus textos :)

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Oi, obrigado pelo carinho e continue acompanhando o blog, em breve terá surpresas.

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  2. Não consigo descrever o que sinto quando leio teus textos, desde o começo foi assim e a cada dia me surpreendo e me apaixono ainda mais( por ti e pelos textos❤)
    Te amo, meu bem.

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    1. Sabes que os amo( a você e a literatura) e que não existo para além de ti e do que faço para estar no mundo. Te amo, baby.

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  3. A última frase foi avassaladora, hein!? Amei o texto!
    Aliás, amei todo o blog, ele é muito lindo, é minha primeira visita aqui e já estou seguindo!
    Beijinhos,
    Alice
    www.wonderbooksdaalice.com

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    1. Que bom que gostou do conto, sobretudo o desfecho. Continue acompanhando o blog, tenho certeza que encontrarás ótimas coisas.

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  4. Olá DeCastro,
    Seu texto está, como sempre, perfeito. Todo ele me deixou bastante pensativa, mas a última frase me pegou de jeito.
    Muito bom!!
    Um Oceano de Histórias

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    1. Olá, Bruna.
      Quando desestabilizo meus leitores sinto-me realizado, afinal,
      talvez escrever seja mesmo isso: ir de encontro ao inesperado.

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