segunda-feira, 8 de junho de 2015

Lágrimas maternas

Não sei bem como começa e qual a origem, mas sei muito bem por que. Considerando essa afirmação, eu sei mais do que realmente gostaria. Então quando ela chora, o oceano vira um grão. A chuva, uma gota. A vida, uma morte. Às vezes é tão baixinho que nem dá pra escutar direito, mas isso está tão longe de ser resolvido quanto a minha velhice. Eu sinto. Eu sinto quando aqueles olhos redondos e verdes vazam. Eu sei bem quando eles viram um maremoto incontrolável.

Quando ela me disse que precisava de um lenço por conta do resfriado, eu tremi. Sabia que não tinha resfriado coisa nenhuma e que a noite não ia ser exatamente como eu esperava. Só tinha uma coisa que me dava mais medo do que ter uma crise incontrolável de lágrimas: Vê-la tendo uma. O que você acha? Ela é minha mãe. Eu fiz o que ela pediu e lhe entreguei o lenço mais próximo. Ela me agradeceu e num ímpeto aquilo aconteceu. Era ela. Sentada no sofá. Chorando.

Entrei em pânico. Eu tinha acabado de chegar, estava com sono e cansada. Quando a janela da cozinha bateu com a força do vento, eu consegui entender como estava me sentindo. Era muito compatível com a exaltação do vento daquela noite. Olhei pra ela, mas ela nem percebeu. Estava ocupada demais na sua crise incontrolável de lágrimas. Senti raiva. “Logo agora que eu estou tão vulnerável?”. Sentei ao seu lado. A raiva passou. Senti dor.

“Ah, filha...” Ela conseguiu balbuciar algumas palavras, mas eu não entendi. Não perguntei nada. Afinal, eu já sabia. Fiquei ali a vendo chorar, vendo aquela transformação acontecer dentro de mim. De uma tranquilidade momentânea, senti uma onda violenta tomar conta do meu oceano ocular. Então lá estávamos nós, duas gerações chorando descontroladamente. 

Eu estava tentando, mas estava difícil. Quando situações como aquela aconteciam, eu usava uma técnica infalível. Não pense ser egoísmo e eu não espero recompensa alguma. É só amor. Eu juro, eu provo. Vendo-me lacrimejar naquele estado lastimável, ela deu fim a sua crise. Perguntou o que me afligia. Eu escolhi um assunto qualquer, um daqueles muitos que me magoavam e deu certo. Ela parou. Por um instante me senti vitoriosa, por uma vida me senti uma heroína. Não há nada que faça tão mal quanto lágrimas maternas.

Naquele dia eu jurei novamente: Enquanto eu puder, farei de tudo para transferir a dor de minha mãe para mim. Nem que seja por alguns minutos a cada vinte e quatro horas. As circunstâncias pouco importam. Depois das palavras consoláveis, ela me abraçou e sorriu. Eu posso dizer então, que aquela sim, era a minha recompensa.

Thamiris Dondóssola.

6 comentários:

  1. Texto lindo!
    A minha mãe é muitooooo chorona, então de certa forma me "acostumei" com isso, mas sempre dói. Dói muito quando sei que ela chora por causa de algo que fiz :/
    Aí, dou um jeito de consertar e ela vem com aquele jeito que só as mães têm de nos dizer sem palavras "eu te amo e te perdoo por isso"
    Realmente quando amamos alguém queremos "pegar" a dor delas pra nós, não é mesmo?
    De novo, texto lindo. Meus parabéns.

    Beijos,
    Duas Leitoras

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    1. Muito obrigada! É importante saber que gostou. Concordo plenamente com sua última afirmação.
      Beijos!

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  2. Olá !
    Adorei o seu texto . Você escreve super bem , é capaz de transformar sentimentos em palavras :)
    Mãe é um ser super especial , a minha é assim : qualquer coisa que você faz , as lágrimas escorrem pelo rosto kkkk

    Já sou seguidora , poderia me seguir também ?
    http://coisasdediane.blogspot.com.br/

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  3. Oi Thami
    Que lindo. Minha mãe sempre foi muito sensível, então não raro eu a encontrava chorando por diversos motivos. Eu herdei essa choradeira dela e elas aumentaram ainda mais quando também me tornei mãe. Dizem que nasce uma mãe e com ela a culpa. Concordo, mas acho também que nasce o dom das lágrimas. A oração da mãe tem poder, as palavras da mãe tem poder, assim como as lágrimas também. Lágrimas curam.
    Um grande beijo de uma mamãe chorona

    Vidas em Preto e Branco 

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    1. Oi Lary,
      que lindo seu comentário, me emocionou. Obrigada pela visita, beijos!

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