quinta-feira, 3 de setembro de 2015

"O que der na telha" - com DeCastro #03


Se os símbolos carregam em si toda a verdade, o que aqueles negros olhos chorosos querem me dizer? Que verdade contém aquelas amêndoas sagradas? Seus cabelos são como bosques escuros que exalam um aromático perfume de flor silvestre. No seu peito impúbere sonho meus devaneios de imperador e me consagro nos teus beijos com a coroa de louros quando sou então tomado por um acesso de realidade. Enfureço-me. Meu rosto sanha. A adaga do ciúme cravou-me o coração.

As taças com resto de vinho espatifadas no chão. O rose do vinho mistura-se com o vermelho do meu sangue. Meu pé sangra, mas sobre seus protestos, decido-me ir. Calço os sapatos e com o apertar dos cadarços sinto que meu ferimento sangra mais; dói mais. Munido de cigarros, isqueiro, carteira e as chaves do apartamento decido sair sem rumo. 

Viro a esquina e ganho a rua principal. A chuva cai em torrencial. Encharco-me antes mesmo de encontrar abrigo na marquise de uma dessas lojas de perfumaria. Uma lufada bate-me ao rosto e sinto que ficou mais frio. Forma-se uma cachoeira na ladeira que serpenteia longinquamente e a água traz consigo a fuligem. Estava errado Fitzgerald, a noite não é suave. Tampouco acertou Shakespeare quando dizia que a realidade é Sonho de Uma Noite de Verão. A coisa real não é nem isso, nem aquilo. Tudo não passa de um lençol funesto e úmido que caí tanto sobre os desafortunados quanto os afortunados. E sangra. Enfadando-me a existir, sinto pejar meu ventre. Germina em mim algo novo: amo-a como jamais amei outro alguém antes. Os homens censuram o amor, mas os deuses não. Amar é augusto, entretanto é preciso queimar em exéquias o incenso do orgulho e banhar em lágrimas a pia batismal.

Resolvo voltar para casa. Antes preciso de cervejas e cigarros- os meus molharam e os lancei junto com meu orgulho na sarjeta. Já alto e trôpego, abro a porta e no divã, com a luz bruxuleante, um espectral corpo esguio deita-se languidamente. Beijo-a a boca e selo nosso amor com os lábios encostados nos seus. Resmungo algo entre dentes. A luz do abajur é acendida e me delicio com seu corpo caiado. Seu olhar incide sobre mim em brasas. Suas palavras, ditas junto ao meu ouvido, evocam o amor em tons brandos e aveludado. Resfolego e imprimo meu corpo sobre o seu.

Outra vez me permitiu ser feliz. Deu-me novamente a concessão para sorrir. A verdade é que não sei viver sem aquele olhar que me segue e a boca que beija e me xinga.

DeCastro

7 comentários:

  1. Sempre que leio tenho vontade de chorar, é incrível como você transmite emoção nos textos.
    Tenho muita sorte em ter um noivo tão maravilhoso.
    Te amo, baby.

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    1. Acho pouco improvável eu escrever dessa forma se não fosse você, Amor.
      Te amo

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  2. Sempre que leio tenho vontade de chorar, é incrível como você transmite emoção nos textos.
    Tenho muita sorte em ter um noivo tão maravilhoso.
    Te amo, baby.

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  3. Olá DeCastro,
    Seus textos sempre são bastante reflexivos e conseguimos ver a emoção transbordando.
    Adorei esse texto, acho que você escreve muito bem. Dá pra perceber uma profundidade incrível que muitas pessoas tentam encontrar e não conseguem.
    Um Oceano de Histórias

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    1. Olá, Bruna
      Suas palavras de incentivo sempre são bem vindas. Obrigado.

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  4. Olá ...
    Seus textos são incríveis !!! Mas leio com o dicionário na mão hahaha
    Você faz com que eu me sinta burra rsrs
    Beijos e parabéns pelo texto .

    PS : Thamiris já postei o texto para o projeto .

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Olá, Diane. Jamais foi minha intenção colocar alguém nessa condição. Pense por um lado positivo: terás uma maior proficiência nas suas viagens literárias.
      Obrigado pelas felicitações.

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