quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"O que der na telha" - com DeCastro #02



Finalmente consegui. A dias em que não escrevia nada. Desde que o mafuá começou a ser montado no terreno vazio aqui ao lado, nem uma oração digna foi depositada no papel. As batidas que os descamisados operários davam com suas pesadas marretas nas estacas de ferro que serviram como fundação para as tendas pareciam que estavam dentro da minha cabeça- golpeava-me como as velhas e desumanas práticas de lobotomia.

Aprecio com calma a fumaça do caldo verde que solvo com escrúpulos de criança. O movimento do vapor de desprender-se do sumo está fora de compasso com a canção infernal que entoa do carrossel. Os alados cavalos entalhados em madeira que circunvagam o eixo em ascensões e declínios mostram-se quase tão ridículos, estúpidos e patéticos quanto o michê com sua casaca de plumagens vistosas e sua cordoalha de ouro reluzente- lembra-me muito o afetado Oscar Wilde.

O profanador de jovens parece um muezim, bem localizado, fica a espreita dos rapazotes que caem na sua malha de arremate. Ajeita-se perto de uma das barracas de doces e logo um jovem basalto com pernas de vergasta aproxima-se do pederasta. Esse fala-lhe algo ao pé do ouvido, segreda-lhe uma inconveniência, e sua mão sacrílega toca a cintura do rapaz e ambos mergulham no negrume infinito da ruela.

Uma cigana acompanha uma parva balzaquiana para fora de sua tenda, essa esboça um sorriso de quem está apaixonada. Passando pelo carrossel, para e tira um cordão de ouro de dentro de sua blusa, em seguida abre o pingente em formato de coração. Suspira e quando se vai trombeteio umas poucas e boas para ela. Vira-se, procura-me, e quando encontra-me, aqui em cima, vejo seus lindos olhos súplices e um coração apaixonado. Meu semblante amaina. Empertigo perante tal contemplação do Belo e da vida que encontro naquele olhar. Saio da janela e vou, trôpego, ao toalete. Escanho meu rosto- ela não sai da minha cabeça. Sua imagem causa-me catalepsia. Quando dou-me por conta firo-me com a lâmina e meu rosto sangra. Emplastro uma mistura de pomadas com ervas e tapo com gaze. Aquilo dói, mas logo passará. Entretanto, sobre aqueles olhos não posso dizer o mesmo. Eles parecem que me seguem por onde vou. Tiro o celofane do uísque e sirvo-me de uma boa dose sem gelo. Solvo-a. Ainda dói-me o queixo e o coração. Despejo um pouco de bebida no ferimento- no coração também, quando bebo?- Volto, a contra pêlo, para minha janela- talvez no afã de vê-la outra vez- e perscruto cada canto daquele lugar, mas nada. Então volto a ocupar-me com as outras existências. No platô do real, os sujeitos amontoam-se e se desdobram sobre dimensões possíveis do seu ser- são mulheres, homens, viciados, etilistas, pais, soldados, professores, escritores, filhos, irmãos, tios e sobrinhos. É preciso ser um cretino para se viver em sociedade. Precisa-se ser hipócrita e vestir sua máscara- Cadê-la?- Junto com o frio da brisa que sopra pela janela sinto o cheiro da podridão e da miséria humana. A miséria é tão grande que expele pelos poros. As pessoas supuram seus ódios, e outras as lambem, tudo isso para viver nos amontoados sociais. Decido deitar. Já sem roupa, exceto pela cueca, e na cama, deixo com que meus olhos caiam como portinholas, quando então ouço novamente o som do carrossel e lembro daqueles famintos olhos de paixão que me devoraram todo. Resmungo algo entre dentes e decido escrever um pouco, talvez até o crepúsculo.

DeCastro

18 comentários:

  1. Ola bom dia Thamiris!
    Venho por meio dessa mensagem convocar você para olhar o último post que eu fiz no meu blog, referente a preservação do meio ambiente, ou seja, um assunto do interesse de todos! Peço também se possível divulgar ou repostar a mensagem com o intuito de alcançar o maior numero de pessoas. Fico agradecido pela atenção, muito sucesso para você.
    Beijos.
    http://estantedoluiz.blogspot.com.br/

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    1. Esse não é o lugar adequado para esse tipo de divulgação. Caso queira divulgar, procure outros meios e não o meu blog.

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  2. Tive que procurar umas dez palavras no dicionário, mas achei o texto muito legal. Gosto de viajar nas palavras das pessoas, achei bem interessante a perspectiva dele. Mas o texto é meio rebuscado pra mim, sei lá. haha

    Beijo
    www.ooutroladodaraposa.com.br

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    1. Olá, Raissa. Não que o texto seja rebuscado, apenas há um desvio da fala cotidiana e isso torna-o enriquecedor, já que, como você mesmo afirmou, tivesse que usar o dicionário e, aposto, essas palavras de certa forma entraram para seu léxico desde então. Espero que continue acompanhando a coluna- o blog também.
      Beijo.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Desvio da fala cotidiana. Isso me traz "lembranças", haha.

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  3. Nossa ... Amei seu texto ! E que palavras difíceis , heim ?
    Ficaria até com vergonha se lesse os meus kkk
    Peguei a publicar o que escrevo graças a Thamiris com o projeto ESM :)
    Beijos

    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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    1. Olá, logo você acostumará a minha estética literária- eu acho. Continue acompanhando o blog- e minha coluna também aushus. Espero encontrá-la na próxima quinta aqui de novo.

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  4. Olá Filipe,
    Adorei o texto.
    Você sabe usar as palavras ao seu favor e nos cativar.
    Apesar de ele fugir um pouco do padrão de textos que costumo ler, está incrível adorei.
    Beijos
    Um Oceano de Histórias

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    1. Oi, que bom que gostou. Todo escritor- ao menos deveria ser assim- tem a obrigação de usar as palavras a seu favor, afinal, é com isso que ele constrói e destrói universos.

      PS:. Prefiro que me chamem de DeCastro aushaus

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  5. Aplaudo de pé seu texto De Castro.

    A linguagem usada no texto é sem dúvida rica e diferente dos costumeiros textos que nos deparamos ao longo de nossas vidas literárias.
    Enriquecedor, isso mesma essa é a palavra certa para descrever a sensação que senti ao terminar de ler seu texto.

    Parabéns.

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    2. Este comentário foi removido pelo autor.

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    3. Muito obrigado Jessica. Acompanha o blog- e minha coluna- que em breve essa dificuldade será superada.

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  6. Que texto lindo. Adorei essa linguagem toda formal. dá um toque todo galanteador a crônica. Traga mais textos assim.
    Não sei se foi só impressão minha, mas graças a esse vocabulário rico, eu imaginei a cena no passado. Muito legal.
    Um grande beijo

    Vidas em Preto e Branco 

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    1. Olá Lary. Realmente meu conto tem um quê de vintage. Você será embebida de textos nesses moldes- já que é isso que pedes.

      Beijo

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