quinta-feira, 20 de agosto de 2015

"O que der na telha" - com DeCastro #01


Pela nesga da janela vira o sol rasgando a penumbra da noite como uma tesoura que corta um tecido de seda. Pela força com que os raios ensolarados refletem no vidro sujo haveria de ser um dia quente. O calor escalpela nos trópicos. De cenho em riste, descortino a janela e contemplo o incrível ipê florescido e tingindo de amarelo. Em seguida volto a ocupar-me com a frivolidade- escritores também são nugativos e em sua maioria levianos, exceto com seus próprios textos.

Meu vizinho sai para trabalhar e enquanto faz um esforço descomunal para destrancar o portão que grita rangendo, desarrolho um Sauvignon e dardei-o com a rolha. Não o acerto e o granítico sai incólume. Meneando a cabeça, rindo alto e- espero não acordar minha noiva, nem meu gato- bebericando o vinho no gargalo vejo meus turgidos olhos no velho espelho.

Farfalho um pouco pelo corredor uma velha cantiga e esbarro com minha amada- acho que a acordei. Tasco-lhe um beijo em seus lábios manchados ainda com um resto avermelhado de batom e sinto um fraco gosto de vodca misturada com limão contido no canto de sua boca. Sua boca mexe em pantomimas que jugo ser um "te amo, baby."

Encarquilho-me novamente na cadeira, abro mais a janela e forma-se uma halo sobre minha mesa. Preparo um narguilé, aspiro a fumaça, solto-a vagarosamente, até que ela seja consumida pelos fótons, e continuo escrevendo. Minha cabeça meneia. Corolário de todo escritor: bebidas, cigarros, insônia, livros, cabelos desgrenhados, bigodes mal aparados, gatos e é claro, amor.

— DeCastro

15 comentários:

  1. Na falta de palavras usarei essas: simplesmente de mais. *-*

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    1. Que bom que gostou. Suas palavras sempre são gentis.

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  2. Oi.
    Que lindo texto!
    Você tem o dom da escrita. Adorei ^^
    Beijos

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    1. Olá, fico grato pelo elogio. Não acho que tenho o dom, talvez seja mais dedicação mesmo. Ainda assim, obrigado.
      Beijos

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  3. Wow!
    Quando foi feita a apresentação do DeCastro, sabia que me surpreenderia com os textos, mas não imaginava que seria assim.
    Esse texto está MUITO bem escrito.
    Tu tem o DOM, cara.
    Sucesso!
    Um Oceano de Histórias

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  4. Eis um homem de sorte... Nada de trabalho,nada de filhos pequenos azucrinando... espero que a amante em sua embriagues não tenha esquecido de se proteger... é uma vida placida essa... que o personagem da história vive... talvez um pouco fútil também, me pego perguntando se gostaria de ler o livro escrito por alguém que vive esse estilo de vida... não sei a resposta!

    Pandora
    O que tem na nossa estante

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    1. Não diria de sorte, mas sim "um homem obstinado". Realmente, acertas quando dizes que não trabalho, afinal, se fizeres uma pesquisa rápida verás que, etimologicamente, trabalho vem de "tripalium", instrumento de três paus usado para o açoite de bois e de escravos. Logo, apenas sirvo- em um sentido estrito da palavra- a literatura, e isso inclui muito empenho.
      Fútil. Eis um problema. O que entendes por isso? Quem sabe ser um operário( não desmerecendo a condição) que não percebe a liquidez e a instantaneidade do cotidiano que está submerso seja tão fútil quanto um cara que tenta lutar contra o sistema e desconfigura o homem romântico- perjúrio ao conceito de romântico- da história vitoriosa. Escrevo o homem cru, sujo e real que você encontrará nas esquinas, bares e confins. Há um sério problema em se contar apenas uma história- comumente sendo essa a do vencedor.

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    2. Achei que era um texto literário, não pensei que você falava de si mesmo. Desculpe se ofendi de alguma forma, não foi a intensão, só opinei. Quanto a questão da futilidade eu coloquei um talvez, não uma afirmação, afinal o que é fútil para mim -filha de trabalhador educada para trabalhar escutando desde tenra idade o lema "quem não trabalha não vive, depende", pode não ser para outrem que possui outra perspectiva de vida. E sim, há um sério problema em se contar apenas um lado da história, o homem das esquinas e bares merece seu lugar na narrativa... Não nego esse direito a ele ou a nenhum sujeito nesse mundo de realidades diversas.

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  5. O narguilé me fez lembrar da Alice ^^

    De Castro, parabéns pelo texto, pelas palavras cheias de sentimentos.
    gostei :)

    www.vivendosentimentos.com.br

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    1. Meus textos sempre são com muito viso e entrega, talvez por isso saiam com tanto sentimento. Obrigado pelas congratulações.

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  6. Oi, achei muito bom esse texto, com uma elaboração fantástica. Beijos. lendocomabianca.blogspot.com

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    1. Oi, que bom que gostou da trama. Aguarde os próximos.

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  7. a sábia escolha das palavras lhe permitem sempre construir um belo e envolvente texto. E são elas, as palavras, que determinam sua vitoria, mas quem ganha com isso somos nós que o lemos! Obrigado!

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    1. Caríssimo Nilzo, suas contribuições para minha formação ainda ebulam no meu ser.

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